quarta-feira, 28 de abril de 2010

Noites do Beco

- Tá vendo aquela pessoa?

- Qual?

- Atrás daquele cara.

- Sim, estou vendo ele... ela.

- É ele ou ela?

- É... não sei. Caramba! Não sei mesmo. Que pessoa esquisita.

- Parece um homem. Acho que é um homem.

- Com esse cabelo? Com essas roupas? Não pode ser.

- Se bem que pode ser mulher. Mas... poxa. Nunca vi mulher assim.

- Nem eu.

- Olha lá. Tá beijando um cara.

- Então é mulher.

- É.


Minutos depois.


- Olha lá.

- O quê?

- Ali. O cara-barra-mina.

- Aonde?

- Beijando aquela mulher.

- Vi.


Ele leva a cerveja até a boca, dá um gole tranquilo, depois se dá conta.


- Caramba!

- Não precisava cuspir em mim.

- Desculpe. E agora? Será que é homem?

- Sei lá. Não tem sinal de barba.

- O corpo... é reto. Não parece de mulher.

- Mas sei lá, né? Pode ser uma dessas mulheres sem peito, bunda...

- ...Sem graça. Pode ser.

- Mas olha o pé. Pé 42. É homem, com certeza.

- Tá. É homem.

- É.


Mais tempo depois.


- Olha ali o nosso cara-barra-mina. Tá ficando com outra pessoa.

- Outra? Oba, mais pistas. É homem ou mulher?

- É homem. Não, peraí, é mulher.

- Aquela ali? Só se for a mulher mais feia da Terra. É homem.

- Não, é mulher! Tô te dizendo.

- Você mesmo disse que era homem.

- Olhando de um ângulo, mas se você olha desse...

- De qual?

- Desse. Vem pra cá. Daí parece mulher.

- Mais ou menos. Não dá pra ter certeza.

- Quer saber? Dane-se.

- Por quê?

- Olha bem pra elas. Ou eles, sei lá. Não tem como a gente saber o que são porque nem eles devem
saber.

- Pior. Mas sabe de uma coisa? Eles parecem bem felizes assim. Um brinde a eles.

- A elas.

- Que seja.

***

- Tá ouvindo isso?

- O quê?

- É "Kids". De novo. Botaram pra tocar de novo essa bosta. Não aguento mais essa música.

- Pois é.

- Eles sempre botam as mesmas merdas. Ou é isso ou é "D.A.N.C.E.". Mas o pior é esse tecladinho.
Não aguento mais esse tecladinho.

- Cara...

- A música inteira é esse tecladinho. Que troço enjoado. No início era legal, agora não dá mais. Ninguém aguenta.

- Você sabe que não é com a música que você está brabo...

- É sim. Eu e todo mundo. Eu sei que essas pessoas estão dançando, mas no fundo elas estão sofrendo. Elas odeiam a música tanto quanto eu. Elas fingem gostar porque essa merda é cool. Isso me dá nos nervos. Dancem! Dancem e sofram !

- Não é assim.

- É sim.

- Não é. E fica sereno.

- Eu estou sereno. Sereníssimo. É só essa música. Não aguento mais essa música.

- Não é a música. É a Sofia, e você sabe disso.

- Não sei do que você está falando.

- Não te faz. Deixa ela pra lá, cara, não adianta ficar bolado com isso.

- Eu não estou. Sério. Não estou mesmo. Estava me divertindo à beça, só que essa música estragou tudo. É a epítome da falta de criatividade. É uma afronta aos bons ouvidos. A música está me afrontando.

- Eu sabia que a gente não devia ter vindo aqui. Eu esqueci que foi aqui que vocês se conheceram. Devíamos ter ido pra outro lugar.

- Não, não. Aqui tá ótimo. E, se ela estiver aqui hoje, tanto faz.

- É por isso que você quis vir pra cá? Porque acha que ela pode estar aqui?

- Eu? Não! Capaz, nem me passou pela cabeça. Mas se você ver ela, me avisa.

- Ela não vai voltar pra ti.

- A única coisa mais irritante que o teclado é essa voz sintetizada.

- Me escuta...

- Eu vou lá pedir pra trocarem de música. Não quero nem saber.

- Cara, ela não vai voltar...

- É isso. Eu vou ir lá pedir e já volto. Me espera aí.

- Cara...


O outro se vira, mas ele o agarra pelo braço.


- Cara, ela não vai voltar!


O outro o encara nos olhos, com raiva. Então começa a chorar. Abraça-se no amigo como uma criança na mãe.

- Eu amava ela, cara! Amava ela!

- Eu sei, eu sei...

- E sabe o que é pior? Ela que me deu o fora. Disse que acabou e acabou. Mas eu não estava pronto,
entende? Eu não estou pronto!

- Entendo, entendo...

- Por que elas acham que podem pôr um ponto final assim, no mais? E nós, cara? E nós, como ficamos?

- Ela é uma vaca. Não fica mais correndo atrás dela.

- Tá, mas eu tô sofrendo, cara, eu tô sofrendo.

- Calma, calma. Ó, até mudaram a música.

- É?

- Isso. Agora tá tocando "D.A.N.C.E."


E o outro volta a chorar.

***

- Legal, aqui. Nunca tinha vindo ao Cabaret, antes.

- Aqui é o Porão.

- Não, é o Cabaret. Olha lá o pooldance.

- O quê?

- Pooldance. O poste, lá. O mastro de cabaré.

- Ah. O pau-de-puta.

- Isso. Viu? Aqui é o Cabaret.

- O pau-de-puta só tem no Porão. Aqui é o Porão.

- Como assim? Pooldance não é coisa de cabaré?

- É, sim, mas Cabaret é o outro. É na mesma rua, mas é outro.

- Quantos Becos têm, afinal?

- Bom, tem esse, o Cabaret e o novo que abriu, o Diskoclub.

- Qual é esse?

- É aquele pequeno, escuro e apertado, com gente velha e música que ninguém conhece, e um andar
com pista de dança no subsolo.

- No subsolo? Você quer dizer num porão?

- É.

- Então aquele é o Porão?

- Não! Aqui é o Porão!

 - Aqui não era o Cabaret?

- Não!

- Ah é, tá certo. Então deixa eu ver se eu entendi...

- Tá.

- O Cabaret não tem mastro de cabaré...

- Não, não tem.

- E o que tem o mastro não é o Cabaret, mas o Porão...

- Sim.

- E o que tem o porão é o Diskoclub. É isso?

- É isso. Entendeu agora?

- Não.

- Nem eu. Vamos beber?

- Vamos.

***

- Oi, com licença.

- Oi.

- Olha só. Desde que você chegou, não consegui tirar os olhos de você. Nunca uma pessoa me cativou assim antes. É sério, não é papo furado. Foi uma coisa assim, pá-pum, entendeu? Eu te vi, no meio das outras, e vi que você era diferente. Vi que você era especial. Sabia que precisava falar contigo. Eu disse pra mim mesmo: "cara, eu não posso sair dessa festa sem antes falar com essa mina. Ela é especial. Eu não vou sair daqui sem beijá-la". E é isso. Sem frescura, resolvi ser direto. Não posso perder essa oportunidade, deixar você sair daqui, sair da minha vida, e talvez nunca mais vê-la, sem fazer nada. Não posso.


A menina ouve tudo sorrindo, pega na mão do menino e diz:


- Ah, sinto muito, mas eu estou namorando...

- Ah.

- É uma pena, eu sei como você está se sentindo, mas... não posso, entende?

- Sei.

- Não depende de mim. Mas não fica mal, tá cheio de gente especial por aí...

- Certo, certo...


A menina se despede e vai embora. O menino vira para outra e diz:


- Oi.

- Oi!

- Olha só. Desde que você chegou, não consegui tirar os olhos de você.

- É?

- Sério. Nunca uma pessoa me cativou assim antes. Eu te vi e foi, assim, pá-pum, sabe? Te vi, assim, no meio das outras, e foi aí que...

***

- Cara, afinal, o que houve?

- Não deu certo, cara. Não deu certo.

- O plano era bem simples: eu ficava com a gorda e você ficava com a outra. Não tinha erro. Ela
estava na sua!

- Eu tentei. Também pensei a mesma coisa. Mas aí...

- Aí o quê?

- Ela veio com o papo do ex-namorado.

- Ah! O papo do ex-namorado...

- Isso. Disse que tinha se separado ontem, e que não estava pronta pra recomeçar essa coisa de ficar
com outros, blablablá blablablá...

- Não cai nessa! Ela tá se fazendo!

- E o que você quer que eu faça? Que eu continue insistindo? Eu não vou ficar mendigando esmola.

- Deixa de ser orgulhoso, mulher não funciona assim. Você tem que mudar de postura. Ela tá na sua, eu vi que ela tá afim...

- Quer saber? Só estamos tentando alguma coisa aqui porque você sentiu que ela estava afim de mim. Você que disse que ela estava olhando pra mim e me empurrou pra falar com ela. Estamos aqui nos ferrando por causa de uma impressão sua. Você se ferrando mais do que eu, já que ficou com a gorda.

- Eu fiquei com a amiga gorda só pra te ajudar, e você me desperdiça a chance...

- Eu tentei te salvar. Fiz sinais frenéticos de "abortar plano!", "abortar plano!", mas você grudou a
menina na parede e nem me viu.

- O que vamos fazer agora? Decide rápido, elas podem voltar do banheiro a qualquer momento!

- Mulher tem dessas, né? Vão juntas no banheiro pra fofocar sobre nós, os homens. "Aquele cara
queria ficar comigo! Sabe o que eu fiz? Usei a tática do ex-namorado! Hohoho, ele caiu feito um patinho!"

- A mina ri que nem o Papai Noel?

- Quê? Não, eu... esquece! Temos que pensar no que fazer!

- Já sei. Vamos embora.

- Como assim? E deixar elas aqui?

- É! Porque não?

- Ir embora sem avisar?

- É.

- Deixar elas pra trás, confusas e se sentindo um lixo, rejeitadas e enganadas?

- Sim. Pilha?

- Pilho certo. Vamos aproveitar que elas estão demorando.

- Muito afudê isso, né? Mostrar quem é que manda.

- Isso aí. A mina acha que eu estou me arrastando pra ela. Agora, vai ver que eu não tô nem aí.

- É.

- Mas diz aí. Você estava gostando de ficar com a gordinha, né?

- Eu? De jeito maneira. Fiz tudo por amizade.

- Vamos lá. Confessa.

- Tá. Um pouco. Ela tem um rosto bonito.

- Aham. Sabia. Você estava curtindo.

- Além disso, ela beija bem. Uma coisa legal dessas mulheres que ninguém pega é que elas sabem dar
valor com quem tem coragem de ficar com elas. Elas fazem o cara se sentir no topo do mundo.

- É muito fogo guardado.

- Como elas estão demorando...

- Quer saber? Fica aí, curtindo ela. Eu vou embora sozinho.

- Quê? Não, cara, não é pra tanto, vamos nós dois juntos.

- Não, fica. Você tem mais é que aproveitar. Só não pede pra eu ficar e ter que suportar a arrogância
da outra...

- Mas se bem que eu pensei...

- O quê?

- Das duas uma: ou ela pode ficar arrasada porque você foi embora...

- Ou...

- Ou ela pode achar que você ficou com medo. Ou com vergonha do fora que levou.

- Ih...

- Aí ela vai se sentir melhor ainda. Mais poderosa. Mulher adora isso.

- Ah, não. Não vou dar essa satisfação.

- Vamos ficar, então?

- Não sei. Vamos dar mais um tempo, amadurecer a ideia.

- Certo, então. Mas que loucura, elas ainda estão no banheiro.

- Estão. Que vontade de fofocar, essa.


5 minutos depois:


 - Ainda não vieram? Já estou sentindo falta da minha gordinha.

- Será que era verdade? O negócio do ex-namorado, eu digo. Será que ela está se sentindo mal, por querer ficar comigo mas não estar preparada? Isso explica a demora. Deve estar conversando com a amiga.

- Talvez. Eu disse que ela estava afim de você. Eu nunca me engano nessas coisas.

- Pois é. Vou tentar insistir de novo com ela quando voltar. Dizer que está tudo bem, que ela tem
que se abrir de novo para as coisas boas da vida, etcetera.

- Boa, boa. Mas se não der, a gente vaza.

- Sim, sim. E deixamos elas no chão.


Mais 5 minutos:


- Quem sabe a gente não dá uma volta? Vê se elas não estão por aí?

- Pode ser. Vamos nos separar para procurá-las?

- Sim. Nos encontramos aqui daqui a pouco.


Outros 5 minutos:


- Cara, elas foram embora.

- Não pode ser.

- Procurei por tudo. Pedi para uma menina checar no banheiro. Elas não estão em lugar nenhum.

- Elas nos deixaram. Não acredito

- Não acredito eu! Eu perdi a Ana Denise pra sempre!

- Quem? A gordinha?

- Não chama ela assim! Ela era perfeita pra mim, meu Deus, e agora ela foi embora!

- Do que você está falando, cara?

- Ela era a mulher da minha vida. E não era gordinha, nada. Era linda.

- Era gordinha.

- Tá, era gordinha. Mas linda de qualquer maneira.

- E eu, cara? Que perdi a Isabel?

- Quem?

- A amiga da gord... da Ana Denise. Podia ter insistido mais. Mas não. Desisti. Foi um teste. Ela estava afim de mim. Ela queria ver se eu estava também, se eu estava disposto a lutar por ela. Não lutei. Desisti com todas as armas na mão. Fui eu, no final, que fiquei me fazendo. Sou um merda.

- Que tipo de pessoa faria tal coisa? Que tipo de monstro nos abandonaria aqui, despedaçando nossos corações?

- O pior tipo, caro amigo. O pior tipo.

***

Ela ergue a manga e mostra as marcas de cigarro.

- Quem fez isso?

- Eu mesma.

E toma um gole da cerveja, que já está quente. Não está nem aí. Aliás, ela parece nunca ter estado aí para nada.

Acende um cigarro. Por um momento o rapaz fica tenso, pensando que ela vai apagá-lo em si mesma, mas não. Dá uma baforada, olha para as pessoas na pista de dança. Volta a face lentamente para o rapaz e continua falando:

- É para eu me lembrar de que estou viva. Às vezes é necessário pra saber que não morri. Foi parecido quando eu fiz isso - Ela mostra uma cicatriz em forma de coração em um dos braços - Lembro que eu achei que ia doer. Até que não doeu. Foi na época da Ciça.

- Ciça?

- É. Uma namorada. Uma trapezista anã, a Ciça. Fugi de casa pra seguir o circo dela, aos dezesseis. Fiz o coração como prova de amor. Pra mostrar que é algo que dói, mas que eu estava disposta a vivê-lo. Aquela vaca. Me trocou pelo mágico croata. Eu vi que ela olhava para ele de um jeito especial durante as orgias que fizemos juntos, mas não achei que ia acabar assim.

- Ah.

- Mas ela teve o que mereceu. Pedi para o Dudu dar um jeito nela.

- O Dudu é...

- O meu amigo bruxo.

- Ah.

- Invadi o quarto dela numa noite e arranquei um tanto de seu cabelo. Saí sem acordá-la. Provavelmente ela estava de porre, como sempre. Ah, Ciça. Depois dei o tufo para o Dudu, que fez um vodu. Poderosíssimo. Ela não morreu, a Ciça, mas perdeu o emprego, o amante e agora é entregadora de flyers nas sinaleiras. Foi um ritual macabro, o do Dudu. Eu participei. Tive que dar o meu sangue, para ficar mais efetivo. Foi a origem disso aqui - e mostra um corte no pulso.

Ela pontua a frase com uma baforada. Então pergunta:

- Você disse que ia me contar algo louco que fez hoje. O que era?

O rapaz cruza os braços, de forma a esconder a pequena tatuagem de "Coragem" em ideograma japonês que fizera à tarde.

- Não. Disse? Impressão sua.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Romântico


     Olhe aqueles dois, ali, tão felizes, tão enamorados. Ele, com um violão de aço; ela, com um de nylon, provavelmente para não machucar os dedos. Entre os dois, apenas uma pasta de cifras. Entre os dois, um universo de músicas e acordes esperando para serem tocados, entre risos, flertes e beijos. O homem mostra, aqui, isso é um Dó, é assim, e faz a posição no braço do violão. Como, assim? A menina faz a posição invertida. Não, é assim, e ele mexe nos dedos dela, reposiciona-os, de forma a ficarem nas casas certas. Ah, ela diz, e ri, e ele também ri.

     Que lugar perfeito para um encontro assim, uma praça, um banco, quatro da tarde. Sol de leve, batendo nas pernas, brisa mansa. Dois violões e uma pasta de cifras. E a música. A música une as pessoas. A música apaixona e faz apaixonar. Estou vendo a menina pedindo para aprender uma em específico, que ela adora. E ele aceita, é claro. Óbvio que ele aceita. Poderia ser a música mais difícil do mundo, mas ele nunca iria recusar um pedido da amada. Estão enamorados, é óbvio. Ele mostra, ó, começa assim. E ela tenta fazer a posição, mas não consegue, ai, é difícil. Ele ensina, ó, tem um outro jeito de fazer, vê se assim é mais fácil. Sempre há um jeito mais fácil de fazer. A música é universal e tem tantas possibilidades quanto o amor. A combinação de acordes é tão infinita quanto a combinação de pessoas, mas algumas, ah, algumas dão mais certo. Algumas são mais bonitas. Algumas casam perfeitamente, como se Deus tivesse feito um acorde, ou uma pessoa, já pensando em acompanhar o outro. Ela tenta fazer o outro acorde. Exige uma pestana. Vamos mudar de música, ele conclui, e ela concorda, e ri, e lhe dá um beijinho.


     Quisera Vênus fazer o amor tão fácil de trocar como uma música. Não é assim. Amor é o que fica, é, sei lá, um aparelho de som sem a opção de trocar faixas. É um vinil! Sim, é um vinil. O amor não muda quando você quer. É preciso terminar a faixa, para então vir a próxima. Os amores da nossa vida são uma sucessão de faixas até encontrarmos aquela em que ligamos o repeat e deixamos até o fim, só curtindo a amplitude de suas ondas sonoras, dissecando cada instrumento. E o lado B é... bom, eu não tenho uma metáfora para o lado B. Mas voltemos àqueles dois. Ele mostra outra música para ela. Essa é mais fácil, e toca os acordes, e ela balança a cabeça, acompanhando o ritmo. Então faz o primeiro acorde, e toca junto dele, e tenta pegar o ritmo, mas não consegue. E tenta mais, e de novo, e ele diminui o ritmo para ficar mais fácil. Tem que soltar o pulso, ele diz, e ela sabe, mas é difícil. Tem que entrar no ritmo. Em uma relação, tem que se soltar o pulso. Quando os dois não estão na mesma levada, as notas soam fora de tempo. Quem está certo? Ninguém, é apenas a mesma música em dois tempos diferentes. É preciso que um ceda, entre no tempo do outro, ou ainda que ambos cedam, e juntos criem um tempo intermediário, um novo tempo, um tempo em comum. Olha aí, eles conseguiram. A menina acompanha o menino quase na mesma levada. Mais um pouco e ela chegará à perfeição. Confiança demanda treino. Deixar-se levar pelo outro não é sinal de fraqueza, mas de confiança. Ela entrou no ritmo dele, e ele diz, isso aí, e os dois tocam em harmonia. Estão juntos nessa, ela confiando nele, e ele levando-a, ao som da mesma música, na mesma sintonia, num mundo particular em que não entra nenhum intruso. Ninguém vai...
     - Aí, rapá!
     - Oi?
     - Tá olhando a minha mina?
     - Eu?
     - Tá olhando a minha mina, mané?
     - Não, é que...
     - Sai fora senão eu te arrebento!
     Não dá mais pra ser romântico.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Anedotas

     Ninguém sabe como surgem nem para onde vão. Como os buracos negros, só que com graça. Mas é certo que a origem das anedotas é um mistério. Você certamente não conhece ninguém que criou uma. Você a ouviu de um amigo, que a ouviu de outro amigo, que a ouviu de quem mesmo? Não sabe. Leu em algum lugar. Piadas são de domínio popular. Nunca saberemos quem foi o gênio por trás da anedota do cachorro Nabunda. Possivelmente já morreu, e no anonimato. Enquanto isso, continuam reproduzindo a sua anedota em livrinhos de piada, que seriam bem menos rentáveis se tivessem que pagar direitos autorais pelas piadinhas.

     E o que aconteceria se as anedotas tivessem dono? Se elas fossem registradas como propriedade intelectual do criador, as revistinhas de humor estariam em uma fria. Seriam forçadas a produzir material próprio, contratar uma redação que teria como única finalidade ficar trancada numa sala pensando em anedotas novas. Não é fácil bolar um anedotário novo todo mês. A seção de brainstorm, perto do fechamento da edição, seria uma zona tensa:

     - Rápido, mais piadas! Precisamos encher mais quatro páginas!
     - Tá! Deixa eu pensar. O Joãozinho vai na escola e...
     - Não, chega de Joãozinho na escola. Já temos três só nessa edição.
     - Tá! Então o Joãozinho...
     - Sim...
     - ....E um rabino gago...
     - Sim...
     - ...Em um avião. Já tem?
     O primeiro confere numa tabela, onde as anedotas estão classificadas por categorias como "personagens", "ambientação" e "teor ofensivo".
     - Joãozinho... Rabinho gago... Avião... Já tem.
     - Argh!

     Falando em Joãozinho, nunca paramos pra pensar que a sua vida não é assim tão engraçada. É até trágica. Sua inadequação na escola deve ter sido a causa indireta do suicídio de ao menos quatro professoras. Seu pai é ausente, não se ouve falar dele nunca. Sua mãe morreu de morte súbita. Comete erros crassos na escola. Joãozinho acha que "hospedar" são os pedais da bicicleta. É a prova de que a educação brasileira é uma instituição falida.

     E o Manuel? Costumamos chamar os portugueses de burros, mas nunca pensamos que as anedotas de portugueses giram apenas em torno do Manuel, de seu amigo Joaquim e da Maria. Que, a bem da verdade, não são bons exemplos do brilhantismo humano. Então, a nossa noção da inteligência lusitana é baseada tão somente em três pessoas. É um certo preconceito, isso. Vai ver o resto dos portugueses não é assim. Se bem que dizem que o banco 24 horas de Lisboa só abre à meia-noite. E que o trem elétrico não funcionou porque depois dos primeiros cem metros ele saía da tomada. Então talvez seja um preconceito válido.

     E os pontinhos, pelo amor de Deus! O que raios são os pontinhos? E não, isso não é uma das charadas. Os pontinhos estão por toda a parte. Estão no Corcovado, na Antártida, no céu, no chão, no topo de um arranha-céu (o fandangos suicida), como uma verdadeira praga. Antigamente, essas anedotas de pontinhos davam mais que pereba em guri.

     - Você ouviu a do pontinho que...
     - Não! Chega!!!

     Hoje, não se ouve falar mais delas. Um caso de controle de pragas bem sucedido.

     E, claro, temos o Bar. O cenário padrão das anedotas. Muito especula-se sobre a exata localização geográfica do Bar. A melhor hipótese, devido ao fato de que no Bar encontram-se argentinos, gaúchos, americanos, japoneses, turcos, paulistas, mineiros e, é claro, portugueses, é que ele fique num aeroporto internacional. O Bar tem uma clientela variada. Travestis discutem com bêbados, ou travestis bêbados discutem com advogados, ou loiras, ou rabinos gagos. Todo mundo se sacaneia no Bar. Uma vez um cara apostou 500 reais que mijaria em todo o Bar, até no balconista, e este ainda sairia rindo. Até hoje esse causo é repercutido por lá. Milagres já aconteceram no Bar. Um homem recusou-se a derrubar cachaça para o santo, fez uma figa e seu braço endureceu no mesmo instante. Um velhinho viu a cena e repetiu o ato, só que baixando as calças ao invés de fazer figa. Depois puxou uma arma e ameaçou de morte quem tentasse desfazer a maldição. O povo do Bar é assim mesmo. Uma piada.

***

     Contradizendo a tradição do anonimato dos anedotistas, bolei uma anedota. Ela não é muito boa, mas vale pelo registro histórico. É a primeira anedota com registro de propriedade intelectual. Está no meu blog, e não pode ser reproduzida sem os devidos créditos blablablá. Quem o fizer será severamente punido pela lei brasileira. Isso foi uma piada, a lei brasileira não pune severamente. Eu estou impossível hoje. Pois bem, vamos a ela:

     Num Bar estão dois homens. Um deles puxa assunto com o outro:

     - Não aguento mais o meu trabalho. É deprimente. Todo o dia eu tenho que conviver com a decadência e a perda de dignidade. Eu vejo a situação e tento me enganar que vai melhorar, mas não vai. Só piora a cada dia. À noite eu chego em casa e penso se vale a pena voltar para lá no próximo dia.

     - Em que você trabalha? - pergunta o outro?

     - Num asilo. Médico gerontologista.

     - Pois comigo é a mesma coisa. Meu trabalho me deprime. Todo o dia eu vou lá, tentando me convencer de que a situação tem jeito, que pode ser melhorada, mas não tem. Não há melhora. Antes eu acreditava em milagres, que as piores situações tinham reparo. Não nesse caso. A única opção é piorar. À noite eu chego em casa e fico conversando com a minha mulher, até que a angústia passe.

     - Trabalha no quê? - pergunta o médico gerontologista.

     - Enfermeiro. Da área terminal.

     O outro concorda, cabisbaixo. Daí chega um terceiro cara, que estava ouvindo a conversa, e diz:

     - Eu vivo a mesma situação. Meu trabalho é uma merda. Há anos que eu penso que pode melhorar, que a situação vai evoluir positivamente, mas percebi que era pura inocência. Perda de dignidade? Nunca houve dignidade, pra começar. A coisa é tão ruim assim. Não há esperança de melhora. Tenho que viver envolto com a decadência e a putrefação humana. Antes eu acreditava em milagres. Perdi a fé. À noite eu chego em casa e choro por horas.

     Os outros, impressionados, perguntam o que o terceiro cara faz.

     - Jornalista. Política nacional.

     O que é um pontinho bem sério sentado numa cadeira? É você, não rindo dessa anedota.

sábado, 27 de março de 2010

Ronaldo e os vizinhos

     - Credo, Ronaldo! Põe a mão na frente da boca quando você boceja!
     - Por quê?
     - Ora, "por quê"... porque sim! Porque é o que se faz quando se boceja.
     - Não entendo vocês...
     E não era só isso o que o Ronaldo fazia de estranho. Comia massa sem enrolá-la com o garfo: usava a faca como uma alavanca, levantava a parte anterior da massa e jogava a parte posterior para dentro da boca com o garfo.
     - Credo, Ronaldo. Porque você não enrola a massa com o garfo? Bem mais fácil.
     - Como?
     - Assim, ó.
     - Ah...     
     Uma vez, um amigo mostrou uma máquina fotográfica para o Ronaldo. Analógica, daquelas de filme. Enquanto explicava as vantagens de uma máquina de filme sobre uma digital, Ronaldo manipulava-a curioso. Por fim, abriu o compartimento do filme.
     - Tá louco, cara? Fecha isso!
     - Por quê?
     - Como "por quê"? Porque senão entra luz e estraga as fotos!
     - Ah. Não sabia.
     - Como não? Todo mundo sabe disso! Você deve ser a única pessoa do mundo que não sabe! Caramba, cara, tinha umas fotos boas aí...
     Ronaldo devolveu a câmera e pediu desculpas, com um sorriso. O seu sorriso era uma coisa perturbadora. De vez em quando, esse amigo pegava o Ronaldo olhando pra ele. Quando seus olhares se encontravam, Ronaldo, ao invés de desviar os olhos, dava aquele sorriso. O amigo falou sobre isso com os outros amigos de Ronaldo, e eles disseram que com eles acontecia o mesmo. Viam Ronaldo encarando-os, e então ele dava esse sorriso.
     - Para com esse sorriso, Ronaldo.
     - Ué, por quê?
     - Porque, sei lá... você fica olhando pra gente e sorrindo... é perturbador...
     - Pensei que o sorriso era o sinal mundial da aceitação.
     - Como assim?
     - Ora, se você acha que está irritando uma pessoa, você dá um sorriso e ele ameniza a situação. Não é assim?
     - É, pode ser, mas não faz mais.

***

     - Vocês notam que o Ronaldo age de um jeito estranho?
     - Ah, sim. Aquele jeito de comer massa...
     - Não. O porte dele é estranho. O jeito como ele se mexe, os gestos, não são iguais aos nossos...
     - Pior. Parece alguém que veio de outro país...
     Ninguém sabia de onde o Ronaldo viera. Mudara-se a uns dois anos para o subúrbio. Os vizinhos o receberam bem, era uma vizinhança onde todos se conheciam e conviviam juntos. Acolheram Ronaldo afetuosamente, apesar de suas estranhices. Não parecia conhecer mais ninguém. Nunca viram-no receber visitas. Tinha um sotaque estranho. Quando perguntavam de onde vinha, limitava-se a dizer que era do interior. De onde?
     - Longe. Muito longe.
     E não dizia onde.

***

     Certa noite, o Juca acordou com sede. Saiu da cama, cambaleante, cuidando para não acordar a mulher, e foi até a cozinha. Tateava as paredes, para não se desequilibrar. Tropeçou no gato. Serviu vagarosamente a água, e foi olhar a janela. Viu um passarinho, a casinha de seu cachorro e uma luz muito forte na casa do Ronaldo, seu vizinho. Ficou olhando o passarinho até que a informação de que a luz forte não era uma coisa comum chegou ao seu cérebro. Uma luz brilhante, vinda de um dos cômodos, no segundo andar. Correu para acordar a mulher. Os dois observaram o fenômeno atônitos. No outro dia, contaram aos outros vizinhos. Uma luz estranha, amarela, espectral... Todos ficaram pensando o que poderia ser aquilo. Mas o próprio Juca tinha uma teoria:
     - Pessoal, o Ronaldo é um alien...
     E isso explicava tudo, desde a luz até o jeito de comer massa. Os outros ficaram em dúvida. Será? Melhor dar uma chance para o Ronaldo se explicar. Naquela tarde, numa roda de chimarrão, o Juca resolveu perguntar ao próprio sobre o incidente.
     - Ah, aquilo? É a minha tevê de plasma nova. O maior modelo da loja. Se quiserem passar lá em casa pra assistir, podem ir.
     E continuou sorvendo o seu chimarrão. Ele mexia a bomba como um canudinho de milk-shake. Se fosse terráqueo, ao menos não era gaúcho.

***

     De fato o Juca foi até a casa do Ronaldo, e de fato ele tinha uma tevê de plasma, sessenta e tantas polegadas, muito impressionante. Tivera de dar o braço a torcer. Mas esse não foi o fim da visita. Ao passar pela sala, Juca notou algumas folhas com escritas estranhas em cima de uma escrivaninha. Eram símbolos, e Juca desenhou os que se lembrava aos amigos, mais tarde, enquanto confabulavam sobre o Ronaldo. Perguntara na hora o que eram para o Ronaldo, e ele respondera que era um alfabeto russo e que ele estava aprendendo russo.
     - Tá, mas alguém aqui sabe dizer se isso aí é russo ou não? - questionou o Fábio, durante a confabulação dos vizinhos.
     - Sei lá, mas não me parece, não - defendeu-se o Juca.
     - Bom, os russos são meio estranhos - opinou a mulher do Juca - Não duvido que eles usem isso aí. De qualquer jeito, eu tenho uma tia que fala russo. Vou mandar os desenhos pra ela por e-mail pra ver o que ela diz.
     Talvez o Ronaldo fosse um russo fugido do país, disseram alguns. O sotaque dele não parecia russo, mas alguém ali sabia como era o sotaque russo? Ninguém sabia.
     O William, que desde o início defendeu o Juca na tese do alien, disse que talvez Ronaldo tivesse escolhido o nome "Ronaldo" porque pensou que era um nome comum entre os humanos. Um pouco como Ford Prefect no Guia do Mochileiro das Galáxias, que escolheu o nome Ford por achar que os carros eram as formas de vida dominantes na Terra. Com tantos Ronaldos no futebol e, consequentemente, na mídia, talvez a teoria tivesse fundamento.

***

     Na saída para o trabalho, o Juca viu um carro preto estacionado na frente da casa do Ronaldo. Na frente do carro, havia um homem de terno e óculos escuros observando a casa. Nunca tinha visto um homem assim na vizinhança.
     - Com licença, posso ajudar? - perguntou ao homem.
     - Aqui é a casa onde reside Ronaldo da Silva?
     - É aqui sim, mas imagino que ele não esteja...
     - Sim. Entendo.
     - Quer que eu avise que o senhor passou por aqui?
     O homem mudou de postura.
     - Não. Não diga nada. Eu voltarei depois.
     Ele entrou no carro e foi embora. Juca reparou na placa do carro. Placa branca. Veículo do Governo. Na volta do trabalho, estava pronto para contar à mulher sobre o ocorrido, mas não conseguiu oportunidade: ela o assediou primeiro, com as notícias de sua tia, a que sabia russo. Segundo ela, não havia qualquer coisa parecida com um alfabeto daquele tipo na Rússia. Mas, para não deixar a sobrinha na mão, resolveu dar uma pesquisada na internet, num site que reconhecia imagens e fotos e achava outras imagens semelhantes. Deu um upload nos desenhos que o Juca fez e descobriu uma foto de uma espécie de lataria, com os tais símbolos desenhados. Clicou no link e foi para uma notícia sobre a queda de um suposto disco voador, origem da foto. O disco tinha grafias iguais aos símbolos que Juca havia desenhado, espalhados por toda a lataria.
     Naquela noite, Juca não dormiu: ficou olhando a janela, para a casa de Ronaldo, à procura de algum sinal, alguma luz estranha. Resolveu contar ao vizinho sobre o homem de terno do outro dia. Ronaldo não expressou reação, Juca perguntou se estava tudo bem e Ronaldo disse que sim. E deu um sorriso medonho.

***

     No outro dia, a Beth veio com a notícia de que o Ronaldo iria se mudar.
     - Passei na frente da casa dele, puxei conversa e ele me disse que estava de mudança. Vai embora amanhã. Eu estranhei, saindo assim tão de repente, sem avisar ninguém. Parece alguém fugindo.
     O Ronaldo confirmou. Sim, estava de mudança. Ia voltar para a sua terra natal. Quando perguntado sobre o motivo, foi evasivo: falou algo sobre a falta de segurança, sobre não se sentir à vontade no lugar.
     - O quê, aqui na vizinhança? O pessoal aqui dorme com a porta destrancada! - argumentou um dos vizinhos.
     Mas o Ronaldo estava irredutível. Ia aproveitar para matar a saudade de sua terra. Seja lá aonde isso fosse.
     Enquanto o Ronaldo estava em casa arrumando as coisas, o pessoal se reuniu casa da Beth para discutir os últimos acontecimentos. Juca explicou sobre os desenhos e o disco voador, e o engravatado do governo. Até os mais céticos estavam começando a se dobrar. E agora, segundo Juca, o Ronaldo ia voltar para o planeta dele, deixando a Terra para sempre. Que situação, hein?
     O William levantou.
     - Vou junto.
     - Como assim? - surpreendeu-se o Juca.
     - Já chega da Terra. Os políticos são podres, o sistema é podre, está tudo indo para o buraco. Quero recomeçar a vida em outra galáxia. E é bom que ninguém me segure.
     A Beth admitiu que o William tinha um bom ponto. Com os recursos escassos da Terra, era mais vantajoso mudar de planeta do que continuar vivendo num que está definhando. William concordou.
     - E sabe o que mais? O Oscar. O Oscar é uma piada. Guerra ao Terror é um lixo. Eu estava dando uma chance ao planeta, via o Oscar todo ano pensando que iria melhorar, mas não dá mais. Larguei de mão. Fui.
     E saiu pela porta. Nunca mais viram o William nem o Ronaldo. E, durante anos, o assunto do Ronaldo ainda era discutido nas rodas de chimarrão. E o Ronaldo, hein? Que fim levou? Deve estar por aí, pelas estrelas. Lembram do jeitão esquisito dele? E todos riam. Sentiam saudades do Ronaldo, e de como ele fez com que suas vidas suburbanas saíssem da mesmisse e virassem mais do que pequenos pontinhos perdidos no universo.
     Do William, só o Juca lembrava, de vez em quando, dizendo que um dia havia lhe emprestado um coador de massa e que agora nunca mais o conseguiria de volta.
 

sábado, 20 de março de 2010

As Águas de Março

     Japoneses, por incrível que pareça, adoram bossa nova. Pagam fortunas para ver uma apresentação de João Gilberto, que, em um show na terra nipônica, foi aplaudido durante 25 minutos, talvez o aplauso mais longo da história. Prova de amor à nossa música. Talvez o melhor produto de exportação brasileiro, embora o Robin Williams possa achar que são as strippers e o pó. Mas eu divago.
      O amor à bossa nova não vem, certamente, de uma identificação com a letra. Que o idioma japonês é muito diferente do português, todo mundo sabe. Nossa construção frasal não segue a mesma lógica e temos alguns milhares de caracteres a menos, só pra ficar nas disparidades mais óbvias. Mas, dentre todas as variantes do português, a do Brasil deve ser a mais estranha aos ouvidos orientais. Percebi o quanto durante uma conversa com uma estudante intercambista, Kana, sobre bossa nova. Estávamos falando de Águas de Março, e ela queria explicações sobre o nome:
     - Águas de Março quer dizer água, como... eh... - e fez movimentos ondulatórios com as mãos.
     - Como rio? - tentei.
     - Rio! Sim sim sim!
     - Ah... não. É "água" no sentido de chuva. Chuva. Tipo, que cai do céu, assim. - representei chuva com os dedos, de um modo que é meio difícil de descrever, mas vocês devem saber como é. 
     - Ah... sim sim.
     - É porque março é último mês do verão, e no Rio de Janeiro é um mês chuvoso. Então, a chuva representa o fim do verão, que nem diz a letra. "São as águas de março fechando o verão". Chuva, fecha, verão - mais mímica.
     - Ah... sim sim.
     Mas eu não tinha certeza se ela tinha entendido.
     - É uma música... difícil. - disse ela, referindo-se à letra.
     E era mesmo. E parei pra pensar em como explicar o resto da música a ela. Mas não havia como. Porque Tom Jobim escreve que um jeito que não há como traduzir. A brasilidade está tão intríseca à música que não há como fazê-la ser entendida em nenhuma outra língua. Nem os outros países de idioma português devem entender o que é a peroba do campo, ou caingá, candeia. E que raios é um Matita Pereira?
     Então, como algo escrito em um português oral mal compreendido até por mim pode tocar pessoas lá do outro lado do mundo? Eu respondo: porque o importante não é o sentido das palavras. É a musicalidade. É a melodia por trás delas, é o colchão sonoro que elas fazem para os nossos ouvidos. A sonoridade das palavras é muito mais importante do que o significado. Sem tirar o mérito de uma boa letra, mas ela é um complemento, é a cobertura do bolo, não o essencial. As palavras precisam ser melodiosas, precisam deliciar-nos, precisam ser saboreadas. Com ou sem sentido.
     Já vi muita música ruim que poderia ser boa se o artista tivesse escolhido palavras diferentes. Talvez a letra até fosse bonita, mas não encaixava legal na sonoridade. O pior é quando a música fica com cara de poesia cantada. Isso existe aos montes, e continuará acontecendo, até que os letristas percebam que uma boa letra não é aquela que parece ter sido escrita por Camões, é aquela que é uma delícia de cantar. É o som antes do sentido, é o ritmo das sílabas, é a cadência sonora, é um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã. É um belo horizonte. É uma febre terçã.
     E é por colocar a melodia antes do sentido que Tom Jobim é amado no Brasil, no Japão, nos EUA, na Europa. Pois uma boa melodia é uma boa melodia em qualquer parte do mundo. Apesar de só ter sentido para nós - ou nem isso -, o projeto da casa, o corpo na cama, o carro enguiçado, a lama, a lama, vão soar bonito tanto aqui como na China. Ou no Japão, no caso.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Aécio e Lula

     Aécio me lembra Collor. Os dois vêm de uma família de políticos, e os dois almejaram a presidência com uma idade relativamente baixa. Do mesmo modo, os dois me parecem se importar menos com o que podem fazer de bom no exercício do mandato e mais com o mandato em si. Aécio teve a sua chance de ser candidato à presidência e perdeu para o Serra. Agora, aberta a possibilidade de ser vice, diz que não irá "nem empurrado". Aécio não se contenta com a vaga de vice. Ainda mais quando se é jovem e tem um futuro cheio de chances de chegar à presidência. Em teoria, é só dar tempo ao tempo, não concorrer a vice esse ano e tentar a candidatura na próxima eleição.
     Parêntese aberto: há alguns fatos para se considerar, que podem provar falha essa lógica. Primeiro que, apesar de Serra estar na liderança, Dilma evolui mais rápido que um Pokémon. Se antes da campanha oficial começar ela já vinha crescendo em ritmo alarmante, agora a coisa vai pegar fogo. Serra fica nessa lenga-lenga de vai-não-vai, de sou-candidato-mas-não-sou, de quero-me-candidatar-mas-vamos-esperar, e Dilma já está em campanha desde antes da campanha começar. Ela é precoce.
     Dilma largou na frente e Serra ainda está pastando. O que isso mostra ao povo? Que ela é a mais decidida. Enquanto Dilma está em tudo que é lugar, Serra fica pra trás, apagado, esquecido pelo povo que não o vê na TV. A não ser que, é claro, botem o Aécio para ser seu vice. A sua popularidade serviria como um turbo e os dois juntos largariam na frente, dificilmente podendo ser alcançados. Serra e Aécio: a dupla dinâmica, unidos para acabar com as forças do mal da ex-esquerda guerrilheira. Não ia ter pra ninguém, nem pra Dilma, mas o Aécio não quer. Prefere deixar o partido perder essa eleição do que se conformar a ser o vice, pois tem certeza de que pode ganhar em 2014...
     ...Que é onde eu abro o meu segundo parêntese. 2014 tem Copa do Mundo, e tem também Lula III. Sim, meus amigos, ele voltará. Ressurgido da cinzas como a fênix, acompanhado pelo clamor do povo, ele retornará, sim, e assumirá o posto que lhe estará reservado na candidatura à presidência da República pelo PT. Velhos irão chorar, comovidos por terem vivido até o dia do Retorno, e massas de pessoas irão se prostar a seus pés. Choverá sangue, talvez, e um ou dois mares irão se abrir.
     Pausa e volta para o presente. Para quem pensa que a sequência é sempre pior que o original, Lula II foi uma surpresa. No final de Lula I, tinha-se a impressão de que as lembranças que restariam daquele governo para a posteridade seriam o Fome Zero e o mensalão. Hoje, ninguém se lembra de nenhum dos dois (embora a Veja tenha dado uma requentada no mensalão essa semana ou na passada, deem uma conferida), não porque o povo se esquece de fracassos, ou talvez não só por isso, mas pelo incrível desempenho da sequência. Se no final do 1º mandato todos ficaram com o pé meio atrás, no segundo Lula conquistou reconhecimento nacional, internacional e extraterrestrial: bateu os 80% de aprovação; foi eleito personalidade de 2009 pela imprensa gringa; foi chamado de "o político mais popular do mundo" pelo político mais popular do mundo. Se eu ler por aí que Lula ganhou o título de "Homem Mais Sexy do Mundo", não vou duvidar. O "Cara" é um fenômeno. E é esse fenômeno que Aécio enfrentará, caso espere até 2014. Pois, se Lula já faz estrago só apoiando um candidato, se é ele próprio o candidato o buraco é muito, muito mais embaixo. Aécio não quer ser vice porque possui brilho para ser candidato principal, mas nem todo o brilho do mundo o ajudará nesse cenário. É melhor ele repensar suas estratégias, senão corre o risco de terminar 2010 e 2014 de mãos vazias.

sábado, 6 de março de 2010

Pensamentos sobre o Oscar

Amanhã começa a cerimônia do Oscar 2010 e todos já sabem quem é o favorito. Apesar de ser um remake de Pocahontas com aliens, Avatar promete ganhar nas principais categorias, pelo fato de ser um filme caro. Acho que é só por isso. Não tem nada de revolucionário em termos de roteiro ou construção de personagens. A parte da revolução fica por conta, é claro, das tecnologias usadas não apenas no filme normal, mas em sua versão 3D. Cada frame de Avatar levou 48 horas para ser trabalhado. Isso. Dois dias. E um segundo de filmagem tem 24 frames. Façam as contas. Não é de se impressionar que o filme levou 10 anos para ficar pronto.

A expectativa em torno de Avatar foi grande: por se tratar de uma superprodução, por ser o primeiro trabalho de James Cameron desde o mais bem sucedido filme da história, por demorar uma década para ser feito. Me ocorrem dois casos parecidos no cinema: Waterworld e Apocalypse Now. Apesar de Waterworld não possuir um diretor famoso como James Cameron, com certeza trata-se de um filme de orçamento gigantesco com um longo tempo de produção. Muito por causa de desastres nas filmagens, como a vez em que uma ilha artificial feita especialmente para o filme afundou, no maior fail da história do cinema, e foi necessário fazer outra. Apocalypse Now não difere muito: grandes gastos, problemas nas gravações, muita espera. Compartilha com Avatar a característica de ser dirigido por um grande diretor e com Waterworld os problemas de produção. A diferença é que Apocalypse Now foi um sucesso, e Waterworld naufragou nas bilheterias. Sem trocadilhos.

É certo que Avatar não é um fracasso, mas no futuro, quando seres azuis computadorizados fazendo acrobacias numa floresta computadorizada não impressionar mais ninguém, poderá acontecer de ele passar por uma reavaliação. Talvez chegue-se à conclusão de que os Na'vi não mereciam os prêmios que ganharam. Ou não? O fato de ser um marco tecnológico será o suficiente para mantê-lo relevante na história do cinema, como um daqueles clássicos indiscutíveis que não são mais questionados e apenas reverenciados pela revolução técnica? Você não pode dizer que Cidadão Kane é ruim, mesmo que no fundo ache que seja, pois logo um cinéfilo irá lembrá-lo que ele revolucionou a forma de se fazer cinema, enquanto aponta o dedo na sua cara. Avatar e suas tecnologias subiram o patamar e viraram um referencial para tudo o que virá agora, não na narrativa mas na forma de se experienciar um filme. Nesse aspecto, ele é mais importante do que o já citado e mais aclamado Apocalypse Now, e entra na mesma categoria de Cidadão Kane. Críticos de cinema, por mais que debochem do roteiro pouco criativo e da repetição de ideias, terão que se curvar às suas próprias regras e admiti-lo no panteão de filmes que moldaram a sétima arte. Estarão lá Cidadão Kane, E o Vento Levou, 2001: Uma Odisseia no Espaço e Avatar. Gostem ou não.

***

Disputando com Avatar pelo prêmio principal está Guerra ao Terror, o que é meio suspeito por duas razões: é um filme relativamente velho que não ganhou destaque no seu lançamento e é dirigido pela ex de Cameron. O tema Iraque, apesar de não estar em baixa, estava mais forte no lançamento do filme do que agora. Por que, então, um filme supostamente bom passou despercebido, a ponto de não ser lançado nos cinemas de diversos países? A bem da verdade, as críticas que tenho visto não são maravilhosas, reconhecem a qualidade do filme mas não o colocam no mesmo nível de alguns outros indicados. O que faz pensar que talvez essa coisa de Avatar versus Guerra ao Terror seja apenas para se aproveitar do fato dos diretores terem sido casados. Uma briga de casal para dar audiência é algo que faz sentido. O que não faz sentido é indicarem Amor Sem Escalas para Melhor Filme. Por cima do pano de fundo Crise Econômica, segue a fórmula de uma comédia romântica típica, como inúmeras outras que abarrotam os cinemas e atraem casais para as salas de exibição todos os fins de semana. É o filme mais fraco do diretor, o mesmo de Juno e Obrigado Por Fumar. Este último, na minha opinião, seu melhor filme, superior à Amor Sem Escalas e não mencionado no Oscar de seu ano. E a menina que faz o papel de coadjuvante é fraquíssima. Lembro que pensei ser a pior atuação que via em um bom tempo, e depois descobri que ela está concorrendo ao Oscar! É demais pra mim.

***

Sendo a disputa somente entre Avatar e Guerra ao Terror, e sendo só deles que se fala, não adiantou nada aumentar o número de indicados para Melhor Filme. Não se fala dos outros. Faltando um dia para a premiação, críticos de cinema são convidados para dar sua opinião sobre qual dos dois favoritos irá ganhar. Mas, quando perguntados sobre o seu favorito, a resposta é a mesma: Bastardos Inglórios. É, na opinião geral, o que deveria ganhar Melhor Filme, Diretor, Roteiro e o que mais tiver sido indicado, e não porque é revolucionário (até é), mas porque é muito bom. É bom demais. É muito melhor do que qualquer um dos outros dez indicados. Não tem tecnologia, não fala de um tema polêmico atual, é simplesmente mais prazeiroso de se assistir do que todos os outros. Faz brilhar os olhos de qualquer um que goste de filmes ou de uma boa história. E é o ápice de um grande diretor. Como dito na Zero Hora de hoje, se a Academia deixar de dar o Oscar a Tarantino amanhã à noite poderá cair no mesmo que cometeu com Scorcese: entregar um Oscar compensatório por um filme inferior do diretor muitos anos depois de seu melhor trabalho. Dar o Oscar à Bastardos Inglórios seria dar um tapa na cara da pressão da mídia em nome da qualidade e, de quebra, fazer o Oscar ganhar muito da credibilidade que perdeu ao longo dos anos. Não vai acontecer. Mas não custa torcer.