- Muito bem, pode relatar o que aconteceu.
- Bom, o assalto foi ontem à tarde. Eu estava fazendo meu cooper...
- Espera, espera. Que horas foi o assalto?
- Às quatro e meia, quase cinco.
- "Cidadão foi assaltado às 5 horas da tarde de 22/06/2010". Na rua...?
- Na verdade foi na esquina da Torquato Jr. com a Marilene Silva.
- "na esquina da Rua Torquato Júnior com a Marilene Silva.".
- Isso. Ãh... só que Júnior é abreviado. Fica jota-erre.
- Como? Assim?
- É. Jota-erre. E ponto. E ali no horário também não se escreve assim. É cinco-agá. Cinco, o numeral.
- Tá bom, tá bom.
- Foi mal. É que eu sou escritor.
- Tudo bem.
- Sabe, fico pescando os erros.
- Certo. Então, o que você disse que estava fazendo?
- Estava correndo, fazendo o meu cooper.
- "O cidadão estava correndo para se exercitar."
- Não, não. Põe cooper, mesmo. É mais curto e eficiente.
- Tá.
- Na escrita, menos é sempre mais.
- Entendi. Você estava lá, fazendo o seu cooper. Aí chegou o ladrão?
- Isso.
- Chegou como? Já abordou você direto, com arma e tudo?
- Não, fingiu que queria só saber as horas. Quando eu parei para lhe informar corretamente, ele grudou em mim e disse que tinha uma faca, e que ia me furar com ela se eu não passasse a minha carteira e celular.
- "O ladrão abordou o cidadão pedindo as horas e depois disse que era um assalto. O ladrão disse que tinha uma faca e que iria furar o cidadão se ele não entregasse a carteira e o celular.". É isso?
- É.
- Quer corrigir alguma coisa?
- Não. Bem, é que...
- O que é?
- Não, deixa. Você vai me achar um chato.
- Fala.
- Não, é que você usou "ladrão" duas vezes seguidas. Não é bom repetir palavras. Sabe, fica feio pra quem lê.
- O que eu faço?
- Tenta pôr "meliante" no lugar do segundo "ladrão".
- "O meliante disse que tinha uma faca e que ia furar o cidadão se ele não..."
- Quer saber? Só coloca "ele". Está se referindo ao sujeito da última frase. O leitor irá entender.
- "Ele disse que tinha uma faca...". Ok, ok. Mais alguma coisa?
- Deixa eu ler. Ãh... É, a frase está meio mal construída. Reescreve assim: "Ele ameaçou furar o cidadão com uma faca caso este não entregasse a carteira e o celular".
- "...Carteira e celular.". Pronto. E depois?
- Depois eu passei as minhas posses e ele fugiu.
- Como? Saiu andando para onde?
- Desceu a Torquato Jr. e disse para eu seguir o meu caminho.
- "Depois de pegar a carteira e o celular do cidadão, o ladrão..."
- Já usamos ladrão. Bota "larápio".
- "...O larápio disse para o cidadão seguir o seu caminho e desceu a Torquato Júnior.".
- Júnior é jota-erre. E bota um "então" antes do "desceu".
- Como era o ladrão?
- Tipo, mais ou menos da minha altura, mas mais forte, tinha uma barba rala, pele negra...
- "O assaltante..."
- Isso. Boa.
- "...Tem uma altura de mais ou menos um metro e setenta, é negro e..."
- Não, não... quer saber? Deixa que eu escrevo.
- O quê?!
- Me dá licença? Assim... isso. Ó, a barba rala é uma coisa da aparência que pode ser mudada, já a altura e a cor não. É melhor colocar ela em uma frase separada do resto. Assim: "O assaltante é um negro de cerca de 1,70m. Tem a cabeça raspada e uma barba rala. É forte: sua estrutura corporal avantajada compensa o relativo pouco tamanho.". Mais alguma coisa?
- Hein?
- Tenho que colocar mais alguma informação?
- Não. Assim já está bom.
- E as roupas? Eu não falo das roupas?
- Não é necessário, eles mudam de roupa todos os assaltos...
- Ah, qual é? Como o personagem vai ficar crível sem uma descrição decente de aparência? Vou botar assim: "Trajava um casaco da Adidas preto, possivelmente falsificado, e uma calça de abrigo da mesma cor. Seus tênis eram velhos Kichutes desbotados como o brilho fosco de seus olhos. Sua expressão era terrível; sua voz, socos em forma de som.". Pronto. Acho que é isso. Relê tudo aí.
- Ãhn...
- Acho que está bom, né? Bom, agora é só salvar e botar no arquivo. Próximo!
- Ei, você não pode...
- Olá rapaz, o que houve?
- Oi. Eu fui assaltado ontem...
- Foi quando? De dia ou de noite?
- De noite.
- "Era uma noite sombria, na qual transitava, incauto, o nosso protagonista. Mal sabia ele que..."
quinta-feira, 22 de julho de 2010
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Nojento
O Zeca era chato. Pra caramba.
- Zeca, dá um gole da sua Coca?
- Não.
- Por quê?
- Você vai beber do bico e vai babar tudo.
- Cara, você é chato. Pra caramba. Ao menos dá o restinho.
- Vou pensar.
Não adiantava os amigos chamarem o Zeca de afrescalhado, ele dizia que era mesmo. Assim:
- Afrescalhado? Sou mesmo.
E tomava outro gole de sua Coca. Sem dividir.
Não parava por aí. Pra tocar em tudo na casa do Zeca tinha que se lavar as mãos primeiro: nos livros, no controle do videogame, no computador.
- No computador, Zeca?
- No computador, sim. Sabe quantas bactérias ficam alojadas nas teclas por causa de mãos sujas? Sabe quantas?
O Zeca sabia. E dá-lhe estatísticas pra cima das visitas, que se sentiam menos inclinadas a visitá-lo outras vezes.
Mas o Zeca gostava muito de uma menina, a Lia. Não só ele; todo mundo desejava a Lia para si. A Lia era uma deusa. Longos cabelos lisos e loiros, longas pernas, longos cílios protegendo olhos loucamente verdes. Talvez não dê pra usar o adjetivo "loucamente" nesse caso, mas é o que melhor cabe. Os olhos de Lia eram loucamente verdes e deixavam os outros loucos. Isso e o conjunto da obra, claro.
O Téo era um que sonhava constantemente com os olhos da Lia:
- A, a Lia... por ela eu faria tudo. Me casava, contraía matrimônio, jurava eterna lealdade, deixava de ver o próximo filme do Batman...
- Eu também. Faria qualquer coisa. - disse o Zeca.
- Sério? Até dividir a mesma Coca comigo? No bico?
- Argh!
Mas aconteceu o seguinte: o Zeca descobriu que a Lia tinha mania de limpeza. Lavava as mãos pra tudo e não dividia canudinho. Chegou à conclusão de que ela era a mulher perfeita pra ele. Assim:
- Ela é a mulher perfeita pra mim!
E começou a conversar com a Lia todos os dias. Os amigos observavam os dois, pensando em como a Lia suportava o Zeca. Mas a verdade é que a Lia se identificava com ele. Por isso, foi dando abertura pro Zeca, até que um dia disse a seguinte frase:
- Ai, Zeca... nunca achei alguém que me entendesse tão bem como você!
Esse foi o sinal que Zeca esperava. Ao voltar pra casa, passou a noite pensando em tudo o que diria pra Lia no dia seguinte. Diria que estivera sempre à procura de alguém como ela, e que agora não a deixaria escapar. Prometeria amor eterno, confiança, fidelidade. E realmente, no dia seguinte, disse tudo isso.
- ...E agora que eu te achei, Lia, não vou te deixar escapar de jeito nenhum! - Finalizou.
Lia estava emocionada. Estava torcendo para que um dia ele lhe dissesse essas coisas. Aceitou. Se abraçaram. Ela olhou nos olhos dele e ele nos olhos loucamente verdes dela. Fez carícias no seu cabelo. Ele encostou seu rosto no dela. Podiam sentir a respiração um do outro. Zeca foi deslizando o rosto, aproximando sua boca da de Lia. Lia foi deslizando o corpo para longe de Zeca. Zeca não entendeu.
- Ai, não Zeca...
Zeca continuou não entendendo. Ela explicou:
- Não gosto de beijo.
E voltou a lhe abraçar, como se nada tivesse acontecido. Zeca não a abraçou. Repetiu o que ela disse:
- Você... não gosta de beijo.
- É, bobinho.
- Beijo assim, tipo, beijo, beijo de língua.
- Isso. Ui. É nojento.
- Como assim, nojento?
- Como assim o quê? A gente misturar salivas, eu deixar a língua de outro entrar na minha boca, eu - argh! - botar a minha língua na boca de outra pessoa, encostá-la nos dentes de outro, vai saber se acho um pedaço de comida? Iiuh, pra mim não, obrigada.
E continuou abraçando-o. Zeca demorou um pouco pra se ligar que tinha que abraçá-la, também. Fez isso lentamente, como se não soubesse exatamente o que tinha entre os braços. E o pior foi isso: depois de uns minutos abraçados, Lia falou sussurrando em seu ouvido:
- E não se preocupa, quem não vai te deixar escapar de jeito nenhum sou eu...
***
Zeca encontrou os amigos mais tarde, no bar. Todos fizeram uma festa quando ele entrou: cantaram alto, se levantaram para abraçá-lo, parabenizaram-no.
- Foi o Tadeu quem contou - explicou o Téo - viu você e a Lia no maior love hoje...
- Sacana de sorte, hein? Vai ter tudo aquilo pra ti, magrão! - disse o Tadeu.
Entre vivas e cantos, o Zeca sentou na mesa muito quieto. Ouvia os amigos ao longe, comentando como queriam estar no lugar do Zeca, que ele era um privilegiado, o que não fariam por uma noite com a Lia... meu Deus, pensou Zeca, se a Lia achava beijar nojento, o que dizer então de...
O Zeca pegou a Coca que o Téo estava bebendo e tomou um gole. Do bico. O Téo olhou pra ele surpreso. E o Zeca disse uma frase que o Téo na hora não entendeu:
- Já que essa é a única saliva que eu vou poder compartilhar...
E ficou de cara amarrada pelo resto da noite.
- Zeca, dá um gole da sua Coca?
- Não.
- Por quê?
- Você vai beber do bico e vai babar tudo.
- Cara, você é chato. Pra caramba. Ao menos dá o restinho.
- Vou pensar.
Não adiantava os amigos chamarem o Zeca de afrescalhado, ele dizia que era mesmo. Assim:
- Afrescalhado? Sou mesmo.
E tomava outro gole de sua Coca. Sem dividir.
Não parava por aí. Pra tocar em tudo na casa do Zeca tinha que se lavar as mãos primeiro: nos livros, no controle do videogame, no computador.
- No computador, Zeca?
- No computador, sim. Sabe quantas bactérias ficam alojadas nas teclas por causa de mãos sujas? Sabe quantas?
O Zeca sabia. E dá-lhe estatísticas pra cima das visitas, que se sentiam menos inclinadas a visitá-lo outras vezes.
Mas o Zeca gostava muito de uma menina, a Lia. Não só ele; todo mundo desejava a Lia para si. A Lia era uma deusa. Longos cabelos lisos e loiros, longas pernas, longos cílios protegendo olhos loucamente verdes. Talvez não dê pra usar o adjetivo "loucamente" nesse caso, mas é o que melhor cabe. Os olhos de Lia eram loucamente verdes e deixavam os outros loucos. Isso e o conjunto da obra, claro.
O Téo era um que sonhava constantemente com os olhos da Lia:
- A, a Lia... por ela eu faria tudo. Me casava, contraía matrimônio, jurava eterna lealdade, deixava de ver o próximo filme do Batman...
- Eu também. Faria qualquer coisa. - disse o Zeca.
- Sério? Até dividir a mesma Coca comigo? No bico?
- Argh!
Mas aconteceu o seguinte: o Zeca descobriu que a Lia tinha mania de limpeza. Lavava as mãos pra tudo e não dividia canudinho. Chegou à conclusão de que ela era a mulher perfeita pra ele. Assim:
- Ela é a mulher perfeita pra mim!
E começou a conversar com a Lia todos os dias. Os amigos observavam os dois, pensando em como a Lia suportava o Zeca. Mas a verdade é que a Lia se identificava com ele. Por isso, foi dando abertura pro Zeca, até que um dia disse a seguinte frase:
- Ai, Zeca... nunca achei alguém que me entendesse tão bem como você!
Esse foi o sinal que Zeca esperava. Ao voltar pra casa, passou a noite pensando em tudo o que diria pra Lia no dia seguinte. Diria que estivera sempre à procura de alguém como ela, e que agora não a deixaria escapar. Prometeria amor eterno, confiança, fidelidade. E realmente, no dia seguinte, disse tudo isso.
- ...E agora que eu te achei, Lia, não vou te deixar escapar de jeito nenhum! - Finalizou.
Lia estava emocionada. Estava torcendo para que um dia ele lhe dissesse essas coisas. Aceitou. Se abraçaram. Ela olhou nos olhos dele e ele nos olhos loucamente verdes dela. Fez carícias no seu cabelo. Ele encostou seu rosto no dela. Podiam sentir a respiração um do outro. Zeca foi deslizando o rosto, aproximando sua boca da de Lia. Lia foi deslizando o corpo para longe de Zeca. Zeca não entendeu.
- Ai, não Zeca...
Zeca continuou não entendendo. Ela explicou:
- Não gosto de beijo.
E voltou a lhe abraçar, como se nada tivesse acontecido. Zeca não a abraçou. Repetiu o que ela disse:
- Você... não gosta de beijo.
- É, bobinho.
- Beijo assim, tipo, beijo, beijo de língua.
- Isso. Ui. É nojento.
- Como assim, nojento?
- Como assim o quê? A gente misturar salivas, eu deixar a língua de outro entrar na minha boca, eu - argh! - botar a minha língua na boca de outra pessoa, encostá-la nos dentes de outro, vai saber se acho um pedaço de comida? Iiuh, pra mim não, obrigada.
E continuou abraçando-o. Zeca demorou um pouco pra se ligar que tinha que abraçá-la, também. Fez isso lentamente, como se não soubesse exatamente o que tinha entre os braços. E o pior foi isso: depois de uns minutos abraçados, Lia falou sussurrando em seu ouvido:
- E não se preocupa, quem não vai te deixar escapar de jeito nenhum sou eu...
***
Zeca encontrou os amigos mais tarde, no bar. Todos fizeram uma festa quando ele entrou: cantaram alto, se levantaram para abraçá-lo, parabenizaram-no.
- Foi o Tadeu quem contou - explicou o Téo - viu você e a Lia no maior love hoje...
- Sacana de sorte, hein? Vai ter tudo aquilo pra ti, magrão! - disse o Tadeu.
Entre vivas e cantos, o Zeca sentou na mesa muito quieto. Ouvia os amigos ao longe, comentando como queriam estar no lugar do Zeca, que ele era um privilegiado, o que não fariam por uma noite com a Lia... meu Deus, pensou Zeca, se a Lia achava beijar nojento, o que dizer então de...
O Zeca pegou a Coca que o Téo estava bebendo e tomou um gole. Do bico. O Téo olhou pra ele surpreso. E o Zeca disse uma frase que o Téo na hora não entendeu:
- Já que essa é a única saliva que eu vou poder compartilhar...
E ficou de cara amarrada pelo resto da noite.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Deus e os designers
Muito mais difícil do que ser um bom físico é ser um bom designer. O bom físico entende das origens do Universo, das macroformações das galáxias, das microleis da matéria e das forças que fazem o mundo girar ao invés de quicar Infinito afora. O bom designer mestra o design. De tudo. Design é provavelmente o universo mais abrangente que existe. Não estamos falando apenas de design de móveis ou roupas ou automóveis, mas também de design de joias, livros, embalagens, interiores, webpages, e, além desses, design gráfico, de brinquedos, videogames, jogos de tabuleiro, armações de óculos...
Todo esse universo existe para solucionar problemas. O problema, quer seja abrir a embalagem de leite sem derramá-lo ou fazer caber mais meias na gaveta, é o que motiva o designer a bolar uma solução. Veneramos os bombeiros por seu trabalho, mas não paramos para pensar em quantas vidas foram poupadas através de embalagens anticriança (que precisam ser pressionadas para abrir) ou móveis antiidosos (com cantos arredondados). Quem os projetou? Designers, é claro. Não os vemos, mas eles estão lá, trabalhando incansavelmente para solucionar os nossos problemas. Eles cuidam de nós. Eles garantem que haja um compartimento especial para o celular na mochila, para que você não o perca. Eles fizeram os gorros de orelha, para que as suas orelhas fiquem quentinhas. Quando você for dormir à noite, durma tranquilo, pois em algum lugar alguém está trabalhando incansavelmente para que você não derrame mais o leite ao abrir a embalagem.
***
Em Jornalismo temos o que se chama de repórter multimídia: é aquele que sabe trabalhar com todos os meios. Televisão, internet, rádio, impresso, diga que ele faz. É um profissional completo. Difícil imaginar um designer assim. O designer completo, ao fazer, digamos, um porta-aviões, faria desde o modelo geral até a tipografia do nome da embarcação. Ele deve saber desenhar desde letras até grandes e complexos veículos que devem ser funcionais, possíveis e, de preferência, bonitos. Leonardo da Vinci era um designer completo. Ele fez o tanque de guerra, a bicicleta, a Santa Ceia e o helicóptero, que não voava, mas era bonito.
***
Não se esqueça, porém, que mesmo quem mestre desde a arte da moda até dos aviões sempre estará em segundo lugar ante o maior de todos os designers: Deus. Deus é o cara, ele sabe aliar forma e função melhor que qualquer bauhausiano. Às vezes ele se permite um pouco de extravagância, é só olhar o pavão. Mas é tudo de excelente bom gosto. Com exceção da barata. Um bicho que funciona sem a cabeça. Brrr.
Imagino Deus anunciando um novo modelo de criação. Ele chega na sala dos diretores da empresa, todos presentes e cheios de expectativa. Hoje é um dia importante. Deus vai mostrar uma nova forma de vida. Os encontros desse tipo são permeados por uma atmosfera de excitação. Deus sabe disso. Até fez a barba para a ocasião.
- Senhoras e senhores - diz ele - permitam-me apresentar a minha mais nova criação... o homem!
Ele projeta um slide com o desenho de um ser humano. Aplausos.
- Parece um macaco - lembra um dos dirigentes.
- Sim, realmente, mas possui um design muito mais inteligente - explica o Todo Poderoso. - Por exemplo: retirei o excesso de pelo. Pelos são muito 200.000 AC. Mas não mudei só a aparência, não: esse aí é bípede, anda apoiado nos dois pés. E, já que as mãos não são mais usadas na locomoção, aproveitei para adicionar polegares opositores.
Múrmurios de aprovação. Muito impressionante.
- Bravo! E o que mais?
- Duas fileiras de dentes, não muito grandes, mas funcionais, cinco dedos nas mãos e cinco no pé. O quinto não tem função, mas eu achei bonitinho. Sistema de língua-lábios-cordas vocais que permitem uma infinidade de sons diferentes. Dois pulmões, dois rins, um coração. Tudo muito funcional. Mas também me permiti ousar um pouco, e exercitar meu lado artístico. Então, apresento a vocês a minha obra prima: a orelha!
Passa para o slide de uma orelha. Mais aplausos.
- Perfeito, perfeito! - entusiasma-se um empresário - é lindo, muito barroco, muito lindo!
- E isso que eu não falei da melhor parte. - continuou Deus - Deem uma olhada no cérebro.
Ele passa o slide e aparece a imagem de um cérebro humano, cheio de setas e explicações.
- Como vocês veem, é extremamente complexo. Também é proporcionalmente maior do que as minhas tentativas anteriores. Com isso, o homem poderá tirar máximo proveito de toda a sua maravilhosa funcionalidade, e será mais esperto que qualquer criatura, e será capaz de sempre calcular a melhor decisão para os seus atos.
- Muito bom, muito bom - elogia o empresário. - parabéns, Deus, você se superou novamente.
- Obrigado.
- Agora a parte chata...
- Sim.
- Você sabe que isso que você está nos mostrando é maravilhoso, perfeito, e eu - nem que tentasse por um milhão de anos - nunca faria algo melhor. Mas - e não entenda isso errado -, apesar de ser algo que nós realmente gostamos, que se pudéssemos não mudaríamos em nada...
- Sim.
- ...Bem, nós temos que lembrar que trabalhamos em cima de um orçamento. E essa sua criação - e não tome isso como ofensa! - ela, bem, terá um custo de produção elevado, se for feita dessa maneira. Você sabe, eu sei, é chato, mas não podemos nos esquecer do orçamento.
- Então você quer que eu...
- Faça umas alterações, sim. Simplifique o modelo. Por hora, ao menos. Corte o supérfluo.
- Cortar o supérfluo? Você quer que eu refaça a minha obra-prima?
- Não! Por Você, não, não é nada muito drástico. São só algumas mudanças para baratear a produção, você entende, não é?
- Bom, eu suponho que possa simplificar o cérebro...
- Isso! Excelente! Mas não o faça se dar conta disso. Deixe-o pensar que ele é o ser mais inteligente. Tudo bem? Não é pedir demais?
- Não, tudo bem, eu faço...
- Viu? Ó, pode até deixar a orelha.
- Ok, ok.
Nem o melhor designer do muito conseguiu resolver o problema da falta de verbas.
Todo esse universo existe para solucionar problemas. O problema, quer seja abrir a embalagem de leite sem derramá-lo ou fazer caber mais meias na gaveta, é o que motiva o designer a bolar uma solução. Veneramos os bombeiros por seu trabalho, mas não paramos para pensar em quantas vidas foram poupadas através de embalagens anticriança (que precisam ser pressionadas para abrir) ou móveis antiidosos (com cantos arredondados). Quem os projetou? Designers, é claro. Não os vemos, mas eles estão lá, trabalhando incansavelmente para solucionar os nossos problemas. Eles cuidam de nós. Eles garantem que haja um compartimento especial para o celular na mochila, para que você não o perca. Eles fizeram os gorros de orelha, para que as suas orelhas fiquem quentinhas. Quando você for dormir à noite, durma tranquilo, pois em algum lugar alguém está trabalhando incansavelmente para que você não derrame mais o leite ao abrir a embalagem.
***
Em Jornalismo temos o que se chama de repórter multimídia: é aquele que sabe trabalhar com todos os meios. Televisão, internet, rádio, impresso, diga que ele faz. É um profissional completo. Difícil imaginar um designer assim. O designer completo, ao fazer, digamos, um porta-aviões, faria desde o modelo geral até a tipografia do nome da embarcação. Ele deve saber desenhar desde letras até grandes e complexos veículos que devem ser funcionais, possíveis e, de preferência, bonitos. Leonardo da Vinci era um designer completo. Ele fez o tanque de guerra, a bicicleta, a Santa Ceia e o helicóptero, que não voava, mas era bonito.
***
Não se esqueça, porém, que mesmo quem mestre desde a arte da moda até dos aviões sempre estará em segundo lugar ante o maior de todos os designers: Deus. Deus é o cara, ele sabe aliar forma e função melhor que qualquer bauhausiano. Às vezes ele se permite um pouco de extravagância, é só olhar o pavão. Mas é tudo de excelente bom gosto. Com exceção da barata. Um bicho que funciona sem a cabeça. Brrr.
Imagino Deus anunciando um novo modelo de criação. Ele chega na sala dos diretores da empresa, todos presentes e cheios de expectativa. Hoje é um dia importante. Deus vai mostrar uma nova forma de vida. Os encontros desse tipo são permeados por uma atmosfera de excitação. Deus sabe disso. Até fez a barba para a ocasião.
- Senhoras e senhores - diz ele - permitam-me apresentar a minha mais nova criação... o homem!
Ele projeta um slide com o desenho de um ser humano. Aplausos.
- Parece um macaco - lembra um dos dirigentes.
- Sim, realmente, mas possui um design muito mais inteligente - explica o Todo Poderoso. - Por exemplo: retirei o excesso de pelo. Pelos são muito 200.000 AC. Mas não mudei só a aparência, não: esse aí é bípede, anda apoiado nos dois pés. E, já que as mãos não são mais usadas na locomoção, aproveitei para adicionar polegares opositores.
Múrmurios de aprovação. Muito impressionante.
- Bravo! E o que mais?
- Duas fileiras de dentes, não muito grandes, mas funcionais, cinco dedos nas mãos e cinco no pé. O quinto não tem função, mas eu achei bonitinho. Sistema de língua-lábios-cordas vocais que permitem uma infinidade de sons diferentes. Dois pulmões, dois rins, um coração. Tudo muito funcional. Mas também me permiti ousar um pouco, e exercitar meu lado artístico. Então, apresento a vocês a minha obra prima: a orelha!
Passa para o slide de uma orelha. Mais aplausos.
- Perfeito, perfeito! - entusiasma-se um empresário - é lindo, muito barroco, muito lindo!
- E isso que eu não falei da melhor parte. - continuou Deus - Deem uma olhada no cérebro.
Ele passa o slide e aparece a imagem de um cérebro humano, cheio de setas e explicações.
- Como vocês veem, é extremamente complexo. Também é proporcionalmente maior do que as minhas tentativas anteriores. Com isso, o homem poderá tirar máximo proveito de toda a sua maravilhosa funcionalidade, e será mais esperto que qualquer criatura, e será capaz de sempre calcular a melhor decisão para os seus atos.
- Muito bom, muito bom - elogia o empresário. - parabéns, Deus, você se superou novamente.
- Obrigado.
- Agora a parte chata...
- Sim.
- Você sabe que isso que você está nos mostrando é maravilhoso, perfeito, e eu - nem que tentasse por um milhão de anos - nunca faria algo melhor. Mas - e não entenda isso errado -, apesar de ser algo que nós realmente gostamos, que se pudéssemos não mudaríamos em nada...
- Sim.
- ...Bem, nós temos que lembrar que trabalhamos em cima de um orçamento. E essa sua criação - e não tome isso como ofensa! - ela, bem, terá um custo de produção elevado, se for feita dessa maneira. Você sabe, eu sei, é chato, mas não podemos nos esquecer do orçamento.
- Então você quer que eu...
- Faça umas alterações, sim. Simplifique o modelo. Por hora, ao menos. Corte o supérfluo.
- Cortar o supérfluo? Você quer que eu refaça a minha obra-prima?
- Não! Por Você, não, não é nada muito drástico. São só algumas mudanças para baratear a produção, você entende, não é?
- Bom, eu suponho que possa simplificar o cérebro...
- Isso! Excelente! Mas não o faça se dar conta disso. Deixe-o pensar que ele é o ser mais inteligente. Tudo bem? Não é pedir demais?
- Não, tudo bem, eu faço...
- Viu? Ó, pode até deixar a orelha.
- Ok, ok.
Nem o melhor designer do muito conseguiu resolver o problema da falta de verbas.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
O mundo formal
O problema é o seguinte: as pessoas se levam a sério demais. Esse é o problema. Vivem suas vidas de forma muito séria. Usam roupas. Eu queria saber quem foi o cara que inventou as roupas. Um burocrata, com certeza. A nudez é informal. Antes, todos vivíamos peladões, na boa, sem ter que corar cada vez que cruzávamos com um conhecido (cruzar, no sentido figurado). Na hora em que os homem resolveram usar roupas (e as mulheres também), acabou-se a informalidade. Antes era tudo pele e ninguém se incomodava, depois surgiu o tecido para separar a nossa pele da dos outros, e a nós também. Não podíamos mais ficar sem roupa, era mal visto. Daí para o uso obrigatório de calças no trabalho foi um pulo.
Ao separar a pele, separamo-nos. Tornamo-nos formais. A roupa significa uma separação física, mas também simboliza uma separação subjetiva dos outros indivíduos, uma sinalização de distância. Ninguém mais é íntimo para me ver pelado. Este tecido, esta lã, este, sei lá, cashmere, significa que eu não me sinto confortável na presença de pessoas a ponto de não poder estar ao natural. Já pensaram nisso? Ela é também um disfarce, o meu eu formal, que eu visto todas as manhãs para ocultar o meu eu verdadeiro. Não estou ao natural em termos de vestimenta nem tampouco em termos de comportamento. Se agisse naturalmente no meio dos outros, estaria cantarolando alto, ou correndo ao invés de caminhar. A roupa que vestimos é como o uniforme do Batman: usamos para nos apresentar ao mundo sem mostrarmos nossa verdadeira identidade. Incorporo um alterego, o eu público, quando visto a minha roupa todas as manhãs, assim como o Bruce Wayne incorpora o Batman quando usa o uniforme.
Dois pontos negativos dessa reflexão: primeiro, a minha roupa nunca será tão legal quanto a do Batman. Segundo, isso quer dizer que só eu conheço o meu verdadeiro eu. Conhecerei poucas pessoas cujas presenças serão para mim tão confortáveis a ponto de eu andar nu, de corpo e alma, sem vergonha, em suas presenças. Não sei se vocês têm alguém assim. O Batman tem o Alfred.
A conversa, como troca de impressões, pode parecer algo de natureza informal. Ou não. Há também a conversa formal. Perguntar sobre como a pessoa tem passado, o que está fazendo agora, o tempo, o futebol, os filhos. É um jogo estritamente formal, pois as perguntas estão prontas, assim como as respostas. É apenas um protocolo para preencher o silêncio.
- Como vai a vida?
- Bem, bem. Tá fazendo o quê?
- Tô estudando Farmácia. E tu?
- Fazendo cursinho. Puxado?
- Anrã. E o teu?
- Também.
- Faltou mais alguma?
- Não sei. Ah! Tá cursando Farmácia aonde?
- Na PUC. Deu, fechou. Aí, chegou o meu ônibus.
- Tchau.
- Tchau.
São protocolos, portanto, passando longe de uma conversa com calor humano.
Hoje é preciso desmontar todo um pacote. Para chegar ao âmago do outro, é preciso primeiro furar a barreira das conversas burocráticas. Depois, é preciso retirar a aura de seriedade, fazer a pessoa falar bobagens sem medo de parecer boba, falar o que não falaria formalmente, devolvê-la seu eu informal. Retira-se então o dever de falar a todo tempo, bobagem ou não, para que até um momento de silêncio seja compartilhado sem estranheza. Pois um momento de silêncio é algo estranho, significa que faltou assunto, e nunca pode faltar assunto. Não é bem visto. Quando se admitem os silêncios, a única coisa que falta se retirar são as roupas.
Pelo menos é isso o que o Adalberto dizia para a Denise. Eram colegas de trabalho há muitos anos, conheciam-se como ninguém, confidenciavam coisas que não tinham coragem de dizer para mais ninguém. Havia já os silêncios. E o Adalberto queria dar o passo final. Mas a Denise dizia que não.
- Já disse que não, Adalberto.
- Pô, Dê! O que é isso, não é nada de mais! Não é como se fôssemos fazer alguma coisa...
- Continuo dizendo que não.
- Não tem malícia. Pense como o teste de fogo da nossa amizade. É o nível máximo de conforto na presença de outro. É algo que só os grandes amigos fazem com naturalidade.
- Me ver pelada, Adalberto? Pensa que eu não sei das tuas?
- Já sei. É esse mundo. É como eu dizia, o mundo anda sério demais. E ele te pegou. Ele te pegou, Dê. E eu pensei que você era diferente...
- Sei, sei...
Mas o Adalberto não se conformou. No outro dia foi trabalhar de bermudas.
Ao separar a pele, separamo-nos. Tornamo-nos formais. A roupa significa uma separação física, mas também simboliza uma separação subjetiva dos outros indivíduos, uma sinalização de distância. Ninguém mais é íntimo para me ver pelado. Este tecido, esta lã, este, sei lá, cashmere, significa que eu não me sinto confortável na presença de pessoas a ponto de não poder estar ao natural. Já pensaram nisso? Ela é também um disfarce, o meu eu formal, que eu visto todas as manhãs para ocultar o meu eu verdadeiro. Não estou ao natural em termos de vestimenta nem tampouco em termos de comportamento. Se agisse naturalmente no meio dos outros, estaria cantarolando alto, ou correndo ao invés de caminhar. A roupa que vestimos é como o uniforme do Batman: usamos para nos apresentar ao mundo sem mostrarmos nossa verdadeira identidade. Incorporo um alterego, o eu público, quando visto a minha roupa todas as manhãs, assim como o Bruce Wayne incorpora o Batman quando usa o uniforme.
Dois pontos negativos dessa reflexão: primeiro, a minha roupa nunca será tão legal quanto a do Batman. Segundo, isso quer dizer que só eu conheço o meu verdadeiro eu. Conhecerei poucas pessoas cujas presenças serão para mim tão confortáveis a ponto de eu andar nu, de corpo e alma, sem vergonha, em suas presenças. Não sei se vocês têm alguém assim. O Batman tem o Alfred.
A conversa, como troca de impressões, pode parecer algo de natureza informal. Ou não. Há também a conversa formal. Perguntar sobre como a pessoa tem passado, o que está fazendo agora, o tempo, o futebol, os filhos. É um jogo estritamente formal, pois as perguntas estão prontas, assim como as respostas. É apenas um protocolo para preencher o silêncio.
- Como vai a vida?
- Bem, bem. Tá fazendo o quê?
- Tô estudando Farmácia. E tu?
- Fazendo cursinho. Puxado?
- Anrã. E o teu?
- Também.
- Faltou mais alguma?
- Não sei. Ah! Tá cursando Farmácia aonde?
- Na PUC. Deu, fechou. Aí, chegou o meu ônibus.
- Tchau.
- Tchau.
São protocolos, portanto, passando longe de uma conversa com calor humano.
Hoje é preciso desmontar todo um pacote. Para chegar ao âmago do outro, é preciso primeiro furar a barreira das conversas burocráticas. Depois, é preciso retirar a aura de seriedade, fazer a pessoa falar bobagens sem medo de parecer boba, falar o que não falaria formalmente, devolvê-la seu eu informal. Retira-se então o dever de falar a todo tempo, bobagem ou não, para que até um momento de silêncio seja compartilhado sem estranheza. Pois um momento de silêncio é algo estranho, significa que faltou assunto, e nunca pode faltar assunto. Não é bem visto. Quando se admitem os silêncios, a única coisa que falta se retirar são as roupas.
Pelo menos é isso o que o Adalberto dizia para a Denise. Eram colegas de trabalho há muitos anos, conheciam-se como ninguém, confidenciavam coisas que não tinham coragem de dizer para mais ninguém. Havia já os silêncios. E o Adalberto queria dar o passo final. Mas a Denise dizia que não.
- Já disse que não, Adalberto.
- Pô, Dê! O que é isso, não é nada de mais! Não é como se fôssemos fazer alguma coisa...
- Continuo dizendo que não.
- Não tem malícia. Pense como o teste de fogo da nossa amizade. É o nível máximo de conforto na presença de outro. É algo que só os grandes amigos fazem com naturalidade.
- Me ver pelada, Adalberto? Pensa que eu não sei das tuas?
- Já sei. É esse mundo. É como eu dizia, o mundo anda sério demais. E ele te pegou. Ele te pegou, Dê. E eu pensei que você era diferente...
- Sei, sei...
Mas o Adalberto não se conformou. No outro dia foi trabalhar de bermudas.
domingo, 30 de maio de 2010
A reunião
AMBIENTE: sala de reuniões de uma produtora de vídeos pornô. Estão reunidos ao redor da mesa todos os funcionários da empresa: produtores, editores, roteiristas, atores e atrizes. Na ponta, o presidente da produtora. O chefe. Ele está irritado.
CHEFE: - Quero mostrar uma coisinha pra vocês.
CHEFE abre um gráfico no Powerpoint de seu laptop e mostra-o a todos. Uma linha descendente.
CHEFE: - Este é o crescimento da indústria de vídeos pornô no mundo.
ATOR 1 levanta a mão para falar.
ATOR 1: - Hã, chefe, acho que essa linha mostra uma queda, e não um crescimento...
CHEFE bate com o punho na mesa. Responde gritando.
CHEFE: - É claro que mostra uma queda, seu energúmeno! É porque a indústria não está crescendo! Se ela estivesse crescendo, eu estaria feliz! Eu pareço feliz? Não! E, se ela não está crescendo, está diminuíndo! E alguém sabe porque a indústria está diminuindo?
ATOR 1 levanta a mão de novo, mas pensa melhor e resolve baixá-la. CHEFE respira fundo, e ele mesmo explica.
CHEFE: - É por causa da internet. Temos que competir com a maldita internet. E eu não falo só de pirataria. Agora, com esses sites de vídeos em stream, qualquer um pode fazer seus próprios filminhos e mandar para o mundo. O cara só precisa de uma câmera, uma ou duas mulheres bêbadas e um tripé e voilá, pode se chamar de produtor pornô.
CHEFE abre o navegador de seu laptop e acessa um site de vídeos adultos em stream. Clica num vídeo qualquer e mostra-o para todos.
CHEFE: - Olhem isso. Olhem isso! É péssimo. Completamente amador. A mulher nem está maquiada! E esse enquadramento, parece que o cara colocou a câmera em qualquer lugar. E esses gemidos, meu Deus! Que gemidos são esses? Não se geme assim num filme.
PRODUTOR 1: - Aonde você quer chegar?
CHEFE: - Eu quero que vocês olhem as visualizações. Mil e duzentas. É mais do que o total de vendas do nosso último filme, "Eu Sei Com Quem Vocês Fizeram no Verão Passado". Um lixo desses. E olha que eu peguei um vídeo ao acaso. Tem uns piores e com mais visualizações. As nossas vendas estão em queda porque os nossos consumidores migram daqui para estes sites. Estão trocando a nossa produção especializada por qualquer filminho, porque é de graça.
PRODUTOR: - Tá, mas o que você sugere? E porque você chamou toda a equipe para a reunião?
ATOR 2: - É, eu estava na academia! O que eu tenho a ver com vendas e números? Isso é com o pessoal da, do... das vendas e números!
CHEFE: - O que eu sugiro, meus amigos, é trabalhar com o mercado. Claro, qualquer um pode fazer um vídeo pornô e lançar na web de graça, mas só nós podemos fazer um filme. Sempre haverá um público que quer mais qualidade, que não se rende a qualquer filmezinho de webcam. Esse é o nosso público. O público especializado. É nele que temos que investir forte. E, se qualidade é o que eles querem, qualidade é o que terão.
O CHEFE aponta para o pessoal da equipe técnica.
CHEFE: - Equipe técnica! Precisamos das melhores câmeras do mercado. Só quero filmar em Full HD agora. Aqueles vídeos quadriculados da internet não poderão competir com a nossa moderna aparelhagem. Quero que os espectadores possam ver cada penugem das coxas de nossa atrizes, uma por uma.
TÉCNICO-CHEFE: - Chefinho, isso vai custar caro...
CHEFE: - Não quero saber! Cada gasto é um investimento. E pesquisem essa tecnologia 3D. Quando houver TVs 3D, quero ser o primeiro a fazer filmes pornôs para elas. Total imersão! Quero que o espectador sinta cada fluido corporal de nosso elenco. É isso o que vai vender no futuro!
CHEFE aponta para a equipe de roteiros.
CHEFE: - Roteiristas! Não gostei do seu último trabalho. Muito raso. Eu quero uma história. Eu quero rir, eu quero chorar, eu quero me emocionar. Chega de mulheres traídas que resolvem dar o troco na mesma moeda e professoras sacanas. Eu quero originalidade.
ROTEIRISTA 1: - Como assim? "Sacana e Boa de Cama" foi um grande filme!
ROTEIRISTA 2: - É! E "Escola da Cama" foi muito criativo! Quer dizer, a menina recatada é transferida para uma escola nova. Aí ela descobre que é uma escola de sexo, e aprende com seus professores como deixar de ser tão inibida, com lições práticas e em grupo. É perfeito!
CHEFE: - Não, eu quero mais do que isso... Eu quero aprofundamento... De onde veio essa menina? Por que ela é tão recatada? Como era a sua vida antes de vir para a escola? Lacunas, lacunas... E o dilema da personagem? Ela é tirada de seu meio e colocada em um ambiente completamente oposto. E seus conflitos, e suas fobias, onde estão? Ela poderia confessar tudo isso para a sua colega de quarto, que a ajudaria a aceitar sua nova realidade, fazendo-a se abrir aos poucos, primeiro figurativa e depois literalmente. É a cena emblemática, o simbolismo da nova realidade liberal penetrando no âmago da sociedade conservadora burguesa, talvez com a ajuda de brinquedinhos. É isso o que eu quero. Eu quero o equivalente a Dostoiévski se ele escrevesse sacanagem.
ATRIZ 1: - E nós, chefe? Quer que botemos mais silicone?
CHEFE: - Não só isso, minha cara. Eu quero acreditar na interpretação de vocês. No seu último papel como Mulher das Cavenas Sacana, você não convencia ninguém. Faltou entrar no personagem. O público quer acreditar no que está vendo, e o primeiro passo é vocês todos acreditarem no que estão fazendo. Por isso, gastei uma boa grana pra trazer o melhor professor de teatro de São Paulo para dar um curso intensivo. Eu quero ver interpretações dignas de Oscar. E para a direção...
Um estagiário levanta a mão. O CHEFE se supreende.
CHEFE: -Sim?
ESTAGIÁRIO: - Com licença, mas acho que o senhor está se enganando.
Todos os presentes olham-se com cara de espanto. Burburinhos. CHEFE olha para ESTAGIÁRIO com cara de incredulidade.
CHEFE: - Como é que é?
ESTAGIÁRIO: - Eu acho que o senhor está se enganando. O público não está interessado em qualidade de vídeo ou roteiros bons. O público quer sexo.
CHEFE não consegue mudar de cara. Sua mão começa a tremer ligeiramente.
CHEFE: - Masmasmas claro que sim! Imagens nítidas, segurança de encontrar qualidade, tudo isso contribui para a fidelização do...
ESTAGIÁRIO: - Não é isso que o público está procurando. O público não está interessado em qualidade técnica, ele quer o sexo. O melhor sexo que conseguir encontrar.
CHEFE: - Mas temos atrizes profissionais nos nossos elencos, elas vão estudar atuação para...
ESTAGIÁRIO: - A única diferença das suas profissionais para as amadoras são as plásticas. O termo "profissional" é uma enganação. Escola de atores? Por que a audiência iria preferir o fake se ela pode assistir ao real? A credibilidade é muito maior quando sabemos que a pessoa está fazendo aquilo por amor ao sexo e não pelo dinheiro.
CHEFE bate na mesa com a mão. Começa a perder a compostura.
CHEFE: -Ora, jovenzinho! Como ousa chamar o meu elenco de enganação? Essas mulheres sabem trepar como nenhuma outra!
ESTAGIÁRIO: - Ah, e você acha que é realmente difícil de achar alguém por aí que, sem especialização nenhuma, consiga trepar melhor que a maioria das suas mulheres? Claro que a maioria nunca chegará aos pés delas, mas algumas... ah, algumas possuem a prática. Algumas realmente sabem o que estão fazendo, mesmo sem especialização nenhuma. Elas possuem as manhas, elas treinaram para isso. Elas têm a vivência. Vai dizer que elas não merecem as 1200 visualizações, só porque não são "profissionais"?
CHEFE: - Agora já chega. Você está demitido. Demitido! Saia já desta sala!
ESTAGIÁRIO se levanta da cadeira e sai da sala. CHEFE respira fundo para se acalmar. Senta novamente.
CHEFE: -Então, agora é a hora de falar do lado ruim: cortes de gastos. Primeiro, acabou a bolsa-academia. Sinto muito, mas agora vocês vão ter que malhar em casa. Quanto ao auxílio nas plásticas...
***
E essa é a minha opinião sobre o diploma de Jornalismo.
CHEFE: - Quero mostrar uma coisinha pra vocês.
CHEFE abre um gráfico no Powerpoint de seu laptop e mostra-o a todos. Uma linha descendente.
CHEFE: - Este é o crescimento da indústria de vídeos pornô no mundo.
ATOR 1 levanta a mão para falar.
ATOR 1: - Hã, chefe, acho que essa linha mostra uma queda, e não um crescimento...
CHEFE bate com o punho na mesa. Responde gritando.
CHEFE: - É claro que mostra uma queda, seu energúmeno! É porque a indústria não está crescendo! Se ela estivesse crescendo, eu estaria feliz! Eu pareço feliz? Não! E, se ela não está crescendo, está diminuíndo! E alguém sabe porque a indústria está diminuindo?
ATOR 1 levanta a mão de novo, mas pensa melhor e resolve baixá-la. CHEFE respira fundo, e ele mesmo explica.
CHEFE: - É por causa da internet. Temos que competir com a maldita internet. E eu não falo só de pirataria. Agora, com esses sites de vídeos em stream, qualquer um pode fazer seus próprios filminhos e mandar para o mundo. O cara só precisa de uma câmera, uma ou duas mulheres bêbadas e um tripé e voilá, pode se chamar de produtor pornô.
CHEFE abre o navegador de seu laptop e acessa um site de vídeos adultos em stream. Clica num vídeo qualquer e mostra-o para todos.
CHEFE: - Olhem isso. Olhem isso! É péssimo. Completamente amador. A mulher nem está maquiada! E esse enquadramento, parece que o cara colocou a câmera em qualquer lugar. E esses gemidos, meu Deus! Que gemidos são esses? Não se geme assim num filme.
PRODUTOR 1: - Aonde você quer chegar?
CHEFE: - Eu quero que vocês olhem as visualizações. Mil e duzentas. É mais do que o total de vendas do nosso último filme, "Eu Sei Com Quem Vocês Fizeram no Verão Passado". Um lixo desses. E olha que eu peguei um vídeo ao acaso. Tem uns piores e com mais visualizações. As nossas vendas estão em queda porque os nossos consumidores migram daqui para estes sites. Estão trocando a nossa produção especializada por qualquer filminho, porque é de graça.
PRODUTOR: - Tá, mas o que você sugere? E porque você chamou toda a equipe para a reunião?
ATOR 2: - É, eu estava na academia! O que eu tenho a ver com vendas e números? Isso é com o pessoal da, do... das vendas e números!
CHEFE: - O que eu sugiro, meus amigos, é trabalhar com o mercado. Claro, qualquer um pode fazer um vídeo pornô e lançar na web de graça, mas só nós podemos fazer um filme. Sempre haverá um público que quer mais qualidade, que não se rende a qualquer filmezinho de webcam. Esse é o nosso público. O público especializado. É nele que temos que investir forte. E, se qualidade é o que eles querem, qualidade é o que terão.
O CHEFE aponta para o pessoal da equipe técnica.
CHEFE: - Equipe técnica! Precisamos das melhores câmeras do mercado. Só quero filmar em Full HD agora. Aqueles vídeos quadriculados da internet não poderão competir com a nossa moderna aparelhagem. Quero que os espectadores possam ver cada penugem das coxas de nossa atrizes, uma por uma.
TÉCNICO-CHEFE: - Chefinho, isso vai custar caro...
CHEFE: - Não quero saber! Cada gasto é um investimento. E pesquisem essa tecnologia 3D. Quando houver TVs 3D, quero ser o primeiro a fazer filmes pornôs para elas. Total imersão! Quero que o espectador sinta cada fluido corporal de nosso elenco. É isso o que vai vender no futuro!
CHEFE aponta para a equipe de roteiros.
CHEFE: - Roteiristas! Não gostei do seu último trabalho. Muito raso. Eu quero uma história. Eu quero rir, eu quero chorar, eu quero me emocionar. Chega de mulheres traídas que resolvem dar o troco na mesma moeda e professoras sacanas. Eu quero originalidade.
ROTEIRISTA 1: - Como assim? "Sacana e Boa de Cama" foi um grande filme!
ROTEIRISTA 2: - É! E "Escola da Cama" foi muito criativo! Quer dizer, a menina recatada é transferida para uma escola nova. Aí ela descobre que é uma escola de sexo, e aprende com seus professores como deixar de ser tão inibida, com lições práticas e em grupo. É perfeito!
CHEFE: - Não, eu quero mais do que isso... Eu quero aprofundamento... De onde veio essa menina? Por que ela é tão recatada? Como era a sua vida antes de vir para a escola? Lacunas, lacunas... E o dilema da personagem? Ela é tirada de seu meio e colocada em um ambiente completamente oposto. E seus conflitos, e suas fobias, onde estão? Ela poderia confessar tudo isso para a sua colega de quarto, que a ajudaria a aceitar sua nova realidade, fazendo-a se abrir aos poucos, primeiro figurativa e depois literalmente. É a cena emblemática, o simbolismo da nova realidade liberal penetrando no âmago da sociedade conservadora burguesa, talvez com a ajuda de brinquedinhos. É isso o que eu quero. Eu quero o equivalente a Dostoiévski se ele escrevesse sacanagem.
ATRIZ 1: - E nós, chefe? Quer que botemos mais silicone?
CHEFE: - Não só isso, minha cara. Eu quero acreditar na interpretação de vocês. No seu último papel como Mulher das Cavenas Sacana, você não convencia ninguém. Faltou entrar no personagem. O público quer acreditar no que está vendo, e o primeiro passo é vocês todos acreditarem no que estão fazendo. Por isso, gastei uma boa grana pra trazer o melhor professor de teatro de São Paulo para dar um curso intensivo. Eu quero ver interpretações dignas de Oscar. E para a direção...
Um estagiário levanta a mão. O CHEFE se supreende.
CHEFE: -Sim?
ESTAGIÁRIO: - Com licença, mas acho que o senhor está se enganando.
Todos os presentes olham-se com cara de espanto. Burburinhos. CHEFE olha para ESTAGIÁRIO com cara de incredulidade.
CHEFE: - Como é que é?
ESTAGIÁRIO: - Eu acho que o senhor está se enganando. O público não está interessado em qualidade de vídeo ou roteiros bons. O público quer sexo.
CHEFE não consegue mudar de cara. Sua mão começa a tremer ligeiramente.
CHEFE: - Masmasmas claro que sim! Imagens nítidas, segurança de encontrar qualidade, tudo isso contribui para a fidelização do...
ESTAGIÁRIO: - Não é isso que o público está procurando. O público não está interessado em qualidade técnica, ele quer o sexo. O melhor sexo que conseguir encontrar.
CHEFE: - Mas temos atrizes profissionais nos nossos elencos, elas vão estudar atuação para...
ESTAGIÁRIO: - A única diferença das suas profissionais para as amadoras são as plásticas. O termo "profissional" é uma enganação. Escola de atores? Por que a audiência iria preferir o fake se ela pode assistir ao real? A credibilidade é muito maior quando sabemos que a pessoa está fazendo aquilo por amor ao sexo e não pelo dinheiro.
CHEFE bate na mesa com a mão. Começa a perder a compostura.
CHEFE: -Ora, jovenzinho! Como ousa chamar o meu elenco de enganação? Essas mulheres sabem trepar como nenhuma outra!
ESTAGIÁRIO: - Ah, e você acha que é realmente difícil de achar alguém por aí que, sem especialização nenhuma, consiga trepar melhor que a maioria das suas mulheres? Claro que a maioria nunca chegará aos pés delas, mas algumas... ah, algumas possuem a prática. Algumas realmente sabem o que estão fazendo, mesmo sem especialização nenhuma. Elas possuem as manhas, elas treinaram para isso. Elas têm a vivência. Vai dizer que elas não merecem as 1200 visualizações, só porque não são "profissionais"?
CHEFE: - Agora já chega. Você está demitido. Demitido! Saia já desta sala!
ESTAGIÁRIO se levanta da cadeira e sai da sala. CHEFE respira fundo para se acalmar. Senta novamente.
CHEFE: -Então, agora é a hora de falar do lado ruim: cortes de gastos. Primeiro, acabou a bolsa-academia. Sinto muito, mas agora vocês vão ter que malhar em casa. Quanto ao auxílio nas plásticas...
***
E essa é a minha opinião sobre o diploma de Jornalismo.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
A linha
Fiquei revoltado e satisfeito com a matéria sobre zoofilia da Void. Revoltado porque é nojento. O satisfeito eu explico depois. Para quem não sabe, mês retrasado a Void publicou uma matéria ensinando como seduzir animais. Para o sexo. Isso. Primeiro ensinava os melindres para se dar bem com os animais domésticos, depois os da fazenda, e culminava com uma seção sobre como se divertir no oceano. Com sexo. Não tive a força de vontade necessária para ler tudo, mas tinha uma parte sensacional sobre como fazer amor com golfinhos. E digo fazer amor, porque a revista deixava sempre claro que não se tratava de abusar dos animaizinhos, e sim desfrutar de prazer conjunto. Menos mal.
Trago um tópico de dois meses atrás para debate porque só agora a Void publicou alguma repercussão sobre o caso. Deixou explícitas, na seção de cartas - oops, mails - deste mês, o que já vinha se comentando no boca-a-boca: quatro manifestações de nojo e incredulidade, junto com outras duas defendendo a atitude da revista. Está certo, tem que ter os dois lados. O fato de haver o dobro de manifestações contra pode indicar que a revista não tem medo de dar a cara pra bater, ou que não havia muitas mensagens de apoio (ao menos publicáveis). Mas o fato da Void prestar-se a publicar as críticas, admitindo assim a existência de indignação pública, lembra a postura adotada pela MTV naquele fatídico VMB, onde a apresentação de Caetano e David Byrne deu pau três vezes. Ao invés de ocultar o caso, torcendo para que caísse no ostracismo, o canal abraçou o erro e transformou a frase "bota essa porra pra funcionar" em vinheta. Ou seja, já que botamos o pé na merda, vamos afundá-lo de vez e fazer algo bom com isso. Deu certo. O "bota essa porra pra funcionar" não era mais um erro e sim parte do jeitinho MTV de ser. Nos enrolamos, sim, mas no final botamos a porra pra funcionar. A Void enveredou pelo mesmo caminho: sim, publicamos uma matéria que ofendeu meio mundo, mas é o nosso jeito de ser. Amem-nos ou deixem-nos. Não pensem porém que foi uma decisão fácil: a ausência de qualquer menção à matéria na edição posterior a esta mostra que eles demoraram um pouco para decidir o que fazer com a polêmica. Decidiram abraçá-la. Afundaram o pé na merda. Mas com determinação.
E, se não foi a intenção, pelo menos o ocorrido acabou por se tornar uma bela peça publicitária. Afinal, nada melhor do que largar uma polêmica para chamar atenção. Nego ouve que tem uma revista fazendo matéria muito louca sobre zoofilia, já viu? Vai correndo pegar a sua, lê de cabo a rabo, se indigna, se revolta, cospe cada vez que fala o nome da Void, e pronto, já virou leitor cativo que espera ansiosamente pela próxima edição. Eu sei porque foi exatamente o que aconteceu comigo, maldição. Eles conseguiram.
Agora, o porquê de eu ficar satisfeito. Há algum tempo, venho pensando qual será o próximo tabu a ser quebrado, agora que o bissexualismo não assusta mais ninguém. Tem que ser algo que é considerado contra a ordem natural das coisas, mas que tecnicamente não é ilegal. Como pegar a comida que deixam nos pratos dos restaurantes: pode fazer, mas não é bem visto. Cheguei a dois bons palpites: ficar entre irmãos e zoofilia. Ficar entre irmãos é isso aí: errado, nojento, totalmente contra os costumes vigentes, e por isso, vai se tornar a próxima moda nas baladas alternativas. É tudo o que o bissexualismo era no século passado, até que este se tornou banal. E certamente vai se tornar a porta para escapar dessa sociedade repressiva para os jovens que, cansados das regras e dos costumes anacrônicos vigentes, desejam subverter o sistema.
Quanto à zoofilia, lembro de entreouvir uma edição do Saia Justa sobre o assunto. Não vejo Saia Justa, acho um programinha detestável, mas minha mãe vê e eu estava no recinto, fazer o quê. Não sei por que cargas d'água os animaizinhos viraram pauta no programa, mas o fato é que elas estavam discutindo se era correto ou não o ato sexual no caso do animal não sofrer no processo. Apesar de super metidas a modernetes, era visível o desconforto das quarentonas (cinquentonas? Sessentonas?) ao tratar do assunto. "É, eu ouvi dizer que tem uns vídeos brasileiros muito bons", disse uma delas, levemente gaguejante, após uma outra ter mencionado cavalos. Não era o lugar adequado, e, principalmente, não era a hora certa. O público aceita bem discussões sobre infidelidade, poligamia, lesbianismo, mas zoofilia? Ainda não. Muito cedo.
O que não impediu a Void de fazer uma investida no assunto, propositalmente, só para chocar. A Void é uma revista alternativa, e, como tal, precisa de pautas alternativas. Alternativo é algo que não está nos meios comuns de discussão. Difícil achar algo mais alternativo que zoofilia, mas há uma fina linha que separa o alternativo do grosseiro. Às vezes as coisas não aparecem na grande mídia simplesmente por serem grosseiras demais, e, ao dar destaque para tais coisas, corre-se o risco de se fazer uma publicação de baixo nível, bagaceira mesmo. A intenção da revista foi chamar atenção, mas imagino que não de forma tão negativa. É o risco que se corre quando se arrisca muito nessa linha divisória. Enfim, fiquei satisfeito de acertar o próximo tabu a ser quebrado, mas acho que ele ainda vai continuar tabu por um bom tempo. A matéria foi apenas um começo. Boa tentativa, Void. Mas foi muito cedo. Muito cedo.
Trago um tópico de dois meses atrás para debate porque só agora a Void publicou alguma repercussão sobre o caso. Deixou explícitas, na seção de cartas - oops, mails - deste mês, o que já vinha se comentando no boca-a-boca: quatro manifestações de nojo e incredulidade, junto com outras duas defendendo a atitude da revista. Está certo, tem que ter os dois lados. O fato de haver o dobro de manifestações contra pode indicar que a revista não tem medo de dar a cara pra bater, ou que não havia muitas mensagens de apoio (ao menos publicáveis). Mas o fato da Void prestar-se a publicar as críticas, admitindo assim a existência de indignação pública, lembra a postura adotada pela MTV naquele fatídico VMB, onde a apresentação de Caetano e David Byrne deu pau três vezes. Ao invés de ocultar o caso, torcendo para que caísse no ostracismo, o canal abraçou o erro e transformou a frase "bota essa porra pra funcionar" em vinheta. Ou seja, já que botamos o pé na merda, vamos afundá-lo de vez e fazer algo bom com isso. Deu certo. O "bota essa porra pra funcionar" não era mais um erro e sim parte do jeitinho MTV de ser. Nos enrolamos, sim, mas no final botamos a porra pra funcionar. A Void enveredou pelo mesmo caminho: sim, publicamos uma matéria que ofendeu meio mundo, mas é o nosso jeito de ser. Amem-nos ou deixem-nos. Não pensem porém que foi uma decisão fácil: a ausência de qualquer menção à matéria na edição posterior a esta mostra que eles demoraram um pouco para decidir o que fazer com a polêmica. Decidiram abraçá-la. Afundaram o pé na merda. Mas com determinação.
E, se não foi a intenção, pelo menos o ocorrido acabou por se tornar uma bela peça publicitária. Afinal, nada melhor do que largar uma polêmica para chamar atenção. Nego ouve que tem uma revista fazendo matéria muito louca sobre zoofilia, já viu? Vai correndo pegar a sua, lê de cabo a rabo, se indigna, se revolta, cospe cada vez que fala o nome da Void, e pronto, já virou leitor cativo que espera ansiosamente pela próxima edição. Eu sei porque foi exatamente o que aconteceu comigo, maldição. Eles conseguiram.
Agora, o porquê de eu ficar satisfeito. Há algum tempo, venho pensando qual será o próximo tabu a ser quebrado, agora que o bissexualismo não assusta mais ninguém. Tem que ser algo que é considerado contra a ordem natural das coisas, mas que tecnicamente não é ilegal. Como pegar a comida que deixam nos pratos dos restaurantes: pode fazer, mas não é bem visto. Cheguei a dois bons palpites: ficar entre irmãos e zoofilia. Ficar entre irmãos é isso aí: errado, nojento, totalmente contra os costumes vigentes, e por isso, vai se tornar a próxima moda nas baladas alternativas. É tudo o que o bissexualismo era no século passado, até que este se tornou banal. E certamente vai se tornar a porta para escapar dessa sociedade repressiva para os jovens que, cansados das regras e dos costumes anacrônicos vigentes, desejam subverter o sistema.
Quanto à zoofilia, lembro de entreouvir uma edição do Saia Justa sobre o assunto. Não vejo Saia Justa, acho um programinha detestável, mas minha mãe vê e eu estava no recinto, fazer o quê. Não sei por que cargas d'água os animaizinhos viraram pauta no programa, mas o fato é que elas estavam discutindo se era correto ou não o ato sexual no caso do animal não sofrer no processo. Apesar de super metidas a modernetes, era visível o desconforto das quarentonas (cinquentonas? Sessentonas?) ao tratar do assunto. "É, eu ouvi dizer que tem uns vídeos brasileiros muito bons", disse uma delas, levemente gaguejante, após uma outra ter mencionado cavalos. Não era o lugar adequado, e, principalmente, não era a hora certa. O público aceita bem discussões sobre infidelidade, poligamia, lesbianismo, mas zoofilia? Ainda não. Muito cedo.
O que não impediu a Void de fazer uma investida no assunto, propositalmente, só para chocar. A Void é uma revista alternativa, e, como tal, precisa de pautas alternativas. Alternativo é algo que não está nos meios comuns de discussão. Difícil achar algo mais alternativo que zoofilia, mas há uma fina linha que separa o alternativo do grosseiro. Às vezes as coisas não aparecem na grande mídia simplesmente por serem grosseiras demais, e, ao dar destaque para tais coisas, corre-se o risco de se fazer uma publicação de baixo nível, bagaceira mesmo. A intenção da revista foi chamar atenção, mas imagino que não de forma tão negativa. É o risco que se corre quando se arrisca muito nessa linha divisória. Enfim, fiquei satisfeito de acertar o próximo tabu a ser quebrado, mas acho que ele ainda vai continuar tabu por um bom tempo. A matéria foi apenas um começo. Boa tentativa, Void. Mas foi muito cedo. Muito cedo.
domingo, 16 de maio de 2010
O supermercado
Quando percebeu, o homem estava num corredor de supermercado. Não sabia como chegara lá. Não lembrava de ter entrado num supermercado, nem de ter pensado em entrar em um supermercado. Foi como se piscasse os olhos e simplesmente aparecesse. Pensou. O que estava fazendo antes? Não lembrava. Notou que em uma das mãos segurava uma cesta de compras, vazia. Ao seu redor, pessoas passeavam com seus carrinhos, olhando mortamente as prateleiras, alheias à perplexidade do homem parado no meio do corredor. Ele esfregou os olhos. Resolveu sair dali. Dobrou à direita e seguiu reto. Estava no corredor de fraldas. Percorreu-o até o final, uma parede cheia de gêneros alimentícios. Dobrou à esquerda. Seguiu este corredor até o fim. Passou por materiais escolares, achocolatados, produtos de limpeza, geleias. Chegou ao fim, outra parede forrada de produtos. Virou novamente à esquerda. À direita, na geladeira dos sorvetes. Passou os refrigerantes. Parou, tentou se localizar. Não conhecia o lugar e não sabia para que lado sair. Pensou em pedir informações, mas sentia-se por demais envergonhado. Explicaria o quê? Que não se lembrava como fora parar ali? É um supermercado grande. Cosméticos, louças, farinha, feijão. Tentou outro caminho. Finalmente achou a direção certa. Passou pela seção de rações, seguiu-a até o final e encontrou a única direção que não havia tentado. Ao dobrar, finalmente encontraria os caixas e a porta de saída, depois de tanto sufoco. Dobrou.
Caiu em outro corredor.
***
O homem deu sorte de achar a seção dos travesseiros e teve como passar a noite de um modo relativamente confortável. Não entendia o que era aquele lugar. Passou a manhã seguinte peregrinando pelas vias do supermercado em busca de algum ponto de referência, algo que lhe guiasse para a saída. Vez por outra ainda via alguma pessoa passando. Desistiu de tentar falar com elas. Pedia informações e recebia resmungos, pedindo para que não as incomodasse. Chegou a puxar o braço de um senhor, depois de se irritar com sua falta de reação, e este desvencilhou-se aborrecido, xingando o homem e reclamando que só queria comprar os seus produtos em paz. Mas as pessoas estavam ficando mais escassas. O homem se sentia só.
Teve a ideia de fazer uma trilha com tiras de linguiça que pegara na seção de carnes. À medida que andava, ia soltando a tira no chão, depois mais uma, quando essa acabasse, depois outra e assim por diante. Assim, não se perderia e poderia achar uma lógica naquele labirinto.
Resolveu testar: soltou a tira de linguiça no chão, virou à esquerda, no corredor macrobiótico. Seguiu em frente até os condicionadores, aí virou mais uma vez à esquerda. Frente, segunda à direita, esquerda nos lenços de papel, direita, frente até a seção de escovas de dente. Aí seguiu reto até o fim. Depois dobrou na seção de salgadinhos, esquerda, depois terceira à esquerda, frente. Então virou à direita.
Achou o começo da tira de linguiça.
***
O homem ficou muito feliz em achar a seção de frutas. Não aguentava mais comer biscoitos Trakinas e barras de cereais. Certificou-se de encher a sua cesta com alguma coisa saudável. Lembrou que precisava encontrar algo para beber. O refrigerante estava acabando, e não sabia como voltar até o corredor de bebidas. A última vez que passou por lá foi... quando mesmo? Perdera a noção de há quanto tempo estava perdido. Dois dias, no mínimo, mas a ausência de janelas impedia o homem de se guiar pelo sol para ter certeza. A falta desses acessos ao exterior eliminava uma opção de fuga daquele lugar, já que não havia portas, também, nem nenhum outro meio de comunicação com o lado de fora. Precisava de um jeito de derrubar aquelas paredes. Lembrou de uma receita de bomba caseira que vira na internet. Envolvia álcool, cola escolar, bicarbonato de sódio e coca-cola, algo assim. Não sabia se era piada ou verdade, mas não custava tentar. Provavelmente era piada. Já tinha algumas coisas para começá-la, mas precisava de fósforos.
As pessoas realmente faziam de tudo para ignorá-lo. Ele gritava, empurrava-as, fez um striptease na frente de uma velhinha, mas elas não estavam nem aí. Repetiam que queriam encontrar os seus produtos, e que o homem parasse de atormentá-las.
- Ei, senhor! SENHOR!
- Saia da frente, mocinho!
- Ah, então o senhor me vê, não é? E vê que este lugar não tem saída, e que estamos todos presos, e que eu pareço ser o único que se importa com isso?
- Eu só quero achar o meu xampu.
- Por que você bota tudo isso no seu carrinho se este lugar NÃO TEM CAIXA?
- Saia da frente, saia da frente...
Achou os fósforos, mas perdeu a cola em algum lugar.
***
O homem se sentiu muito mais confortável depois que queimou um travesseiro para fazer uma fogueira. Claro, agora não teria mais tanto conforto ao dormir, mas teve a chance de lembrar que, realmente, carne cozida é bem melhor do que crua. Além disso, naquela noite acamparia no corredor de cereais matinais, e as caixas de cereais são um ótimo substituto para travesseiros. A fogueira ajudou a passar o frio. Gostaria de achar algumas roupas para se esquentar, mas não sabia se vendiam isso no estabelecimento.
Fazia planos para quando saísse dali: viveria numa tribo nômade, onde os seus componentes devem caçar seu próprio alimento, e nunca mais pisaria num supermercado.
A fogueira teve um efeito curioso: chamou a atenção de um outro homem que estava perdido entre os corredores. Este segundo era igual ao primeiro, não como os zumbis entorpecidos que vagavam aqui e ali, mas alguém com capacidade de analisar a situação e dizer que sim, estavam ambos presos e precisavam achar a saída. Finalmente não estava mais sozinho.
- Como você chegou aqui?
- Também não sei. Quando me dei conta estava aqui. Já faz um tempo, isso.
- Você também tinha uma cesta de compras?
- Não. Um carrinho. E uma lista.
- Uma lista de compras?
- É.
- Chegou a completá-la?
- Não. Nunca achei todos os produtos. Além disso, fiquei com medo.
- Do quê?
- Do que aconteceria, né? Caso eu completasse todas as compras. Vai que eu passasse para um estágio pior. Como chamar a atenção de um garçom em um restaurante.
Achou a cola escolar e o bicarbonato de sódio, mas bebeu toda a coca-cola.
***
- Me diz uma coisa...
- Sim?
- Você, que já está aqui há mais tempo... nunca viu algo parecido com um caixa?
- Não. E olha que eu procurei.
Estavam os dois jogados no canto dos lanches, comendo bobagens e olhando um ou outro transeunte passar pateticamente com seu carrinho por eles. O segundo homem, o que estava perdido há mais tempo, diz, ao observar um velhinho investigando todos os produtos das prateleiras que passa:
- Sempre achei que o purgatório fosse algo assim.
- Assim como?
- Como um grande supermercado. A gente procurando eternamente por um produto que não acha, nunca acha... dando voltas e voltas no mesmo labirinto.
O outro olha para o velho, procurando pateticamente o seu xampu entre os condimentos.
- Eles nunca vão achar, vão?
- O que procuram? Acho que não. O que você realmente procura você nunca acha. É por isso que você continua vagando.
O homem assentiu. E completou:
- Vai ver nós estamos lúcidos agora, mas nos tornemos como eles em breve: apenas seres estúpidos, vagando atrás de uma busca sem sentido...
- Ou talvez não...
- Como?
- Talvez seja o contrário. Nós éramos assim e acordamos. Percebemos a nossa situação. Talvez tenhamos vivido dentro do supermercado sempre, só não percebemos isso. Ficamos distraídos a vida inteira, indo atrás das nossas compras, imaginando uma vida, então pam! Acordamos. Talvez a nossa vida antes tenha sido um sonho. Nós nunca conseguimos lembrar dos sonhos direito. Ele é algo muito nítido, muito vívido na hora, e depois ele vai desbotando, ficando mais irreal, até não restar nem a lembrança. Você consegue lembrar da sua vida?
O homem fez um esforço.
- Não... bem não. Quer dizer, eu sei que tinha algo, mas...
- Mas não consegue lembrar. Nós nunca lembramos de um sonho, em seus detalhes, algumas horas depois de acordar. Só fica a lembrança da lembrança. Só fica o nada.
O homem concordou. Seu novo amigo continuou:
- Ou talvez essas pessoas não sejam tão burras. Eu nunca vejo duas vezes a mesma pessoa. Vai ver algumas conseguem sair. Vai ver elas acharam o caixa...
O homem esperou um pouco antes de falar:
- Ou vai ver este é um mercado muito grande.
Acharam o bicarbonato de sódio e a coca-cola, mas acabaram-se os fósforos.
***
Ao tentar um caminho diferente, deram com a seção de vinhos. Eram várias estantes de madeira recheadas de tintos e secos, muitos deles importados e com preços absurdos. Fizeram uma pausa obrigatória para desfrutar do local.
- Uma coisa que eu não entendo... - diz o que estava há mais tempo no mercado, enquanto desfrutava de um tinto, safra de 78 - ...é onde estão os funcionários. Certamente devem haver funcionários. No mínimo alguém que limpe o lugar. Está sempre impecável.
O outro concordou. Raramente voltava pelos lugares por onde passou, mas quando o fazia não via sinais das embalagens que deixava pelo chão, das sobras de comida, das caixas de cereal onde defecava. Alguém limpava tudo isso. Mas nunca viu ninguém da equipe de limpeza.
- Nem o pessoal da reposição. - continuou o primeiro - Não vejo ninguém repondo os estoques. Alguém deve vir aqui repor os produtos quando eles acabam. Tem que vir. Eles não podem simplesmente reaparecer nas prateleiras.
- Mas você já viu alguém fazendo isso?
- Não. Nunca. Mas também nunca esperei para ver se alguém aparecia.
O outro teve uma ideia.
- Quer saber? Chega de vagar. Esquece esse negócio de achar uma saída. Nós vamos ficar andando para sempre e nunca saberemos se estamos indo para o lado certo. Vamos beber. Tudo.
- Tudo?
- É. Vamos acabar com os vinhos. Não deixaremos garrafa sobre garrafa. E, em algum momento, alguém vai ter que vir aqui repor as bebidas. E nós estaremos esperando.
- Brilhante ideia. Quer um tinto?
- Safra de 68?
- É.
- Manda.
***
O homem acorda com uma sensação desagradável nas costelas. Logo depois leva outro chute. Levanta a cabeça, grogue. Um sujeito enorme, vestido num terno, o encara. Ao lado, o seu amigo está sendo acordado por um outro sujeito de terno, do mesmo jeito indelicado. Ao redor dos dois, garrafas e mais garrafas vazias. O homem tenta pegar uma que ainda não está aberta: estende a mão, mas a garrafa é afastada de seu alcance por um terceiro sujeito, baixinho, de bigode. Ele parece furioso. Na sua camisa, uma credencial de "Gerente".
- Espero que vocês tenham como pagar tudo isso. - diz ele.
O homem olha para a cara do gerente. Ele é gordo e tem um bigode engraçado. O homem ri. Um dos sujeitos grandes o pega pelas vestimentas, o sacode e joga para cima do seu amigo, que está completamente perdido.
- O que vocês pensam que estão fazendo? Essa bagunça inteira, vocês acham que vai sair do bolso de quem? Estão me ouvindo?
O homem se arrasta para sair de cima do amigo. Os dois se entreolham: riem. O gerente está furioso.
- Estão rindo do quê? Vocês tem ideia de quem sou eu?
Mas os dois não conseguem ouvir o que o gerente fala. Gargalham alto, totalmente embriagados.
- Assim não dá. Segurança, eles não estão nos levando a sério. Dá uma liçãozinha neles.
Um dos homens de terno assente e pega uma barra de aço. Aí fica tudo escuro.
Ao tentar um caminho diferente, deram com a seção de vinhos. Eram várias estantes de madeira recheadas de tintos e secos, muitos deles importados e com preços absurdos. Fizeram uma pausa obrigatória para desfrutar do local.
- Uma coisa que eu não entendo... - diz o que estava há mais tempo no mercado, enquanto desfrutava de um tinto, safra de 78 - ...é onde estão os funcionários. Certamente devem haver funcionários. No mínimo alguém que limpe o lugar. Está sempre impecável.
O outro concordou. Raramente voltava pelos lugares por onde passou, mas quando o fazia não via sinais das embalagens que deixava pelo chão, das sobras de comida, das caixas de cereal onde defecava. Alguém limpava tudo isso. Mas nunca viu ninguém da equipe de limpeza.
- Nem o pessoal da reposição. - continuou o primeiro - Não vejo ninguém repondo os estoques. Alguém deve vir aqui repor os produtos quando eles acabam. Tem que vir. Eles não podem simplesmente reaparecer nas prateleiras.
- Mas você já viu alguém fazendo isso?
- Não. Nunca. Mas também nunca esperei para ver se alguém aparecia.
O outro teve uma ideia.
- Quer saber? Chega de vagar. Esquece esse negócio de achar uma saída. Nós vamos ficar andando para sempre e nunca saberemos se estamos indo para o lado certo. Vamos beber. Tudo.
- Tudo?
- É. Vamos acabar com os vinhos. Não deixaremos garrafa sobre garrafa. E, em algum momento, alguém vai ter que vir aqui repor as bebidas. E nós estaremos esperando.
- Brilhante ideia. Quer um tinto?
- Safra de 68?
- É.
- Manda.
***
O homem acorda com uma sensação desagradável nas costelas. Logo depois leva outro chute. Levanta a cabeça, grogue. Um sujeito enorme, vestido num terno, o encara. Ao lado, o seu amigo está sendo acordado por um outro sujeito de terno, do mesmo jeito indelicado. Ao redor dos dois, garrafas e mais garrafas vazias. O homem tenta pegar uma que ainda não está aberta: estende a mão, mas a garrafa é afastada de seu alcance por um terceiro sujeito, baixinho, de bigode. Ele parece furioso. Na sua camisa, uma credencial de "Gerente".
- Espero que vocês tenham como pagar tudo isso. - diz ele.
O homem olha para a cara do gerente. Ele é gordo e tem um bigode engraçado. O homem ri. Um dos sujeitos grandes o pega pelas vestimentas, o sacode e joga para cima do seu amigo, que está completamente perdido.
- O que vocês pensam que estão fazendo? Essa bagunça inteira, vocês acham que vai sair do bolso de quem? Estão me ouvindo?
O homem se arrasta para sair de cima do amigo. Os dois se entreolham: riem. O gerente está furioso.
- Estão rindo do quê? Vocês tem ideia de quem sou eu?
Mas os dois não conseguem ouvir o que o gerente fala. Gargalham alto, totalmente embriagados.
- Assim não dá. Segurança, eles não estão nos levando a sério. Dá uma liçãozinha neles.
Um dos homens de terno assente e pega uma barra de aço. Aí fica tudo escuro.
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