A História se move de modo lento, mas as coisas importantes acontecem muito rápido. Olhem o Muro de Berlim: levou uma noite para se erguer e uma noite para cair. Os bolcheviques levaram dez dias para abalar o mundo, como nos conta John Reed. E a Revolução Jasmim na Tunísia, ainda há pouco, derrubou em algumas semanas um regime de décadas de duração.
É interessante como estes pontos de mudança ocorrem depois de um longo período de mesmisse. É como se o povo de países como a Líbia, Egito e Tunísia estivessem enchendo uma barrinha de insatisfação, que ao se completar permitiria passar para o próximo nível. Alcançado o ponto máximo, é hora de seguir para a próxima fase. Só que ninguém sabe qual é. Dificilmente será uma democracia, no nosso conceito.
Walter Laqueur, um historiador sovietólogo, escreveu no seu livro “Fim de um Sonho” que o principal motivo para o povo russo ter se mantido apático durante a ditadura stalinista foi o seu conformismo herdado. Sim, pois antes do regime soviético os russo tiveram anos de monarquia czarista, e portanto não eram livres há gerações, se é que um dia o foram. Eles estavam acostumados a esperar as coisas melhorarem de situação, conscientes de que o poder para isso não estava com eles mas sim na boa vontade de alguém mais poderoso. Penso que no mundo árabe deve ser parecido: todos os países, ou ao menos a sua maioria, migraram de monarquias antigas para um longo período de ditaduras, que são também meio que monarquias, pois o Kadafi planeja botar o filho no poder e o Mubarak até mês passado pensava o mesmo. Eles não conhecem a liberdade. Para quem não é livre, é filho de pais não-livres e neto de gerações subordinadas, liberdade é artigo de luxo. É dispensável, até.
Estranho este conceito para nós, ocidentais. Liberdade não é a prioridade de todo mundo. Ou, ao menos, a liberdade democrática representada por eleições livres. Estas revoluções nascidas no mundo árabe não têm como motivo a luta por eleições livres, e sim uma mudança na conduta do governo. Se antes das revoltas pegarem fogo o Mubarak saísse para a sacada e anunciasse reformas profundas na economia e cortes na corrupção, seria capaz de os egípcios o deixarem mais trinta anos no poder. Não, não. O motivo dessas lutas é que o pão está caro, e não há empregos para pagar o pão. Uma situação diferente da Líbia, que tinha um desempenho decente comparado ao resto da região, mas ali ninguém sabe direito o que está acontecendo.
Eles não querem, necessariamente, uma democracia representativa. Se isso vier, é lucro. Tudo o que eles querem, aparentemente, é alguém comprometido a tirá-los do buraco, ditador ou não. Nos países em que não há oposição organizada, nem partidos políticos nem nada do gênero, chuto dois possíveis destinos: um, uma junta militar vai liderar um processo de transição, como ocorre no Egito, e essa transição vai durar o tempo que eles quiserem (o que é irônico, porque foi mais ou menos assim que Mubarak chegou ao poder), ou dois, vai subir ao poder o único grupo que sempre está organizado mesmo com a ausência de partidos políticos, que é o religioso. O que normalmente não significa liberdade.
De qualquer jeito, o negócio vai se assentar, durante décadas, até que a nova ditadura não sirva mais, e o povo, num rompante orgiástico, o coloque pra fora em duas semanas. Como sempre acontece.
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quarta-feira, 9 de março de 2011
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
A cultura do ódio
Não sei se vocês sabem, mas existem certas restrições impostas a jornalistas em ano de eleições. Não dá, por exemplo, para emitir opinião sobre propaganda eleitoral. Tudo para equilibrar o jogo democrático, afinal, se a mídia quiser fazer uma panelinha para falar só os podres de um candidato e só o lado bom do outro certamente o resultado da eleição é afetado. Esse é o motivo pelo qual tenho evitado escrever sobre política, apesar de ser o momento mais propício. Sim, provavelmente nada aconteceria a um simples blogueiro, em um blog que nem tem lá muitas visualizações, mas lei é lei, né.
Só que dessa vez eu resolvi quebrar o silêncio, e por um bom motivo. Antes eu evitava publicar as minhas opiniões até mesmo para ser imparcial, o que eu acho necessário em período de eleição (não sou contra as restrições aos jornais nesse período), mas agora eu resolvi falar porque o que tenho para criticar acontece não com um ou com outro, mas com TODOS os candidatos. Todos os dois.
O que é essa campanha de ódio que estamos vendo na TV? Os últimos debates se resumiram a trocas de farpas entre os candidatos. Propostas, necas. O essencial não é mostrar-se o mais bem preparado, e sim pintar o outro como um monstro que levará o país a um retrocesso perigoso e potencialmente sem volta. Isso é mentira: nem Serra nem Dilma ousariam alterar bruscamente um projeto de governo tão popular quanto o atual, tenha ele suas raízes no governo FHC ou Lula. O fato é que nenhum dos dois irá mexer no Bolsa Família, na Petrobrás ou na legislação sobre o aborto, nem reprivatizar ou privatizar loucamente as empresas. São pontos polêmicos, cujas alterações desagradariam a grande parte da população e condenariam o governo do potencial presidente mexeriqueiro ao ostracismo. Muito perigoso. O ideal é deixar como está.
Ainda assim os dois lados acusam seus opositores de radicalização, como se os planos de governo fossem opostos. E cria-se ódio e mais ódio, e factoides, e os factoides geram agressão, e a agressão gera mais agressão, e os candidatos ao invés de mandarem parar com o baixo nível se fazem de vítima por agressões com uma bolinha de papel e uma bexiga suspeita. O correto seria pedir para os eleitores baixarem a bola, mas o clima de acusações mútuas está a levar o Brasil para um cenário no qual não importa quem ganhe, metade da população não vai gostar. E vai espernear.
***
Não precisava ser assim, mas a agressão colou. Colou porque é bom odiar. É bom se dizer anti-alguma coisa. Os políticos só estão a dar ao povo o que o povo quer. É ótimo poder xingar irracionalmente qualquer coisa. Um meio-motivo já basta. Não é necessário um quadro imparcial da situação, é bom saber os fatos só o suficiente para poder ter ódio de alguém, sem saber os motivos que o levaram a fazer aquilo. O FHC privatizou porque é do mal. Não foi para renovar empresas sucateadas e sim para dar dinheiro aos estrangeiros. O PT fez o mensalão porque é do mal, e não para conseguir apoio num Congresso engessado onde a maioria era oposição. Ouvir só um lado da história é bom, porque dá motivos para odiar sem ter que entender. Entender é secundário. Entender dá menos motivos para odiar.
Por que e quando começou essa cultura do ódio? Do ódio por prazer? Será que sempre foi assim? E os hippies, será que no fundo, por baixo daquela capa de paz e amor, eles não amavam odiar? Os alemães têm uma palavra para se referir ao prazer que temos ao ver o outro se dando mal. Como quando rimos ao ver uma vídeo-cassetada. Não tenho ideia de como é a palavra, deve ser alguma coisa cheia de consoantes, mas o fato é que esse prazer na dor alheia existe de fato. Está registrado no dicionário. O prazer na dor é o combustível do ódio. Odiar é querer ver o outro se ferrar, e se sentir bem com isso. Na Alemanha ou em qualquer outro lugar.
Não acho que esse amor pelo ódio seja uma característica inata e sim algo adquirido com a falta de amor. Pois veja bem, alguém rejeitado, que não se adequa ao que é esperado dele, deve se sentir muito bem ao ver que não é o único tratado assim. Quem é a grande maioria dos fãs dos vídeos do Felipe Neto? São pessoas bem resolvidas ou adolescentes e pós-adolescentes, vítimas de bullying ou indiferença, que precisam provar, até para si mesmos, que existem pessoas mais ridículas do que eles e, portanto, mais merecedoras de um estigma social? Poderiam ser elas os alvos desses vídeos, mas não são, e por isso elas podem rir à vontade.
Não é ótimo rir quando o lado menos aceito dos outros é exposto na internet, um lugar onde todos podem gerar ódio e ninguém precisa assumir sua identidade? Na internet todo mundo paga de foda e ninguém o é, senão não perderiam tempo em discussões nas páginas de comentários do Youtube.
***
Não, não: essa cultura do ódio é recente e parte das exigências que a estrutura social atual pede de seus membros. É uma estrutura que exige o alcance de patamares altíssimos, que apresenta modelos ideais impossíveis de se alcançar, que reforça a competição ao invés da cooperação. Há um perfil ideal extremamente restrito de cor, sexualidade, poder monetário, beleza, felicidade e disponibilidade de tempo impossível de ser implantado em sua totalidade em uma mísera pessoa. Ninguém o é, e todos adoram jogar isso na cara uns dos outros.
Essa cultura surgida na estrutura econômica subiu para a superestrutura cultural e agora alcançou a política. Nunca, desde a redemocratização, houve tamanha corrente de ódio. Isso ameaça a democracia de um jeito muito óbvio: como pode um presidente odiado por metade da população governar um país? Será que destruiremos anos de construção de uma democracia forte por isso, ódio? Odiar não por o presidente ter um programa de governo ruim, mas simplesmente porque ele não é o outro candidato?
Eu não vou pedir para que no domingo vocês votem com consciência. Votem sem ódio. Só isso. Boas eleições.
Só que dessa vez eu resolvi quebrar o silêncio, e por um bom motivo. Antes eu evitava publicar as minhas opiniões até mesmo para ser imparcial, o que eu acho necessário em período de eleição (não sou contra as restrições aos jornais nesse período), mas agora eu resolvi falar porque o que tenho para criticar acontece não com um ou com outro, mas com TODOS os candidatos. Todos os dois.
O que é essa campanha de ódio que estamos vendo na TV? Os últimos debates se resumiram a trocas de farpas entre os candidatos. Propostas, necas. O essencial não é mostrar-se o mais bem preparado, e sim pintar o outro como um monstro que levará o país a um retrocesso perigoso e potencialmente sem volta. Isso é mentira: nem Serra nem Dilma ousariam alterar bruscamente um projeto de governo tão popular quanto o atual, tenha ele suas raízes no governo FHC ou Lula. O fato é que nenhum dos dois irá mexer no Bolsa Família, na Petrobrás ou na legislação sobre o aborto, nem reprivatizar ou privatizar loucamente as empresas. São pontos polêmicos, cujas alterações desagradariam a grande parte da população e condenariam o governo do potencial presidente mexeriqueiro ao ostracismo. Muito perigoso. O ideal é deixar como está.
Ainda assim os dois lados acusam seus opositores de radicalização, como se os planos de governo fossem opostos. E cria-se ódio e mais ódio, e factoides, e os factoides geram agressão, e a agressão gera mais agressão, e os candidatos ao invés de mandarem parar com o baixo nível se fazem de vítima por agressões com uma bolinha de papel e uma bexiga suspeita. O correto seria pedir para os eleitores baixarem a bola, mas o clima de acusações mútuas está a levar o Brasil para um cenário no qual não importa quem ganhe, metade da população não vai gostar. E vai espernear.
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Não precisava ser assim, mas a agressão colou. Colou porque é bom odiar. É bom se dizer anti-alguma coisa. Os políticos só estão a dar ao povo o que o povo quer. É ótimo poder xingar irracionalmente qualquer coisa. Um meio-motivo já basta. Não é necessário um quadro imparcial da situação, é bom saber os fatos só o suficiente para poder ter ódio de alguém, sem saber os motivos que o levaram a fazer aquilo. O FHC privatizou porque é do mal. Não foi para renovar empresas sucateadas e sim para dar dinheiro aos estrangeiros. O PT fez o mensalão porque é do mal, e não para conseguir apoio num Congresso engessado onde a maioria era oposição. Ouvir só um lado da história é bom, porque dá motivos para odiar sem ter que entender. Entender é secundário. Entender dá menos motivos para odiar.
Por que e quando começou essa cultura do ódio? Do ódio por prazer? Será que sempre foi assim? E os hippies, será que no fundo, por baixo daquela capa de paz e amor, eles não amavam odiar? Os alemães têm uma palavra para se referir ao prazer que temos ao ver o outro se dando mal. Como quando rimos ao ver uma vídeo-cassetada. Não tenho ideia de como é a palavra, deve ser alguma coisa cheia de consoantes, mas o fato é que esse prazer na dor alheia existe de fato. Está registrado no dicionário. O prazer na dor é o combustível do ódio. Odiar é querer ver o outro se ferrar, e se sentir bem com isso. Na Alemanha ou em qualquer outro lugar.
Não acho que esse amor pelo ódio seja uma característica inata e sim algo adquirido com a falta de amor. Pois veja bem, alguém rejeitado, que não se adequa ao que é esperado dele, deve se sentir muito bem ao ver que não é o único tratado assim. Quem é a grande maioria dos fãs dos vídeos do Felipe Neto? São pessoas bem resolvidas ou adolescentes e pós-adolescentes, vítimas de bullying ou indiferença, que precisam provar, até para si mesmos, que existem pessoas mais ridículas do que eles e, portanto, mais merecedoras de um estigma social? Poderiam ser elas os alvos desses vídeos, mas não são, e por isso elas podem rir à vontade.
Não é ótimo rir quando o lado menos aceito dos outros é exposto na internet, um lugar onde todos podem gerar ódio e ninguém precisa assumir sua identidade? Na internet todo mundo paga de foda e ninguém o é, senão não perderiam tempo em discussões nas páginas de comentários do Youtube.
***
Não, não: essa cultura do ódio é recente e parte das exigências que a estrutura social atual pede de seus membros. É uma estrutura que exige o alcance de patamares altíssimos, que apresenta modelos ideais impossíveis de se alcançar, que reforça a competição ao invés da cooperação. Há um perfil ideal extremamente restrito de cor, sexualidade, poder monetário, beleza, felicidade e disponibilidade de tempo impossível de ser implantado em sua totalidade em uma mísera pessoa. Ninguém o é, e todos adoram jogar isso na cara uns dos outros.
Essa cultura surgida na estrutura econômica subiu para a superestrutura cultural e agora alcançou a política. Nunca, desde a redemocratização, houve tamanha corrente de ódio. Isso ameaça a democracia de um jeito muito óbvio: como pode um presidente odiado por metade da população governar um país? Será que destruiremos anos de construção de uma democracia forte por isso, ódio? Odiar não por o presidente ter um programa de governo ruim, mas simplesmente porque ele não é o outro candidato?
Eu não vou pedir para que no domingo vocês votem com consciência. Votem sem ódio. Só isso. Boas eleições.
quarta-feira, 10 de março de 2010
Aécio e Lula
Aécio me lembra Collor. Os dois vêm de uma família de políticos, e os dois almejaram a presidência com uma idade relativamente baixa. Do mesmo modo, os dois me parecem se importar menos com o que podem fazer de bom no exercício do mandato e mais com o mandato em si. Aécio teve a sua chance de ser candidato à presidência e perdeu para o Serra. Agora, aberta a possibilidade de ser vice, diz que não irá "nem empurrado". Aécio não se contenta com a vaga de vice. Ainda mais quando se é jovem e tem um futuro cheio de chances de chegar à presidência. Em teoria, é só dar tempo ao tempo, não concorrer a vice esse ano e tentar a candidatura na próxima eleição.
Parêntese aberto: há alguns fatos para se considerar, que podem provar falha essa lógica. Primeiro que, apesar de Serra estar na liderança, Dilma evolui mais rápido que um Pokémon. Se antes da campanha oficial começar ela já vinha crescendo em ritmo alarmante, agora a coisa vai pegar fogo. Serra fica nessa lenga-lenga de vai-não-vai, de sou-candidato-mas-não-sou, de quero-me-candidatar-mas-vamos-esperar, e Dilma já está em campanha desde antes da campanha começar. Ela é precoce.
Dilma largou na frente e Serra ainda está pastando. O que isso mostra ao povo? Que ela é a mais decidida. Enquanto Dilma está em tudo que é lugar, Serra fica pra trás, apagado, esquecido pelo povo que não o vê na TV. A não ser que, é claro, botem o Aécio para ser seu vice. A sua popularidade serviria como um turbo e os dois juntos largariam na frente, dificilmente podendo ser alcançados. Serra e Aécio: a dupla dinâmica, unidos para acabar com as forças do mal da ex-esquerda guerrilheira. Não ia ter pra ninguém, nem pra Dilma, mas o Aécio não quer. Prefere deixar o partido perder essa eleição do que se conformar a ser o vice, pois tem certeza de que pode ganhar em 2014...
...Que é onde eu abro o meu segundo parêntese. 2014 tem Copa do Mundo, e tem também Lula III. Sim, meus amigos, ele voltará. Ressurgido da cinzas como a fênix, acompanhado pelo clamor do povo, ele retornará, sim, e assumirá o posto que lhe estará reservado na candidatura à presidência da República pelo PT. Velhos irão chorar, comovidos por terem vivido até o dia do Retorno, e massas de pessoas irão se prostar a seus pés. Choverá sangue, talvez, e um ou dois mares irão se abrir.
Pausa e volta para o presente. Para quem pensa que a sequência é sempre pior que o original, Lula II foi uma surpresa. No final de Lula I, tinha-se a impressão de que as lembranças que restariam daquele governo para a posteridade seriam o Fome Zero e o mensalão. Hoje, ninguém se lembra de nenhum dos dois (embora a Veja tenha dado uma requentada no mensalão essa semana ou na passada, deem uma conferida), não porque o povo se esquece de fracassos, ou talvez não só por isso, mas pelo incrível desempenho da sequência. Se no final do 1º mandato todos ficaram com o pé meio atrás, no segundo Lula conquistou reconhecimento nacional, internacional e extraterrestrial: bateu os 80% de aprovação; foi eleito personalidade de 2009 pela imprensa gringa; foi chamado de "o político mais popular do mundo" pelo político mais popular do mundo. Se eu ler por aí que Lula ganhou o título de "Homem Mais Sexy do Mundo", não vou duvidar. O "Cara" é um fenômeno. E é esse fenômeno que Aécio enfrentará, caso espere até 2014. Pois, se Lula já faz estrago só apoiando um candidato, se é ele próprio o candidato o buraco é muito, muito mais embaixo. Aécio não quer ser vice porque possui brilho para ser candidato principal, mas nem todo o brilho do mundo o ajudará nesse cenário. É melhor ele repensar suas estratégias, senão corre o risco de terminar 2010 e 2014 de mãos vazias.
Parêntese aberto: há alguns fatos para se considerar, que podem provar falha essa lógica. Primeiro que, apesar de Serra estar na liderança, Dilma evolui mais rápido que um Pokémon. Se antes da campanha oficial começar ela já vinha crescendo em ritmo alarmante, agora a coisa vai pegar fogo. Serra fica nessa lenga-lenga de vai-não-vai, de sou-candidato-mas-não-sou, de quero-me-candidatar-mas-vamos-esperar, e Dilma já está em campanha desde antes da campanha começar. Ela é precoce.
Dilma largou na frente e Serra ainda está pastando. O que isso mostra ao povo? Que ela é a mais decidida. Enquanto Dilma está em tudo que é lugar, Serra fica pra trás, apagado, esquecido pelo povo que não o vê na TV. A não ser que, é claro, botem o Aécio para ser seu vice. A sua popularidade serviria como um turbo e os dois juntos largariam na frente, dificilmente podendo ser alcançados. Serra e Aécio: a dupla dinâmica, unidos para acabar com as forças do mal da ex-esquerda guerrilheira. Não ia ter pra ninguém, nem pra Dilma, mas o Aécio não quer. Prefere deixar o partido perder essa eleição do que se conformar a ser o vice, pois tem certeza de que pode ganhar em 2014...
...Que é onde eu abro o meu segundo parêntese. 2014 tem Copa do Mundo, e tem também Lula III. Sim, meus amigos, ele voltará. Ressurgido da cinzas como a fênix, acompanhado pelo clamor do povo, ele retornará, sim, e assumirá o posto que lhe estará reservado na candidatura à presidência da República pelo PT. Velhos irão chorar, comovidos por terem vivido até o dia do Retorno, e massas de pessoas irão se prostar a seus pés. Choverá sangue, talvez, e um ou dois mares irão se abrir.
Pausa e volta para o presente. Para quem pensa que a sequência é sempre pior que o original, Lula II foi uma surpresa. No final de Lula I, tinha-se a impressão de que as lembranças que restariam daquele governo para a posteridade seriam o Fome Zero e o mensalão. Hoje, ninguém se lembra de nenhum dos dois (embora a Veja tenha dado uma requentada no mensalão essa semana ou na passada, deem uma conferida), não porque o povo se esquece de fracassos, ou talvez não só por isso, mas pelo incrível desempenho da sequência. Se no final do 1º mandato todos ficaram com o pé meio atrás, no segundo Lula conquistou reconhecimento nacional, internacional e extraterrestrial: bateu os 80% de aprovação; foi eleito personalidade de 2009 pela imprensa gringa; foi chamado de "o político mais popular do mundo" pelo político mais popular do mundo. Se eu ler por aí que Lula ganhou o título de "Homem Mais Sexy do Mundo", não vou duvidar. O "Cara" é um fenômeno. E é esse fenômeno que Aécio enfrentará, caso espere até 2014. Pois, se Lula já faz estrago só apoiando um candidato, se é ele próprio o candidato o buraco é muito, muito mais embaixo. Aécio não quer ser vice porque possui brilho para ser candidato principal, mas nem todo o brilho do mundo o ajudará nesse cenário. É melhor ele repensar suas estratégias, senão corre o risco de terminar 2010 e 2014 de mãos vazias.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Sala de aula
Como todos sabem, ou devem saber, hoje teve início mais um Fórum Social Mundial em Porto Alegre. E como todos sabem, ou devem saber, trata-se de um encontro das esquerdas mundiais, que este ano dividiu-se entre diversas cidades do mundo, inclusive estando presente em cidades da grande Porto Alegre e não somente na Porto Alegre em si. Essa é apenas uma das diferenças do primeiro Fórum para este, o décimo. A maior das diferenças não é outra senão o próprio mundo. Dez anos atrás, o neoliberalismo estava no seu auge, ideologicamente falando. O Fórum surgiu inclusive como contraponto a essa ideia, daí o slogan "um outro mundo é possível", como alternativa ao mundo neoliberal em que nos encontrávamos.
Corta para: 2010. Crise econômica mundial. Pela primeira vez desde o novo século, os governos das potências mundiais frearam o livre mercado e reprivatizaram parte da economia. O mundo busca por formas de corrigir os erros econômicos do passado. Nesse quadro, o Fórum Social Mundial volta a ter relevância. Nunca antes, desde o fim da Guerra Fria, a esquerda teve tamanha chance de voltar a influenciar os rumos do mundo. Provada a ineficácia do modelo econômico vigente, as pessoas passam a se abrir e a ouvir sobre esse outro mundo possível. A esquerda sabe a oportunidade que tem nas mãos. E, mesmo assim, está prestes a cometer um erro já típico dela: divisões internas.
Desde o fim da Guerra Fria, a esquerda anda meio perdida. Grita por mudanças, critica o atual sistema capitalista, mas é ridicularizada justamente por não passar disso. Gritar sem agir para mudar. Criticar é muito fácil, todo mundo faz, agora propor soluções e pô-las em prática são outros quinhentos. Aproveitando a ótima hora para agir, um setor do Fórum propõe que este torne-se um veículo agente de mudança, não só um espaço de discussão. Através de uma carta onde seriam postos todos os pontos em comum dos participantes, o Fórum iria então agir para colocá-los em prática.
A ideia parece maravilhosa, o fim da conversa fiada e o começo da contrução desse outro mundo possível. Mas seria o Fórum o lugar certo para isso? O próprio criador do evento, Oded Grajew, acha que não. Mas um espaço com tantas representações populares, com gente de todo tipo e de todos os movimentos unidas em prol do bem comum, não seria o local ideal para começar uma ação prática? Só que, para uma ação bem sucedida, é preciso ter foco, e não há foco sem hierarquização. Se não me engano, é ele que dá esse exemplo muito bom: imagine dizer para o movimento gay que a prioridade de ação é a reforma agrária. Não dá. Isso cortaria a raiz do Fórum, que é a oportunidade de debater sobre todos os problemas que assolam o mundo, tratando-os com igualdade. Partindo para a ação, esse debate iria acabar priorizando alguns problemas em detrimento de outros. E o sucesso do Fórum vem de tratar todos os problemas sociais, quaisquer que sejam, com a mesma importância. O Fórum serve para pensar. A partir daí, age-se fora dele.
Entendo esse ponto de vista e simpatizo com ele. Mas temo que a hora de agir passe e acabemos perdendo o trem. Viveremos nesta semana um pouco do outro mundo possível. Conviveremos com gente de todos os lugares, de todos os tipos, conversando e trocando opiniões e respeitando-se mutuamente. Mas e depois? Terminará a teoria e começará a ação. Mas ninguém organiza essa ação. É preciso um segundo evento, ou minifóruns de cada área, para os grupos colocarem em prática o que se aprendeu no Fórum. Que, assim, continuará como um lugar para o pensamento livre. O Fórum é a sala de aula. Fora dele é o mundo real.
Corta para: 2010. Crise econômica mundial. Pela primeira vez desde o novo século, os governos das potências mundiais frearam o livre mercado e reprivatizaram parte da economia. O mundo busca por formas de corrigir os erros econômicos do passado. Nesse quadro, o Fórum Social Mundial volta a ter relevância. Nunca antes, desde o fim da Guerra Fria, a esquerda teve tamanha chance de voltar a influenciar os rumos do mundo. Provada a ineficácia do modelo econômico vigente, as pessoas passam a se abrir e a ouvir sobre esse outro mundo possível. A esquerda sabe a oportunidade que tem nas mãos. E, mesmo assim, está prestes a cometer um erro já típico dela: divisões internas.
Desde o fim da Guerra Fria, a esquerda anda meio perdida. Grita por mudanças, critica o atual sistema capitalista, mas é ridicularizada justamente por não passar disso. Gritar sem agir para mudar. Criticar é muito fácil, todo mundo faz, agora propor soluções e pô-las em prática são outros quinhentos. Aproveitando a ótima hora para agir, um setor do Fórum propõe que este torne-se um veículo agente de mudança, não só um espaço de discussão. Através de uma carta onde seriam postos todos os pontos em comum dos participantes, o Fórum iria então agir para colocá-los em prática.
A ideia parece maravilhosa, o fim da conversa fiada e o começo da contrução desse outro mundo possível. Mas seria o Fórum o lugar certo para isso? O próprio criador do evento, Oded Grajew, acha que não. Mas um espaço com tantas representações populares, com gente de todo tipo e de todos os movimentos unidas em prol do bem comum, não seria o local ideal para começar uma ação prática? Só que, para uma ação bem sucedida, é preciso ter foco, e não há foco sem hierarquização. Se não me engano, é ele que dá esse exemplo muito bom: imagine dizer para o movimento gay que a prioridade de ação é a reforma agrária. Não dá. Isso cortaria a raiz do Fórum, que é a oportunidade de debater sobre todos os problemas que assolam o mundo, tratando-os com igualdade. Partindo para a ação, esse debate iria acabar priorizando alguns problemas em detrimento de outros. E o sucesso do Fórum vem de tratar todos os problemas sociais, quaisquer que sejam, com a mesma importância. O Fórum serve para pensar. A partir daí, age-se fora dele.
Entendo esse ponto de vista e simpatizo com ele. Mas temo que a hora de agir passe e acabemos perdendo o trem. Viveremos nesta semana um pouco do outro mundo possível. Conviveremos com gente de todos os lugares, de todos os tipos, conversando e trocando opiniões e respeitando-se mutuamente. Mas e depois? Terminará a teoria e começará a ação. Mas ninguém organiza essa ação. É preciso um segundo evento, ou minifóruns de cada área, para os grupos colocarem em prática o que se aprendeu no Fórum. Que, assim, continuará como um lugar para o pensamento livre. O Fórum é a sala de aula. Fora dele é o mundo real.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Impressões de Copenhague
Vergonha. É isso o que ficou da COP 15, e é isso o que ficará nos livros de história. Como eu temia, os líderes mundiais deixaram o dever de casa para ser feito muito tarde e não conseguiram terminá-lo. Sim, eu já esperava que fosse um fracasso, mas não uma palhaçada. O que aconteceu lá foi uma palhaçada para entrar para a história.
Acho que os líderes mundiais julgaram mal a dimensão do problema. Caso contrário, eles não teriam deixado para aparecer somente na última semana da reunião, para dar uma olhadela no que os diplomatas decidiram, balançar a cabeça positivamente e ficar com as glórias. A maioria chegou lá nos últimos dias para descobrir que os diplomatas não chegaram a consenso algum. Opa, devem ter pensado. Como nada de concreto fora decidido até ali, tiveram eles mesmos, faltando quatro dias para o término do evento, que discutir entre si para chegar num acordo. Caso contrário, as suas imagens políticas ficariam manchadas. Ah é, e as calotas polares iriam derreter.
Mas, olhem só que surpresa, quatro dias foi pouco tempo para elaborar um acordo mundial. Os países desenvolvidos e os em desenvolvimento ficaram batendo na mesma tecla de divisão de responsabilidades e não chegaram a lugar algum. Os subdesenvolvidos queriam que a responsabilidade de cortar emissões fosse só dos ricos. Só que Índia, China e Brasil poluem mais que a maioria dos países ricos. Eles necessitam de freios nessas emissões, senão de nada adianta o resto do mundo parar de poluir. Vejam, aí é que está a beleza da coisa: aquecimento global é um problema que, se o mundo todo não cooperar, o mundo todo (perdoem o termo) se fode. Agora não é mais hora de achar quem é o culpado. Sim, os EUA poluíram mais que nós e mesmo assim nós temos que cortar nossas emissões, é uma merda, mas o planeta não vê o responsável. Ele vai dar o troco em todos, esteja ele poluindo há vinte ou duzentos anos. Por isso, sim, cortes de emissão obrigatórios para países em desenvolvimento, sou a favor.
Mas, aí está onde eu queria chegar, tivemos, sim, um acordo em Copenhague. Por ser um acordo, e não um tratado, ele não tem valor legal, ou seja, quem assinar e não cumprir não vai ser cobrado. Deixe-me acompanhá-los através dos pontos desse acordo:
EUA e China ficaram bem felizes, pois o acordo lhes mandava fazer bem menos do que estavam sendo cobrados pela comunidade mundial. Falando em comunidade mundial, esta teve pouca interferência no acordo, que foi feito em cima da hora por meia dúzia de países. Danem-se as negociações, não é mesmo? Era isso o que os EUA estavam dispostos a oferecer; é pegar ou largar. O mundo largou. Quase ninguém reconheceu o tal tratado.
***
Essa não foi a única vergonha da COP 15. Uma palhaçada completa tem que ser completa em todos os níveis. Aí vão as minhas falhas preferidas:
Organização do evento: brasileiros, não temam mais em passar vergonha na Copa do Mundo ou nas Olimpíadas. Pra quem achava que o Brasil não tem competência para organizar eventos mundiais, a COP 15 deve ter proporcionado um grande alívio. Porque os noruegueses, eles, tão desenvolvidos, com um IDH tão alto, a nação mais evoluída do mundo, também não conseguem. Confusão na distribuição de passes para os debates (que em alguns casos deixou representantes dos países de fora das discussões), reação policial aos manifestantes digna de um Rio de Janeiro e o pedido de demissão da presidente da cúpula no meio do evento foram os pontos altos. Aliás, esse negócio da presidente, que deixou sua posição ao afirmar que "o 1º ministro dinamarquês é que deveria mediar a cúpula" me deixou pensando: se isso fosse no Brasil, certamente iria ter gente balançando a cabeça, fazendo tsc tsc e dizendo: só podia ser brasileira.
Barack Obama: na última semana tinha gente dizendo que talvez Obama não comparecesse à Copenhague, mas essas pessoas se esqueciam que ele esteve sim na cidade, inclusive no início da cúpula. Não para debater o clima, mas para receber o Nobel da Paz. No discurso de premiação, citações sobre "guerras justas", que não pegaram bem. Mas isso não entra no mérito da discussão, já que estamos falando sobre a COP 15. Pois bem, Obama foi receber o prêmio e saiu de fininho sem nem passar pela cúpula. Conforme ia ficando evidente que a conferência seria um fiasco, cresceram as dúvidas sobre se Obama iria comparecer nos dias finais. Depois de muito questionamento, ele foi, ficou 24 horas, fez um discurso em tom de ameaça para os países em desenvolvimento, negociou uma proposta pífia e foi embora. Ao invés do Obama conciliador, vimos uma outra face do governante que só agora está ficando aparente. Discursou como se o assunto fosse de interesse só dos outros países e os EUA estivessem concedendo caridade ao ajudar no fundo de combate às mudanças climáticas, quando na verdade estamos todos no mesmo barco. Muito estranho, vindo de um presidente que usava o combate às mudanças climáticas como promessa de governo.
Fuga em massa: esperava-se uma bonita foto com todos os governantes mundiais juntos ao final do evento para selar o suposto acordo ao final da cúpula. Infelizmente essa foto nunca pode ser feita, pois todos debandaram assim que ficou claro o tamanho do desastre em que se meteram. Espertamente, ninguém queria a sua imagem associada a uma vergonha do tamanho da COP 15. A delegação brasileira inteira foi embora, deixando para trás um confuso Carlos Minc para contar o que aconteceu.
Pra não dizer que foi tudo uma vergonha, vale falar bem de quem negociou direito: Sarkozy merece crédito por ser um dos únicos ricos que estava disposto a destravar as negociações entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. O delegado sudanês Lumumba Di-Aping, presidente do G77, também mostrou fibra ao peitar as grandes economias e por sua nação ser a única africana a recusar assinar um acordo malfeito. Quem saiu-se muito bem também foi o nosso companheiro, presidente Lula. Lula, ao chegar, mostrava-se otimista, mas ao decorrer das negociações percebeu a canoa furada em que todos estavam. O otimismo foi substituído por uma expressão cansada e desgastada. No penúltimo dia, subiu à bancada e fez um discurso criticando a incompetência da cúpula e dos países desenvolvidos em lidar com o problema. Para finalizar, prometeu contribuir com o fundo de apoio, mesmo o Brasil se enquadrando nos países em desenvolvimento. Verdade ou blefe, o discurso serviu para destravar as discussões naquele dia.
***
Apesar de tudo, ainda não acho que é o fim. Dificilmente um acordo sem adesão mundial irá funcionar, o que significa que cedo ou tarde os países vão ter que voltar para a prancheta e fazer algo melhor. Espera-se que até fim do próximo ano as más repercussões de Copenhague constranjam os países a assumir suas responsabilidades. Talvez em Bonn, no meio do ano que vem. Talvez no México, na COP 16. Além dessas datas, é desaconselhável esperar. Lembremo-nos que o mundo não espera.
Acho que os líderes mundiais julgaram mal a dimensão do problema. Caso contrário, eles não teriam deixado para aparecer somente na última semana da reunião, para dar uma olhadela no que os diplomatas decidiram, balançar a cabeça positivamente e ficar com as glórias. A maioria chegou lá nos últimos dias para descobrir que os diplomatas não chegaram a consenso algum. Opa, devem ter pensado. Como nada de concreto fora decidido até ali, tiveram eles mesmos, faltando quatro dias para o término do evento, que discutir entre si para chegar num acordo. Caso contrário, as suas imagens políticas ficariam manchadas. Ah é, e as calotas polares iriam derreter.
Mas, olhem só que surpresa, quatro dias foi pouco tempo para elaborar um acordo mundial. Os países desenvolvidos e os em desenvolvimento ficaram batendo na mesma tecla de divisão de responsabilidades e não chegaram a lugar algum. Os subdesenvolvidos queriam que a responsabilidade de cortar emissões fosse só dos ricos. Só que Índia, China e Brasil poluem mais que a maioria dos países ricos. Eles necessitam de freios nessas emissões, senão de nada adianta o resto do mundo parar de poluir. Vejam, aí é que está a beleza da coisa: aquecimento global é um problema que, se o mundo todo não cooperar, o mundo todo (perdoem o termo) se fode. Agora não é mais hora de achar quem é o culpado. Sim, os EUA poluíram mais que nós e mesmo assim nós temos que cortar nossas emissões, é uma merda, mas o planeta não vê o responsável. Ele vai dar o troco em todos, esteja ele poluindo há vinte ou duzentos anos. Por isso, sim, cortes de emissão obrigatórios para países em desenvolvimento, sou a favor.
Mas, aí está onde eu queria chegar, tivemos, sim, um acordo em Copenhague. Por ser um acordo, e não um tratado, ele não tem valor legal, ou seja, quem assinar e não cumprir não vai ser cobrado. Deixe-me acompanhá-los através dos pontos desse acordo:
- Comprometimento dos países a impedir que a temperatura média mundial suba mais que 2 graus Celsius: no futuro, essa meta pode ser ampliada para 1,6 graus Celsius, o que parece bom, mas não bate com o próximo ponto do acordo.
- Corte de emissões de gases estufa de 20% até 2020, com base nos níveis de emissão de 1990, para países desenvolvidos: a ONU disse que o mínimo necessário para impedir que a temperatura suba mais 2 graus é uma diminuição de 25 a 40%, ou seja, uma diminuição de 20% não serve pra nada.
- Países em desenvolvimento não têm obrigação de estabelecer metas de redução, decidindo eles mesmos o que são capazes de diminuir: lembrando que o maior poluidor atualmente é a China, que se enquadra nessa categoria. Ela, então, poderia decidir que quer diminuir só, sei lá, 5% de suas emissões e ninguém poderia fazer nada.
- Criação de um fundo internacional para ajudar economicamente os países em desenvolvimento a combaterem o aquecimento global: a proposta inicial desse ponto era boa: já que os países em desenvolvivento reclamam que um combate às suas emissões iria frear seus crescimentos, os países ricos financiariam parte do esforço para que eles poluam menos. Os EUA tinham prometido inclusive 100 bilhões de dólares para o fundo anualmente. Na versão final do acordo, esse valor caiu para 30 bilhões, um valor que cresceria a cada ano até chegar aos 100 bilhões anuais que antes tinham sido prometidos desde o início. Os valores são insuficientes.
EUA e China ficaram bem felizes, pois o acordo lhes mandava fazer bem menos do que estavam sendo cobrados pela comunidade mundial. Falando em comunidade mundial, esta teve pouca interferência no acordo, que foi feito em cima da hora por meia dúzia de países. Danem-se as negociações, não é mesmo? Era isso o que os EUA estavam dispostos a oferecer; é pegar ou largar. O mundo largou. Quase ninguém reconheceu o tal tratado.
***
Essa não foi a única vergonha da COP 15. Uma palhaçada completa tem que ser completa em todos os níveis. Aí vão as minhas falhas preferidas:
Organização do evento: brasileiros, não temam mais em passar vergonha na Copa do Mundo ou nas Olimpíadas. Pra quem achava que o Brasil não tem competência para organizar eventos mundiais, a COP 15 deve ter proporcionado um grande alívio. Porque os noruegueses, eles, tão desenvolvidos, com um IDH tão alto, a nação mais evoluída do mundo, também não conseguem. Confusão na distribuição de passes para os debates (que em alguns casos deixou representantes dos países de fora das discussões), reação policial aos manifestantes digna de um Rio de Janeiro e o pedido de demissão da presidente da cúpula no meio do evento foram os pontos altos. Aliás, esse negócio da presidente, que deixou sua posição ao afirmar que "o 1º ministro dinamarquês é que deveria mediar a cúpula" me deixou pensando: se isso fosse no Brasil, certamente iria ter gente balançando a cabeça, fazendo tsc tsc e dizendo: só podia ser brasileira.
Barack Obama: na última semana tinha gente dizendo que talvez Obama não comparecesse à Copenhague, mas essas pessoas se esqueciam que ele esteve sim na cidade, inclusive no início da cúpula. Não para debater o clima, mas para receber o Nobel da Paz. No discurso de premiação, citações sobre "guerras justas", que não pegaram bem. Mas isso não entra no mérito da discussão, já que estamos falando sobre a COP 15. Pois bem, Obama foi receber o prêmio e saiu de fininho sem nem passar pela cúpula. Conforme ia ficando evidente que a conferência seria um fiasco, cresceram as dúvidas sobre se Obama iria comparecer nos dias finais. Depois de muito questionamento, ele foi, ficou 24 horas, fez um discurso em tom de ameaça para os países em desenvolvimento, negociou uma proposta pífia e foi embora. Ao invés do Obama conciliador, vimos uma outra face do governante que só agora está ficando aparente. Discursou como se o assunto fosse de interesse só dos outros países e os EUA estivessem concedendo caridade ao ajudar no fundo de combate às mudanças climáticas, quando na verdade estamos todos no mesmo barco. Muito estranho, vindo de um presidente que usava o combate às mudanças climáticas como promessa de governo.
Fuga em massa: esperava-se uma bonita foto com todos os governantes mundiais juntos ao final do evento para selar o suposto acordo ao final da cúpula. Infelizmente essa foto nunca pode ser feita, pois todos debandaram assim que ficou claro o tamanho do desastre em que se meteram. Espertamente, ninguém queria a sua imagem associada a uma vergonha do tamanho da COP 15. A delegação brasileira inteira foi embora, deixando para trás um confuso Carlos Minc para contar o que aconteceu.
Pra não dizer que foi tudo uma vergonha, vale falar bem de quem negociou direito: Sarkozy merece crédito por ser um dos únicos ricos que estava disposto a destravar as negociações entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. O delegado sudanês Lumumba Di-Aping, presidente do G77, também mostrou fibra ao peitar as grandes economias e por sua nação ser a única africana a recusar assinar um acordo malfeito. Quem saiu-se muito bem também foi o nosso companheiro, presidente Lula. Lula, ao chegar, mostrava-se otimista, mas ao decorrer das negociações percebeu a canoa furada em que todos estavam. O otimismo foi substituído por uma expressão cansada e desgastada. No penúltimo dia, subiu à bancada e fez um discurso criticando a incompetência da cúpula e dos países desenvolvidos em lidar com o problema. Para finalizar, prometeu contribuir com o fundo de apoio, mesmo o Brasil se enquadrando nos países em desenvolvimento. Verdade ou blefe, o discurso serviu para destravar as discussões naquele dia.
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Apesar de tudo, ainda não acho que é o fim. Dificilmente um acordo sem adesão mundial irá funcionar, o que significa que cedo ou tarde os países vão ter que voltar para a prancheta e fazer algo melhor. Espera-se que até fim do próximo ano as más repercussões de Copenhague constranjam os países a assumir suas responsabilidades. Talvez em Bonn, no meio do ano que vem. Talvez no México, na COP 16. Além dessas datas, é desaconselhável esperar. Lembremo-nos que o mundo não espera.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Lição de casa
As geleiras estão derretendo, mas as negociações de Copenhague congelaram. Em compensação, as manifestações estão pegando fogo: ontem, ativistas tentaram adentrar na sala de discussões de forma a transformar a reunião da cúpula numa assembleia pública, com participação direta do povo. A polícia reprimiu os avanços dos manifestantes, que não conseguiram realizar seus objetivos. Apesar de a participação da sociedade ser de grande importância na tomada de decisões relevantes para o futuro do mundo, a confusão gerada pela invasão dos manifestantes aos quarenta e cinco do segundo tempo iria enredar ainda mais uma situação que já está mais enrolada que novelo de lã.
Para quem anda por fora do assunto, eu estou falando da COP 15, conferência que está em seu penúltimo dia e que tem como objetivo traçar metas para a política climática mundial, e que, por sinal, não está chegando a consenso algum. Antes do início desta, a Dinamarca (país sede da conferência), os EUA e a China já haviam assinalado que a cúpula serviria só para discutir o problema, e não para definir números de redução, o que já anularia o principal motivo de sua realização. Infelizmente, nem para traçar alguns pontos básicos ela está servindo: apesar de (ponto a favor) ter sido decidida a criação de um fundo internacional de ajuda a países pobres para que reduzam suas emissões de CO2, não ficou decidido quem irá contribuir (Brasil e China não querem, alegando que também são países pobres) nem quem irá receber seus benefícios (novamente, Brasil e China o querem pois alegam que são países pobres). Mas o que realmente entravou as negociações foi a polarização entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Os países pobres se eximem do compromisso de reduzir suas emissões, alegando que historicamente a culpa é dos ricos. Os países ricos se comprometem a reduzir suas emissões, mas cobram dos pobres que façam o mesmo.
É mais ou menos isso. E é assim que nos encaminhamos para o último dia de cúpula. Está claro pra mim que a Dinamarca tinha razão em não querer fazer um tratado formal ainda. Se feito agora, vai estar cheio de furos e questões mal resolvidas, e, na prática, irá servir só para os líderes mundiais mostrarem para o mundo que a reunião não foi um fracasso. Falando nos líderes, estes deixaram para aparecer só nestes últimos dias de cúpula, para dar uma olhada no texto final elaborado por diplomatas e dizer se concordam ou não. Alguns, como o Barack Obama, perigam nem aparecer.
Pensando agora, é meio idiota que o mundo tenha marcado uma data para assinar o tratado sem ter discutido antes sobre o assunto. Como é que ninguém nunca pensou que a situação fosse complexa demais para se resolver na hora? Há muitos problemas nesses dois últimos dias que terão de ser acertados literalmente em cima da hora. Esse tratado, em vez de uma solução, virou um problema. Virou uma lição de casa que os líderes mundiais deixaram para fazer na noite de domingo. Será feita às pressas, algumas questões ficarão em branco e várias incompletas. Será o suficiente para ganhar uma boa nota? Tudo indica que não. Vamos torcer para que a próxima reunião, ano que vem no México, possa servir como um trabalho de substituição.
Para quem anda por fora do assunto, eu estou falando da COP 15, conferência que está em seu penúltimo dia e que tem como objetivo traçar metas para a política climática mundial, e que, por sinal, não está chegando a consenso algum. Antes do início desta, a Dinamarca (país sede da conferência), os EUA e a China já haviam assinalado que a cúpula serviria só para discutir o problema, e não para definir números de redução, o que já anularia o principal motivo de sua realização. Infelizmente, nem para traçar alguns pontos básicos ela está servindo: apesar de (ponto a favor) ter sido decidida a criação de um fundo internacional de ajuda a países pobres para que reduzam suas emissões de CO2, não ficou decidido quem irá contribuir (Brasil e China não querem, alegando que também são países pobres) nem quem irá receber seus benefícios (novamente, Brasil e China o querem pois alegam que são países pobres). Mas o que realmente entravou as negociações foi a polarização entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Os países pobres se eximem do compromisso de reduzir suas emissões, alegando que historicamente a culpa é dos ricos. Os países ricos se comprometem a reduzir suas emissões, mas cobram dos pobres que façam o mesmo.
É mais ou menos isso. E é assim que nos encaminhamos para o último dia de cúpula. Está claro pra mim que a Dinamarca tinha razão em não querer fazer um tratado formal ainda. Se feito agora, vai estar cheio de furos e questões mal resolvidas, e, na prática, irá servir só para os líderes mundiais mostrarem para o mundo que a reunião não foi um fracasso. Falando nos líderes, estes deixaram para aparecer só nestes últimos dias de cúpula, para dar uma olhada no texto final elaborado por diplomatas e dizer se concordam ou não. Alguns, como o Barack Obama, perigam nem aparecer.
Pensando agora, é meio idiota que o mundo tenha marcado uma data para assinar o tratado sem ter discutido antes sobre o assunto. Como é que ninguém nunca pensou que a situação fosse complexa demais para se resolver na hora? Há muitos problemas nesses dois últimos dias que terão de ser acertados literalmente em cima da hora. Esse tratado, em vez de uma solução, virou um problema. Virou uma lição de casa que os líderes mundiais deixaram para fazer na noite de domingo. Será feita às pressas, algumas questões ficarão em branco e várias incompletas. Será o suficiente para ganhar uma boa nota? Tudo indica que não. Vamos torcer para que a próxima reunião, ano que vem no México, possa servir como um trabalho de substituição.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
O lado vencedor
Estávamos eu e meu amigo Lucas Costa fazendo o que fazemos de melhor: discutir. Desta vez sobre ideologias: ele tomando o lado do capitalismo, eu do comunismo. Apenas um debate saudável, nem eu nem ele somos radicais nas nossas posições, mas o negócio acabou evoluindo de forma acalorada. Para encerrar o debate, O Lucas disse uma frase que até hoje não desceu pela minha garganta: "bom, pelo menos o capitalismo funciona". Na hora não quis replicar, pois a discussão estava se encaminhando para o final e despejar meus argumentos naquela hora significaria começar toda a briga de novo. Mas eu tenho algumas palavrinhas para dizer sobre isso. Ah, e como tenho.
Primeiro, é comum inferir no erro de que o lado que vence é o certo. Afinal, por que outro motivo ele seria o vencedor? O fato de o capitalismo ter triunfado na Guerra Fria não é de modo algum uma garantia de que ele é funcional, significa apenas que o comunismo acabou caindo antes. E não vou entrar no mérito do comunismo aqui: não estou defendendo o seu lado, mas sim apontando as falhas do outro. Há uma diferença. Pois bem, com o fim da Guerra Fria começou a era da globalização e o mundo se tornou uno. Um planeta, sob jurisdição de um mesmo sistema econômico. Na teoria, o que deveria acontecer é que a livre circulação do capital não por um país, mas por um planeta inteiro, deveria trazer benefícios para todas as nações. Com as economias ligadas, o aumento no capital, digamos, nos EUA, para pegar como exemplo a nação mais forte, deveria repercutir nas economias de todos os países ligados em sua economia. Por quê, então, desde os anos 90 a diferença entre as nações mais ricas e as mais pobres aumentou ao invés de diminuir?
Agora, ao contrário, um crash na economia estadounidense repercute por todo o mundo, trazendo prejuízos em todas as nações por meio de uma teia de economias interdependentes em que os benefícios não são repassados, mas os prejuízos, em maior ou menor grau, afetam a todos.
O Papa João Paulo II, segundo Lech Walesa o grande responsável pela queda do Muro (vide post anterior), disse certa vez que o comunismo era uma árvore podre, ele só sacudiu-a para que caísse de vez. Um sistema com crises cíclicas de proporções mundiais também é, na minha concepção, uma árvore podre. Os pobres países da África, que após séculos de exploração como colônias viam agora um avanço substancial em suas economias, levaram uma rasteira com a última crise. Como é esperado que eles alcancem as nações mais desenvolvidas tendo que aguentar uma crise dessas a cada século? Onde está a justiça?
Agora, isso é pequeno, muito pequeno se comparado com o pior lado do capitalismo. Há uma faceta muito mais terrível. O capitalismo em sua forma atual não é só falho, ele é, a longo prazo, perigoso.
Lembrem-se que um conceito básico do capitalismo atual é que o lucro vem acompanhado do crescimento, e não há como aumentar o lucro sem desenvolver-se. Na hora em que o capital estanca, o negócio para de funcionar. É preciso que ele se multiplique, gerando o lucro e o crescimento consequente, e mais lucro, e mais crescimento, e mais lucro... ad infinitum. O problema é que vivemos num planeta com recursos limitados. Não há como crescer infinitamente com os recursos finitos da Terra. Não há como frear o crescimento, também, pois um mercado estanque significa a falência da empresas. Não há como crescer mais, e não há como parar. Estamos condenados a chegar a um limite, e estamos nos aproximando dele a passos largos. Assim que o cruzarmos, o caos: crise, desemprego, sem contar problemas ambientais gerados pela exploração agressiva dos recursos naturais, o que tornaria algumas regiões inabitáveis. O capitalismo não funciona. A bem da verdade, funciona tão mal que condenou a todos nós a um futuro totalmente incerto. Se não houver reformas profundas em nosso sistema nos próximos 50 anos, a nossa geração já irá acompanhar essa derrocada. Tem gente que tem medo de 2012. Não tenham: economia é uma coisa bem mais assustadora.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
O Gorba
Pobre Gorbachev. Cada vez que alguém lhe dá os parabéns por ter desmantelado a União Soviética, ele deve dar um sorriso e, por dentro, se segurar para não socar a pessoa. Ontem, no evento comemorativo dos 20 anos da queda do Muro, quando a chanceler alemã Angela Merkel agradeceu publicamente a ele por ter deixado os eventos finais da Guerra Fria acontecerem sem intervir, Gorba deve ter sorrido o seu milésimo sorriso irônico. Mais uma vez, estavam expondo em rede mundial a sua incompetência em reformar a URSS e em virar a guerra. Incompetência, sim. Se as reformas políticas propostas por ele tivessem saído conforme o plano, a URSS, em primeiro lugar, ainda existiria, e seria algo parecido com a China de hoje: uma república comunista, porém com um mercado aberto e crescimento econômico acelerado. O negócio deu tão errado que em um espaço de tempo curtíssimo já não existia nem mais uma URSS para ser salva.
Gorba virou heroi por ter falhado em sua missão. Analisando friamente, as pessoas na verdade lhe dão os parabéns por ter sido um governista incompetente. Até lhe deram um prêmio por isso. O Prêmio Nobel ganho por Gorbachev foi o maior prêmio joinha da história. Foi mais ou menos como, "ei cara, você fez a gente ganhar a guerra! Tá bom que pra isso você teve que perder, mas, uau, isso é muito legal! Valeu!", seguido por umas palmadas nas costas. Muito bem, Gorba. Muito bem.
Lech Walesa, antigo chefe do sindicato polonês Solidaridad, recentemente tirou o mérito da queda do Muro de Berlim de Gorba. Disse ele que o responsável pela queda foi o Papa João Paulo II, o próprio Walesa e em, certa medida, o resto do mundo, mas não Gorba. Agora nem reconhecem mais o mérito de ele não ter feito nada para salvar a Alemanha comunista. Coitado. Nem pela sua incompetência ele pode ser parabenizado.
Dito isso, quero que fique claro que, mesmo sendo responsável pela derrota da URSS, eu admiro o cara. É sério. Sou fã do Gorba. A missão dele era difícil. A Guerra Fria já se arrastava por décadas. A URSS, depois do atoleiro que foi o Afeganistão, já estava sem recursos. Ao perceber que suas reformas serviram para acelerar a queda do comunismo, ao invés de fortalecê-lo, Gorba não tentou lutar contra: admitiu a derrota. Na queda do Muro, ele poderia se meter e acabar com a festa geral, mas não o fez. É como um homem preso em alto mar: ele pode nadar, mas sabe que cedo ou tarde irá cansar e se afogar. Gorbachev soube na hora que era inútil continuar nadando. Não esperou se cansar. Afundou, sim, mas com honra. Afinal, já que é para ser assim, ao menos afundemo-nos nós mesmos.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
A chance
Hoje faz 20 anos que o muro caiu. Há exatos 20 anos atrás, a divisão ideológica que separava o mundo em dois foi literalmente botada abaixo para dar lugar ao pensamento único e à globalização. O mundo era enfim um só. 9 de novembro de 89 foi a data do reencontro de milhares de alemães separados durante décadas. As pessoas cantavam e se abraçavam, inclusive com desconhecidos. Não importava: eram todos irmãos, todos finalmente de uma mesma nação.
A queda do Muro talvez seja o meu momento favorito da história mundial, porque foi uma revolução pacífica. Até onde eu sei, ninguém morreu ao derrubar o Muro. A data foi uma festa, uma grande festa, uma celebração. No calor da hora, os alemães presentes não celebravam o fim da Guerra Fria, do comunismo. Para o mundo, esse era o significado geral. Para os alemães, a celebração era sobre o direito de poder derrubar aquela coisa horrível que ficava no meio da cidade, bloqueando a passagem para o outro lado. Finalmente, poderíamos ver o que havia do outro lado. Finalmente poderíamos conversar com as pessoas do lado oposto. Depois de se esperar décadas para isso, não havia tempo a perder: pessoas pegavam marretas e destruíam elas mesmas a barreira. Elas esperaram anos por isso e não queria esperar nem um segundo a mais. Foi um momento de ação. Foi um momento lindo.
***
Se a queda do muro é o meu momento preferido, a Guerra Fria é sem dúvida o meu assunto predileto em História. Eu não acho que é dada a importância merecida à Guerra Fria. Acho que as pessoas gostam mais da II Guerra porque foi uma guerra maniqueísta. Nunca o lado do mal foi tão fácil de ser identificado quanto nessa guerra. Hitler representava o algoz máximo, e os Aliados a equipe do bem que colocou as diferenças de lado para salvar o mundo. EUA e União Soviética que o digam. Mas o conceito da Guerra Fria é muito mais interessante: foi uma guerra de ideologias opostas, capitalismo versus comunismo. O mundo caminhava para ser um só, e, num cenário onde havia cada vez mais interdependência de países, o mundo estava num mesmo carro e precisava decidir se dobrava para a esquerda ou para a direita. Uma ideologia temia ser dominada pela outra. Nenhum deles representava o Mal: eram tão somente dois lados que falharam em coexistir. O medo fez com que se separassem, se isolassem, isolamento esse materializado no Muro de Berlim.
O tempo passou, até que esse isolamento se esfacelou, há exatos 20 anos atrás. Tudo foi muito rápido: cinco dias antes alemães orientais fizeram um megaprotesto pedindo por reformas. Foram boladas novas regras para visitação fora das barreiras orientais: agora poderia-se passar pela fronteira sem precisar de condições prévias além de um visto. O secretário do Comitê de Informação da Alemanha Oriental, Günter Schabowski, acabou falando em entrevista sobre a decisão antes de ser preparada a infraestrutura necessária para colocá-la em prática. O resultado: milhares de alemães se encaminharam para o Muro e não puderam ser contidos. Mandaram um dedo médio para a burocracia e resolveram que aquele seria o dia em que atravessariam o Muro, com ou sem visto.
***
Acabou a divisória, mas não o problema de que, afinal, havia duas ideologias regendo a mesma cidade. E é aí que poderíamos ter dado o passo fundamental para a construção de um novo mundo, sem polarização. Poderíamos ter trilhado um caminho do meio, poderíamos, frente a realidade de que agora não éramos mais separados um do outro, entrelaçar as ideias e procurar um jeito de nos entendermos. Não foi o que aconteceu. O capitalismo abocanhou vorazmente a parte oriental de Berlim. Velhos profissionais da Berlim comunista perderam suas funções e ficaram obsoletos. A conversão tão rápida a um novo sistema gerou desemprego e não melhorou a condição de vida para todos os berlinenses. Se antes eles não tinham a condição de crescer monetariamente e viviam com escassez de recursos, tampouco agora conseguem se adaptar à realidade de mercado voraz. Não há mais o antigo sentimento de camaradagem: agora é cada um por si, passando por cima do outro. Isso gera o sentimento da "ostalgia", que é o nome dado à saudade que alguns sentem de certos aspectos da antiga Berlim Oriental.
A Alemanha poderia ter pego os bons aspectos de ambos os lados, combinado as oportunidades de crescimento de uma economia capitalista com um pensamento comunista de companheirismo social, preocupando-se com o bem estar do todo. Não foi o que aconteceu, e agora temos uma Alemanha unida politicamente, mas até hoje dividida economicamente. A união das Alemanhas foi uma revolução, mas a possibilidade de uma revolução maior foi perdida. Mas, naquele 9 de novembro, o futuro não tinha a ver com ideologias: o futuro era o agora, era o reencontro, era a chance de ser, enfim, um só.
***
A fim de comemorar os 20 anos da queda do Muro, durante toda esta semana estarei postando crônicas relacionadas à Guerra Fria. Faço isso porque um marco histórico como esse traz a chance de debater sobre questões que ficaram para trás, mas, ao mesmo tempo, permanecem muito atuais. Até o próximo post!
A queda do Muro talvez seja o meu momento favorito da história mundial, porque foi uma revolução pacífica. Até onde eu sei, ninguém morreu ao derrubar o Muro. A data foi uma festa, uma grande festa, uma celebração. No calor da hora, os alemães presentes não celebravam o fim da Guerra Fria, do comunismo. Para o mundo, esse era o significado geral. Para os alemães, a celebração era sobre o direito de poder derrubar aquela coisa horrível que ficava no meio da cidade, bloqueando a passagem para o outro lado. Finalmente, poderíamos ver o que havia do outro lado. Finalmente poderíamos conversar com as pessoas do lado oposto. Depois de se esperar décadas para isso, não havia tempo a perder: pessoas pegavam marretas e destruíam elas mesmas a barreira. Elas esperaram anos por isso e não queria esperar nem um segundo a mais. Foi um momento de ação. Foi um momento lindo.
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Se a queda do muro é o meu momento preferido, a Guerra Fria é sem dúvida o meu assunto predileto em História. Eu não acho que é dada a importância merecida à Guerra Fria. Acho que as pessoas gostam mais da II Guerra porque foi uma guerra maniqueísta. Nunca o lado do mal foi tão fácil de ser identificado quanto nessa guerra. Hitler representava o algoz máximo, e os Aliados a equipe do bem que colocou as diferenças de lado para salvar o mundo. EUA e União Soviética que o digam. Mas o conceito da Guerra Fria é muito mais interessante: foi uma guerra de ideologias opostas, capitalismo versus comunismo. O mundo caminhava para ser um só, e, num cenário onde havia cada vez mais interdependência de países, o mundo estava num mesmo carro e precisava decidir se dobrava para a esquerda ou para a direita. Uma ideologia temia ser dominada pela outra. Nenhum deles representava o Mal: eram tão somente dois lados que falharam em coexistir. O medo fez com que se separassem, se isolassem, isolamento esse materializado no Muro de Berlim.
O tempo passou, até que esse isolamento se esfacelou, há exatos 20 anos atrás. Tudo foi muito rápido: cinco dias antes alemães orientais fizeram um megaprotesto pedindo por reformas. Foram boladas novas regras para visitação fora das barreiras orientais: agora poderia-se passar pela fronteira sem precisar de condições prévias além de um visto. O secretário do Comitê de Informação da Alemanha Oriental, Günter Schabowski, acabou falando em entrevista sobre a decisão antes de ser preparada a infraestrutura necessária para colocá-la em prática. O resultado: milhares de alemães se encaminharam para o Muro e não puderam ser contidos. Mandaram um dedo médio para a burocracia e resolveram que aquele seria o dia em que atravessariam o Muro, com ou sem visto.
***
Acabou a divisória, mas não o problema de que, afinal, havia duas ideologias regendo a mesma cidade. E é aí que poderíamos ter dado o passo fundamental para a construção de um novo mundo, sem polarização. Poderíamos ter trilhado um caminho do meio, poderíamos, frente a realidade de que agora não éramos mais separados um do outro, entrelaçar as ideias e procurar um jeito de nos entendermos. Não foi o que aconteceu. O capitalismo abocanhou vorazmente a parte oriental de Berlim. Velhos profissionais da Berlim comunista perderam suas funções e ficaram obsoletos. A conversão tão rápida a um novo sistema gerou desemprego e não melhorou a condição de vida para todos os berlinenses. Se antes eles não tinham a condição de crescer monetariamente e viviam com escassez de recursos, tampouco agora conseguem se adaptar à realidade de mercado voraz. Não há mais o antigo sentimento de camaradagem: agora é cada um por si, passando por cima do outro. Isso gera o sentimento da "ostalgia", que é o nome dado à saudade que alguns sentem de certos aspectos da antiga Berlim Oriental.
A Alemanha poderia ter pego os bons aspectos de ambos os lados, combinado as oportunidades de crescimento de uma economia capitalista com um pensamento comunista de companheirismo social, preocupando-se com o bem estar do todo. Não foi o que aconteceu, e agora temos uma Alemanha unida politicamente, mas até hoje dividida economicamente. A união das Alemanhas foi uma revolução, mas a possibilidade de uma revolução maior foi perdida. Mas, naquele 9 de novembro, o futuro não tinha a ver com ideologias: o futuro era o agora, era o reencontro, era a chance de ser, enfim, um só.
***
A fim de comemorar os 20 anos da queda do Muro, durante toda esta semana estarei postando crônicas relacionadas à Guerra Fria. Faço isso porque um marco histórico como esse traz a chance de debater sobre questões que ficaram para trás, mas, ao mesmo tempo, permanecem muito atuais. Até o próximo post!
terça-feira, 13 de outubro de 2009
A nossa governadora
Deve se admitir que a nossa governadora tem bom gosto. Aquele pufe da Tok&Stok comprado com dinheiro público é o máximo em conforto e design. Eu sei porque eu o vi uma vez em que fui à loja. Não resisti e experimentei. Muito confortável. Não dava vontade de levantar. Só não comprei porque era caro. Não ia gastar o meu dinheiro naquilo. A governadora não se sentiu tão acanhada: gastou o meu dinheiro e comprou o pufe pra ela.
Bom, o pufe não ia ficar tão bem na casa sem alguns móveis para combinar. Não que isso tenha sido um problema: a Excelentíssima tratou de comprar alguns armários e um sofá-cama para ajeitar a residência. Sabem como é, tudo pelo feng-shuy: não se pode deixar a casa mal-arrumada, bloqueia o fluxo de energias. E não se pode bloquear o fluxo de energias num lugar onde são tomadas decisões que afetam todo o estado. As consequências poderiam ser desastrosas. Viram só? As compras foram bens necessários para o exercício do mandato. Tudo se justifica no final.
E que maravilha de pessoa, a nossa governadora, que aproveitou a sessão de compras para mobiliar também o quarto dos netos! Ah, que mimo, a nossa governadora ama os netinhos. É claro, as crianças são o futuro. Tudo de melhor para elas. Elas merecem. E quais crianças são melhores para receber investimento de verba pública senão as da própria família da nossa governadora? Quem sabe, depois pode sobrar um pouco para as crianças carentes, também. Mas isso se vê depois de comprar os móveis. Tudo a seu tempo.
Como se vê, tudo na história das compras é justificado. Agora, quanto ao processo de improbidade administrativa eu não sei bem. A comissão do impeachment quer arquivar o processo. Ufa, que bom. Deve ser porque a nossa governadora é inocente. Que susto, toda aquela campanha do Fora Yeda, todos aqueles outdoors com a cara da nossa governadora e escrito ao lado que era a face da corrupção, fazia a gente até pensar que ela era culpada de alguma coisa mesmo. Ainda bem que ficou tudo esclarecido. Quer dizer, não sei, pra mim não ficou. Mas para a comissão ter tomado essa decisão, eles devem saber mais do que eu. Vai ver eu é que sou burro e não entendi.
Outra coisa que eu não entendi é por que quem decide o impeachment não é um órgão da Justiça. Pode ser viagem minha, mas se a nossa governadora está sendo acusada de um crime (da qual foi provada inocente, senão não estariam arquivando o processo), ela não teria que ser julgada por um tribunal como qualquer pessoa normal? Eu não consigo entender porque esse julgamento cabe aos políticos e não à Justiça. Acima disso, não consigo entender por que essa decisão cabe aos políticos aliados da nossa governadora. Para os meus olhos de leigo, parece improvável que ela seja declarada culpada por um tribunal formado por seus aliados. Devo ter perdido parte da explicação. Que chato, não entender de política. A gente tenta acompanhar, mas fica confuso. Ainda bem que tudo foi esclarecido, no final. A nossa governadora é inocente, foi tudo uma confusão! Uma confusão que eu não entendi, mas azar, agora já passou.
A única coisa que eu fiquei brabo é de que eu não pude ser consultado sobre as compras da governadora. Ora, o dinheiro é meu também, os móveis são propriedade do estado. Pelo menos deixa eu ajudar a escolher! Verde kiwi é legal, mas eu queria ter dado uma olhada nas outras cores de pufe que a loja oferecia. Bom, pelo menos a única coisa que estão me privando é de escolher a cor da mobília. De resto, o povo ainda tem o poder. Ainda bem.
Bom, o pufe não ia ficar tão bem na casa sem alguns móveis para combinar. Não que isso tenha sido um problema: a Excelentíssima tratou de comprar alguns armários e um sofá-cama para ajeitar a residência. Sabem como é, tudo pelo feng-shuy: não se pode deixar a casa mal-arrumada, bloqueia o fluxo de energias. E não se pode bloquear o fluxo de energias num lugar onde são tomadas decisões que afetam todo o estado. As consequências poderiam ser desastrosas. Viram só? As compras foram bens necessários para o exercício do mandato. Tudo se justifica no final.
E que maravilha de pessoa, a nossa governadora, que aproveitou a sessão de compras para mobiliar também o quarto dos netos! Ah, que mimo, a nossa governadora ama os netinhos. É claro, as crianças são o futuro. Tudo de melhor para elas. Elas merecem. E quais crianças são melhores para receber investimento de verba pública senão as da própria família da nossa governadora? Quem sabe, depois pode sobrar um pouco para as crianças carentes, também. Mas isso se vê depois de comprar os móveis. Tudo a seu tempo.
Como se vê, tudo na história das compras é justificado. Agora, quanto ao processo de improbidade administrativa eu não sei bem. A comissão do impeachment quer arquivar o processo. Ufa, que bom. Deve ser porque a nossa governadora é inocente. Que susto, toda aquela campanha do Fora Yeda, todos aqueles outdoors com a cara da nossa governadora e escrito ao lado que era a face da corrupção, fazia a gente até pensar que ela era culpada de alguma coisa mesmo. Ainda bem que ficou tudo esclarecido. Quer dizer, não sei, pra mim não ficou. Mas para a comissão ter tomado essa decisão, eles devem saber mais do que eu. Vai ver eu é que sou burro e não entendi.
Outra coisa que eu não entendi é por que quem decide o impeachment não é um órgão da Justiça. Pode ser viagem minha, mas se a nossa governadora está sendo acusada de um crime (da qual foi provada inocente, senão não estariam arquivando o processo), ela não teria que ser julgada por um tribunal como qualquer pessoa normal? Eu não consigo entender porque esse julgamento cabe aos políticos e não à Justiça. Acima disso, não consigo entender por que essa decisão cabe aos políticos aliados da nossa governadora. Para os meus olhos de leigo, parece improvável que ela seja declarada culpada por um tribunal formado por seus aliados. Devo ter perdido parte da explicação. Que chato, não entender de política. A gente tenta acompanhar, mas fica confuso. Ainda bem que tudo foi esclarecido, no final. A nossa governadora é inocente, foi tudo uma confusão! Uma confusão que eu não entendi, mas azar, agora já passou.
A única coisa que eu fiquei brabo é de que eu não pude ser consultado sobre as compras da governadora. Ora, o dinheiro é meu também, os móveis são propriedade do estado. Pelo menos deixa eu ajudar a escolher! Verde kiwi é legal, mas eu queria ter dado uma olhada nas outras cores de pufe que a loja oferecia. Bom, pelo menos a única coisa que estão me privando é de escolher a cor da mobília. De resto, o povo ainda tem o poder. Ainda bem.
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Cartão vermelho
Briga no Senado hoje. Mais uma. Eduardo "O Juiz" Suplicy contra Heráclito "el Fuerte". Tudo por causa do cartão vermelho que Suplicy mostrou a Sarney, ou mostraria, se esse estivesse presente na câmara. Heráclito desafiou Sarney a mostrar o cartão também a Lula, um golpe que provocou a ira do adversário. A reação do senador foi feia: gritos e vociferações e o famoso movimento de apontar o dedo com ódio, como se o dedo pudesse vencer a distância e cutucar com força o inimigo. Por mais entretenimento que essas brigas possam proporcionar, eu preferiria pagar o pay-per-view e ver a luta-livre, e os senadores poderiam trabalhar, pra variar um pouco. O evento de hoje reforçou um dos meus pensamentos, que agora, dadas as atuais circunstâncias, virou uma certeza: é preciso dar cartão vermelho para todos os senadores. Até o próprio Suplicy. A instituição Senado como um todo. Peço o unicameralismo no Brasil. Chega de Senado.
Pensem bem: é o momento perfeito. O Senado em crise, com metade dos senadores não trabalhando porque seu chefe é o Sarney, a outra metade apoiando o Sarney, ou seja, quem trabalha não presta. Esse racha está atrasando o funcionamento do Legislativo e, consequentemente, do Brasil. O Senado está atrasando o país. Que se pode fazer, minha gente? Fechar a Casa! Não há outras soluções a vista. O bicameralismo não deu certo. Foi feito com a melhor das intenções, mas não funciona. Como o comunismo soviético. Ora, se os caras que votam as leis do meu país são aquelas pessoas gritando como animais entre si, então eu não quero que eles tenham esse direito. O Brasil poderia funcionar bem somente com a Câmara dos Deputados. Pensem no que iríamos economizar em salários exorbitantes. Pensem no que iríamos economizar em dinheiro que poderia ser desviado! E tempo, sem todas as brigas para ocupar o espaço que deveria ser destinado a decidir sobre o futuro. O nosso futuro. Os ganhos são muitos.
É por isso que eu sou a favor de um plebiscito a respeito. Unicameralismo: sim ou não? Estão nos devendo um plebiscito, já que o Fogaça nos prometeu um sobre o Pontal e no final não foi bem isso o que houve. Somos, afinal, uma nação democrática, e eu tenho certeza de que a minha opinião é compartilhada por mais brasileiros, senão a maioria deles. Mas, é claro, para um plebiscito desses ser realizado, teria que passar pelos senadores. E os senadores não iriam dar um tiro no próprio pé. Como destruir este câncer, então? Não sei. Enquanto isso não se resolve, ficamos brincando de mostrar cartões vermelhos, fingindo que estamos expulsando alguém. Quando na verdade quem está sendo expulso de algo é nós, da escolha do nosso futuro. Final piegas, eu sei. Mas é isso aí. Agora é esperar o mandato do Sarney acabar, já que de outro jeito ele não sai de lá.
Pensem bem: é o momento perfeito. O Senado em crise, com metade dos senadores não trabalhando porque seu chefe é o Sarney, a outra metade apoiando o Sarney, ou seja, quem trabalha não presta. Esse racha está atrasando o funcionamento do Legislativo e, consequentemente, do Brasil. O Senado está atrasando o país. Que se pode fazer, minha gente? Fechar a Casa! Não há outras soluções a vista. O bicameralismo não deu certo. Foi feito com a melhor das intenções, mas não funciona. Como o comunismo soviético. Ora, se os caras que votam as leis do meu país são aquelas pessoas gritando como animais entre si, então eu não quero que eles tenham esse direito. O Brasil poderia funcionar bem somente com a Câmara dos Deputados. Pensem no que iríamos economizar em salários exorbitantes. Pensem no que iríamos economizar em dinheiro que poderia ser desviado! E tempo, sem todas as brigas para ocupar o espaço que deveria ser destinado a decidir sobre o futuro. O nosso futuro. Os ganhos são muitos.
É por isso que eu sou a favor de um plebiscito a respeito. Unicameralismo: sim ou não? Estão nos devendo um plebiscito, já que o Fogaça nos prometeu um sobre o Pontal e no final não foi bem isso o que houve. Somos, afinal, uma nação democrática, e eu tenho certeza de que a minha opinião é compartilhada por mais brasileiros, senão a maioria deles. Mas, é claro, para um plebiscito desses ser realizado, teria que passar pelos senadores. E os senadores não iriam dar um tiro no próprio pé. Como destruir este câncer, então? Não sei. Enquanto isso não se resolve, ficamos brincando de mostrar cartões vermelhos, fingindo que estamos expulsando alguém. Quando na verdade quem está sendo expulso de algo é nós, da escolha do nosso futuro. Final piegas, eu sei. Mas é isso aí. Agora é esperar o mandato do Sarney acabar, já que de outro jeito ele não sai de lá.
sábado, 1 de agosto de 2009
Aqui e lá
Vivemos um período pós-ditadura, mas mais uma vez a nossa imprensa sofre censura. Dessa vez, está envolvido o homem do momento, José Sarney. Ou melhor, o filho dele, Fernando, empresário e aprendiz de cara-de-pau. O filho do homem conseguiu, vejam só, proibir o jornal O Estado de São Paulo de publicar informações sobre a Operação Boi Barrica, que investiga crimes eleitorais. Sarneyzinho ficou ofendido com o fato de o jornal ter publicado as ligações telefônicas entre membros de sua família, que revelaram a contratação de parentes do presidente do Senado. Segundo ele, isso fere a honra (que honra?) da família, e agora o jornal terá que pagar multa de 150 mil reais para cada reportagem contendo informações sobre a operação. Os demais jornais e rádios estão proibidos de usar ou citar material do Estado de São Paulo.
E fica mais podre ainda: o desembargador que aprovou a censura é um velho amigo do clã Sarney e de Agaciel Maya, tendo sido inclusive convidado para o casamento da filha deste último.
O jornal está recorrendo da medida, mas até lá terá que ficar calado sobre o assunto. É isso mesmo, amigos, censura na imprensa em pleno século 21. Fernando Sarney alega que está tentando preservar a honra da família, mas ao meu ver o fato de estar pedindo para um jornal ser censurado é apenas mais um argumento para ser usado contra os Sarneys, e mais uma propaganda negativa para o seu pai. Má propapanga por má propaganda, melhor ter deixado como estava.
***
No outro hemisfério, Barack Obama deu um puxão de orelha na polícia de Cambridge, por ter prendido o professor Henry Louis Gates, quando este estava arrombando a própria casa. A polícia se sentiu ofendida e retrucou. Obama, no seu famoso tom conciliador, convidou o sargento James Crowley, o homem que prendeu Gates erronamente, mais o próprio Gates e o vice presidente Joe Biden para tomar uma cervejinha na Casa Branca, numa atitude que eu achei super legal. Interessantemente, algumas pessoas não acharam o mesmo: manifestantes abstêmios ficaram protestando do lado de fora da casa por haver álcool envolvido no encontro. Também houve criticas pelo fato do presidente americano ter tomado uma cerveja Bud Light, fabricada pela belgo-brasileira Imbev, e portanto não uma cerveja americana. Até a vizinha de Gates, pivô da confusão, já que foi ela que chamou a polícia quando viu o vizinho arrombando a própria porta, chiou por não ter sido convidada, no que o seu advogado classificou como preconceito sexual.
Ah, por favor!
A vontade era de dizer para esse pessoal algumas palavras que não transcreverei aqui, pois não quero baixar o nível. Era uma conversa com cerveja mesmo, qual o problema? A cerveja estava lá para assegurar o tom informal do encontro, justamente para mostrar que não se deve ser sério o tempo todo. Para mostrar que a situação não era nada que não pudesse ser resolvido numa conversa amigável. O negócio da cerveja não ser americana é patriotismo estúpido, do tipo que já deveria estar extinto. E a declaração de que Obama é sexista chega a ser quase risível, não fosse o fato de que tem gente que a leva a sério. Eu queria fazer um acordo com esse pessoal: vamos trocar o Obama com o Sarney, aí vocês aprendem o que são razões para reclamar.
E fica mais podre ainda: o desembargador que aprovou a censura é um velho amigo do clã Sarney e de Agaciel Maya, tendo sido inclusive convidado para o casamento da filha deste último.
O jornal está recorrendo da medida, mas até lá terá que ficar calado sobre o assunto. É isso mesmo, amigos, censura na imprensa em pleno século 21. Fernando Sarney alega que está tentando preservar a honra da família, mas ao meu ver o fato de estar pedindo para um jornal ser censurado é apenas mais um argumento para ser usado contra os Sarneys, e mais uma propaganda negativa para o seu pai. Má propapanga por má propaganda, melhor ter deixado como estava.
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No outro hemisfério, Barack Obama deu um puxão de orelha na polícia de Cambridge, por ter prendido o professor Henry Louis Gates, quando este estava arrombando a própria casa. A polícia se sentiu ofendida e retrucou. Obama, no seu famoso tom conciliador, convidou o sargento James Crowley, o homem que prendeu Gates erronamente, mais o próprio Gates e o vice presidente Joe Biden para tomar uma cervejinha na Casa Branca, numa atitude que eu achei super legal. Interessantemente, algumas pessoas não acharam o mesmo: manifestantes abstêmios ficaram protestando do lado de fora da casa por haver álcool envolvido no encontro. Também houve criticas pelo fato do presidente americano ter tomado uma cerveja Bud Light, fabricada pela belgo-brasileira Imbev, e portanto não uma cerveja americana. Até a vizinha de Gates, pivô da confusão, já que foi ela que chamou a polícia quando viu o vizinho arrombando a própria porta, chiou por não ter sido convidada, no que o seu advogado classificou como preconceito sexual.
Ah, por favor!
A vontade era de dizer para esse pessoal algumas palavras que não transcreverei aqui, pois não quero baixar o nível. Era uma conversa com cerveja mesmo, qual o problema? A cerveja estava lá para assegurar o tom informal do encontro, justamente para mostrar que não se deve ser sério o tempo todo. Para mostrar que a situação não era nada que não pudesse ser resolvido numa conversa amigável. O negócio da cerveja não ser americana é patriotismo estúpido, do tipo que já deveria estar extinto. E a declaração de que Obama é sexista chega a ser quase risível, não fosse o fato de que tem gente que a leva a sério. Eu queria fazer um acordo com esse pessoal: vamos trocar o Obama com o Sarney, aí vocês aprendem o que são razões para reclamar.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Maquiavélico
Há mais coisa por trás da atual crise do Senado do que os olhos desavisados conseguem ver. De um lado, temos uma oposição pressionando a saída de Sarney, cujos escândalos ficaram mais visíveis do que o seu bigode. De outro, Lula e a bancada do PT apoiando a permanência do maranhense. Um petista de, vá lá, vinte anos atrás, que via Lula criticar Sarney quando este é que estava na presidência, se fosse transportado para agora iria achar a situação, no mínimo, confusa. Como assim, Lula apoiando Sarney, mesmo depois de todos esses atos secretos, casos de nepotismo, desvios de dinheiro? Cada dia encontram uma coisa nova. O que talvez geraria uma outra pulga atrás da orelha desse nosso petista viajante do tempo, e me gera certamente, é o ótimo timing com que estão descobrindo essas informações.
Venha comigo. O Sarney é um crápula, corrupto, ladrão e o que mais de adjetivos pejorativos vocês pensarem. E o Lula sabe disso, mas precisa dele do mesmo jeito, afinal, o Sarney, na posição de presidente do Senado, é aliado do governo. Se ele bailar, sobe ao poder o vice presidente do Senado, Marconi Perillo, de oposição ao governo. Tudo o que a oposição precisava era um motivo para derrubar o Sarney e assumir a presidência do Senado, e agora estão descobrindo um por dia. E o timing é ótimo pois estamos chegando perto das eleições de 2010. Lula perderá, de uma vez só, o seu posto de presidente e a governabilidade no Senado. Além de se preocupar em eleger Dilma, vai ter que se preocupar com isso, também. O que fazer? A resposta, é claro, é vestir sua melhor cara de pau.
Ao defender a permanência de Sarney, Lula está sendo maquiavélico, no sentido original da palavra. Ou seja, fazendo o que está no seu alcance para garantir o poder, não importa se isso for eticamente certo ou errado. Afastar Sarney do cargo seria o eticamente certo. Porém, a governabilidade no Senado ficaria ameaçada e todo um plano traçado para a eleição de Dilma teria suas fundações ameaçadas. Lula provavelmente acha Sarney um canalha tanto quanto nós. Mais do que nós, até. Mas política é política, e às vezes é preciso jogar o jogo. Agora, que ele poderia falar menos ele poderia. O Sarney não deve ser julgado como um homem comum? É preciso levar em conta o passado? Ora, Presidente Lula, seja maquiavélico, mas não diga asneiras.
Recesso parlamentar: os senadores entram em férias. E nós, tiramos férias deles.
Venha comigo. O Sarney é um crápula, corrupto, ladrão e o que mais de adjetivos pejorativos vocês pensarem. E o Lula sabe disso, mas precisa dele do mesmo jeito, afinal, o Sarney, na posição de presidente do Senado, é aliado do governo. Se ele bailar, sobe ao poder o vice presidente do Senado, Marconi Perillo, de oposição ao governo. Tudo o que a oposição precisava era um motivo para derrubar o Sarney e assumir a presidência do Senado, e agora estão descobrindo um por dia. E o timing é ótimo pois estamos chegando perto das eleições de 2010. Lula perderá, de uma vez só, o seu posto de presidente e a governabilidade no Senado. Além de se preocupar em eleger Dilma, vai ter que se preocupar com isso, também. O que fazer? A resposta, é claro, é vestir sua melhor cara de pau.
Ao defender a permanência de Sarney, Lula está sendo maquiavélico, no sentido original da palavra. Ou seja, fazendo o que está no seu alcance para garantir o poder, não importa se isso for eticamente certo ou errado. Afastar Sarney do cargo seria o eticamente certo. Porém, a governabilidade no Senado ficaria ameaçada e todo um plano traçado para a eleição de Dilma teria suas fundações ameaçadas. Lula provavelmente acha Sarney um canalha tanto quanto nós. Mais do que nós, até. Mas política é política, e às vezes é preciso jogar o jogo. Agora, que ele poderia falar menos ele poderia. O Sarney não deve ser julgado como um homem comum? É preciso levar em conta o passado? Ora, Presidente Lula, seja maquiavélico, mas não diga asneiras.
Recesso parlamentar: os senadores entram em férias. E nós, tiramos férias deles.
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