terça-feira, 20 de outubro de 2009

Sketchs

O Márcio não gostava de morenas.
- Como assim, você não gosta de morenas?
- Não gosto, pronto.
- Mas por morenas você diz...
- Mulheres de cabelo escuro. Morenas. Não gosto.
- Mas todo mundo gosta de morenas!
- Todo mundo não. Eu não gosto!
Eliminando-se as morenas, sobravam as loiras e as ruivas. Mas as morenas são maioria no mundo. Descartando-se as morenas, estaria se reduzindo em muito as possibilidades em termos de mulher. Mas não era nem esse o caso: o problema é que todo mundo gosta de morenas. Tem homem que não gosta de mulher alta, de mulher baixa, de mulher magra ou gorda, mas não gostar de morenas, como assim? Não gostar de morenas é não gostar de mulher. E não era nem questão de preferência:
- Saquei. Tu é daqueles que preferem as loiras.
- Não. Eu só não gosto de morenas. Acho feio, mulher de cabelo escuro.
- Mas, sei lá, se uma morenaça se atirasse no seu colo...
- Eu diria "com licença" e tirava ela de lá. De morena eu não gosto.
Depois de muito insistirem, conseguiram que o Márcio confessasse: seu ódio por morenas não vinha de nascença. Ele veio de um relacionamento que teve com uma namorada antiga. Morena.
- Ela me machucou mesmo, sabem - disse o Márcio, emocionado. - Nunca me recuperei. Agora vejo ela em todas as morenas que eu encontro. Isso me deixa mal.
Mas, ao invés da compreensão que esperava, o Márcio virou chacota para os amigos. Que passaram a folgá-lo sempre:
- Márcio, levei um fora de uma mina com dois braços. Agora só fico com manetas.
- Sei, sei.
- E a minha ex-namorada, que tinha cabelo? Sabe como é difícil pra mim achar uma mulher careca?
- Não enche.
- Além disso, ela tinha uma arcada dentária completa! Completa! Eu olho para todos os lados e vejo essas mulheres, com seus cabelos e suas dentições regulares, e me sinto tão oprimido...
- Ai, ai...

***

O menino chegou na menina na festa.
- Olha só, posso falar contigo?
- Eu? - disse a menina, dando um risinho.
- É, você mesmo. Eu estava te olhando faz tempo, sabe?
- Hihi, é mesmo?
- É. Sabe, a gente está sempre à procura de uma pessoa legal, de alguém que nos entenda... e sei lá, eu vi você, e achei que você era essa pessoa.
- É sério? Hihihi.
- Então, eu pensei em vir aqui falar contigo, mas não tinha coragem... mas aí eu pensei "ora, se ela é tão legal assim como parece, ela vai me entender, ela não vai dizer não...".
- Dizer não pra quê?
- Quer saber mesmo?
- Ah, eu quero!
- É que eu quero te pedir uma coisa...
A menina passa as mãos no cabelo.
- Ai, fala logo, fala!
O menino se aproxima dela. Põe os lábios perto de seu ouvido. Fala bem baixinho:
- Me empresta dois reais?
- Hein?!
- É só o que falta pra eu poder comprar uma cerveja. Tô meio sem dinheiro.
- Tá falando sério?
- Eu sei, é meio chato pedir dinheiro pra quem não se conhece, mas tô sem ninguém pra pedir e achei que você entenderia. Tô precisando mesmo, sabe?
- Ahn...
- Eu só vim pedir pra você porque você parecia bem legal. E aí, acertei?
- Ahn... peraí, não sei se tenho... vou dar uma olhada...
Ela procura freneticamente na bolsa por dois reais.
- Ahn... acho que não tenho... não tô achando.
- Não tem, então?
- Não, não achei. Desculpa, tá?
- Que é isso. Não faz mal.
- Tá, mas era só isso?
- Sim. Mas valeu de qualquer jeito. Agora com licença, vou voltar pra minha mina. Tchau.
- Ahn, tchau.

***

Luiz Fábio é um homem normal. 32 anos, classe média-alta, casado com dona Lurdes Maria, 30 anos, excelente dona de casa. Mora num condomínio decente, paga as suas contas em dia, gosta de cochilar ao sol e ler jornal de manhã. Tudo muito normal. A única coisa atípica da vida de Luiz Fábio é que ele tem que dividir o corpo com sua outra personalidade, um aborígene chamado Dingaal.
- É um problema como qualquer outro. Alguns sofrem de rinite, outros de esquizofrenia aguda - explica Luis Fábio.
O problema começou na passagem da infância para a adolescência. Ele conta que a primeira vez que virou Dingaal foi numa festinha da oitava série.
- Os meninos estavam tirando as meninas pra dançar. Fiquei muito nervoso. Aí ele tomou o meu lugar.
Dingaal se adonou do corpo de Luis Fábio e tentou seduzir as meninas com danças tribais.
- O pessoal achou muito engraçado. Pensaram que eu estava bêbado, o que não fazia sentido, porque na festa só tinha Coca-Cola - explica. Na mesma festa, acabou beijando uma menina pela primeira vez. De início ficou furioso, pois quem a beijou na verdade não havia sido ele - e quer algo mais decepcionante do que ficar de fora do seu próprio primeiro beijo? Mas aos poucos acabou cativado pelo seu alterego, a quem chama carinhosamente de "Didi".
Mas tentar viver em sociedade sendo parcialmente um aborígene não requer um certo esforço? Luis Fábio se prepara para responder, mas então seus olhos se esbugalham, levanta de seu sofá e começa a pular ensandecidamente, balbuciando palavras em uma língua desconhecida. Depois, para, se acalma e senta de novo.
- Me desculpem, foi o Didi. - explica ele. - Ele é assim: fica louco na frente de estranhos. Acho que é o jeito dele de demonstrar nervosismo. Imagino que seja um aborígene meio sociofóbico, bem diferente de mim, que sou comunicativo. Mas ele nunca quis conversar sobre isso comigo.
Respondendo à pergunta anterior, Luis Fábio diz que é difícil, mas só porque há muito preconceito por Dingaal ser um aborígene.
- As pessoas pensam que só porque ele vem de uma cultura diferente não pode conviver dentro da nossa sociedade. Isso é muito triste. Didi entende as regras da nossa sociedade, e as respeita. Se bem que, verdade seja dita, ele ainda caça carros de vez em quando. Já tive que pagar vários reparos por causa dele. Ah, esse Didi me racha.
E quanto à vida sexual de um esquizofrênico? Neste ponto, Luis Fábio nos corta:
- A Lurdes Maria é minha mulher. E ai de ele se meter.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

A nossa governadora

Deve se admitir que a nossa governadora tem bom gosto. Aquele pufe da Tok&Stok comprado com dinheiro público é o máximo em conforto e design. Eu sei porque eu o vi uma vez em que fui à loja. Não resisti e experimentei. Muito confortável. Não dava vontade de levantar. Só não comprei porque era caro. Não ia gastar o meu dinheiro naquilo. A governadora não se sentiu tão acanhada: gastou o meu dinheiro e comprou o pufe pra ela.
Bom, o pufe não ia ficar tão bem na casa sem alguns móveis para combinar. Não que isso tenha sido um problema: a Excelentíssima tratou de comprar alguns armários e um sofá-cama para ajeitar a residência. Sabem como é, tudo pelo feng-shuy: não se pode deixar a casa mal-arrumada, bloqueia o fluxo de energias. E não se pode bloquear o fluxo de energias num lugar onde são tomadas decisões que afetam todo o estado. As consequências poderiam ser desastrosas. Viram só? As compras foram bens necessários para o exercício do mandato. Tudo se justifica no final.
E que maravilha de pessoa, a nossa governadora, que aproveitou a sessão de compras para mobiliar também o quarto dos netos! Ah, que mimo, a nossa governadora ama os netinhos. É claro, as crianças são o futuro. Tudo de melhor para elas. Elas merecem. E quais crianças são melhores para receber investimento de verba pública senão as da própria família da nossa governadora? Quem sabe, depois pode sobrar um pouco para as crianças carentes, também. Mas isso se vê depois de comprar os móveis. Tudo a seu tempo.
Como se vê, tudo na história das compras é justificado. Agora, quanto ao processo de improbidade administrativa eu não sei bem. A comissão do impeachment quer arquivar o processo. Ufa, que bom. Deve ser porque a nossa governadora é inocente. Que susto, toda aquela campanha do Fora Yeda, todos aqueles outdoors com a cara da nossa governadora e escrito ao lado que era a face da corrupção, fazia a gente até pensar que ela era culpada de alguma coisa mesmo. Ainda bem que ficou tudo esclarecido. Quer dizer, não sei, pra mim não ficou. Mas para a comissão ter tomado essa decisão, eles devem saber mais do que eu. Vai ver eu é que sou burro e não entendi.
Outra coisa que eu não entendi é por que quem decide o impeachment não é um órgão da Justiça. Pode ser viagem minha, mas se a nossa governadora está sendo acusada de um crime (da qual foi provada inocente, senão não estariam arquivando o processo), ela não teria que ser julgada por um tribunal como qualquer pessoa normal? Eu não consigo entender porque esse julgamento cabe aos políticos e não à Justiça. Acima disso, não consigo entender por que essa decisão cabe aos políticos aliados da nossa governadora. Para os meus olhos de leigo, parece improvável que ela seja declarada culpada por um tribunal formado por seus aliados. Devo ter perdido parte da explicação. Que chato, não entender de política. A gente tenta acompanhar, mas fica confuso. Ainda bem que tudo foi esclarecido, no final. A nossa governadora é inocente, foi tudo uma confusão! Uma confusão que eu não entendi, mas azar, agora já passou.
A única coisa que eu fiquei brabo é de que eu não pude ser consultado sobre as compras da governadora. Ora, o dinheiro é meu também, os móveis são propriedade do estado. Pelo menos deixa eu ajudar a escolher! Verde kiwi é legal, mas eu queria ter dado uma olhada nas outras cores de pufe que a loja oferecia. Bom, pelo menos a única coisa que estão me privando é de escolher a cor da mobília. De resto, o povo ainda tem o poder. Ainda bem.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O macho-alfa ou "A teoria do idiota"

Que diabos, crio um blog que ganha um ou outro comentário durante os seus quatro meses de vida, trabalho com amor e afeto em crônicas que tento fazer o mais agradáveis possíveis de ler, aí um belo dia resolvo chutar o pau da barraca e ganho 6 comments em dois dias. É verdade, polêmica vende. Estou falando, é claro, do último post, "O Círculo da Amizade", que aparentemente despertou opiniões inflamadas de ambos os lados, masculino e feminino, e inclusive de uma certa "guria chata". Se o post serviu para alguma coisa, foi para incentivar alguém a começar um blog e escrever suas opiniões. Considero já isso um lucro.
Pensei em postar mais um sketch hoje, mas vou aproveitar que o assunto "relacionamentos" está quente e trabalhar algo em cima disso.

***

Vocês já devem ter visto a cena.
- Olha lá, aquele cara, escroto, nojento, feio, gordo...
- Calma! Pra quê tanto ódio?
- Pra quê? Já viu a gostosa que está com ele? Ela é linda! Ela é linda e o cara é um troglodita! Como pode?
- Ah, vai ver ele é feio mas tem algum charme menos óbvio...
- Argh, olha ali, o cara tá babando!
- Irgh, é mesmo.
Caras nojentos que pegam as mulheres que você gostaria de pegar. Eles são feios. Você já conversou com eles. Ficou com pena da humanidade, por ter exemplares tão idiotas. Ainda assim, algumas mulheres parecem não ver isso. Os caras simplesmente chegam nelas nas festa, e você ali, olhando de longe, esperando para rir do fora que eles vão levar. Mas eles não levam! Eles conseguem! Como pode?
Para analisar a situação, é preciso sair um pouco da esfera humana. Voltemos aos nossos amigos animais mais próximos. Os macacos vivem em grupos liderados pelo macho-alfa. Há uma constante disputa entre os macacos pela vaga de macho-alfa. O macho-alfa é, por regra, aquele que irá copular com as fêmeas do grupo. Ninguém quer ser o macho-beta. O macho-beta não come ninguém. O macho-beta fica ali, chupando o dedo, esperando a sua vez. As fêmeas só querem saber do macho-alfa. O macho-alfa é o mais forte, ele derrotou todos os seus desafiantes. Quando ele chega a sua presença é sentida. E elas adoram isso. Ficam enlouquecidas com o poder. Elas querem o mais forte, elas querem o melhor, elas querem o macho-alfa.
Como se sabe, nos diferenciamos dos macacos pelo polegar opositor, o pensamento abstrato e o senso de higiene necessário para saber que comer piolho é nojento, quanto mais os dos outros. Mas algumas semelhanças persistem. As mulheres querem o macho-alfa. Vocês já devem ter ouvido esta frase: o poder é sexy. O poder é um tesão. Um homem poderoso é atraente. O gosto pelo que está no topo é um resquíscio dos nossos amigos primatas. E esse é o diferencial do cara que é nojento e pegador, e também o real motivo pelo qual você o odeia: ele pensa que está no topo. O desgraçado é porco, desagradável, feio pra dedéu, mas se acha o "ó" do borogodó, a última bolacha do pacote. Você acha ele um idiota por não se colocar no lugar que merece. E basta ele agir como se fosse tudo o que acha para se tornar atraente. Você o vê como um escroto chegando numa gostosa, ele se vê como um cara fodão que não deve nada pra ninguém, e a gostosa cai na confiança do cara e se deixa levar.
Essa palavra é essencial. Confiança. É verdade: se você não acreditar em si mesmo, não há como fazer sucesso. O ato de agir como o dono do recinto, de se portar como o macho-alfa, fala com a parte instintiva das mulheres. É por isso que dá certo. É por isso que aquele cara está com a gostosa e você não. Ele tem confiança no seu taco, sem trocadilhos. Quem tem confiança não precisa de nenhum charme. A própria confiança é o charme. Anotem nos seus cadernos.

sábado, 3 de outubro de 2009

O Círculo da Amizade

Homens e mulheres funcionam diferentemente. Além das diferenças óbvias (sistema reprodutor, razões para gostar de Bon Jovi), há uma que diz respeito à visão dos dois sexos quanto à amizade. Mulheres não veem seus amigos homens como homens, no sentido pleno da palavra. Na visão delas, existem homens, mulheres e aquele ser híbrido indefinido, que é o Amigo Homem. O Amigo Homem é um cara superlegal e interessante, de confiança, que tem tudo a ver com a mulher. O Amigo Homem é engraçado, tem um senso de humor que casa perfeitamente com ela. O Amigo Homem pode até ser bonito. Independente dessas qualidades, a mulher nunca enxergará o Amigo Homem como mais do que um amigo. A mulher pode até admitir que o Amigo Homem daria um namorado perfeito, e neste caso tenta arranjá-lo com uma amiga, dizendo: "olha, conheço um cara que tu vais adorar, ele é um amigo meu...". Para ela, o Amigo Homem é seu irmão. Desejar o Amigo Homem é algo inconcebível, até nojento. Pobre Amigo Homem. Para sempre preso no limbo da amizade.

***

Homens não funcionam assim. Não mesmo. Um homem não enxerga as amigas como irmãs, nem nunca enxergará, salvo em casos muito especiais. As amigas são amigas e mulheres ao mesmo tempo; o homem consegue ver que uma coisa não anula a outra. Mas vocês, leitoras do sexo feminino, devem estar pensando que não é bem assim. Não, não, meus amigos são meus amigos. Eles nunca me desejariam. O Rogério, aquele cara que eu conheço desde sempre, aquele cara que cresceu junto comigo, ele não é assim. Inclusive, naquela brincadeira na oitava série, onde fecharam nós dois num quarto por cinco minutos, pensando que iria rolar alguma coisa, olha só que engraçado, nós ficamos fingindo sons de beijos para o pessoal do lado de fora achar que nós estávamos ficando, foi muito hilário! Imagine, beijar o Rogério! Que nojo! Tá certo, eu sempre achei que ele tinha uma quedinha por mim quando a gente era criança, mas por favor! A gente é amigo! Até já durmimos juntos na mesma cama, naquela viagem onde só tinha um quarto pra nós dois, ele nem tentou nada, o que me diz disso, hein?
Mas não pensem, queridas leitoras, que ele não pensou, não ponderou, e chegou à triste conclusão de que não iria dar certo. Imaginem por um momento a tristeza do Rogério ao entrar naquele quarto na oitava série, pensando que finalmente agora o negócio iria acontecer, e ouvir você, rindo, tirar sarro do pessoal que achava que vocês realmente iriam ficar. A força que ele deve ter feito para rir quando você sugeriu fingir os sons de beijos foi certamente titânica. Pobre Rogério. Para sempre preso no Círculo da Amizade.

***

A amizade entre homem e mulher é meio que como um RPG: o seu nível de amizade começa no zero, aí você vai enchendo a barrinha da intimidade, através de conversas, tempo gasto juntos, até atingir o Círculo da Amizade. Quando você entra no Círculo da Amizade, aí, amigo, não tem volta. Pois quem entra no Círculo da Amizade atinge a classe de Amigo Homem. O problema é que não há como prever quando você vai entrar no Círculo: isso quem define é ela, a mulher. E ela não vai te avisar, nem quando você estiver perto nem quando você cruzar a linha. O ideal é o homem sempre manter uma certa distância das mulheres de que tem interesse, para não correr esse risco. E este é o grande dilema do homem moderno, mulheres: como conhecer uma mulher legal, se quando nós temos a chance de conhecê-la a fundo já é tarde demais? Por que não aceitar os amigos como possibilidade de relacionamento?
Isso é falta de maturidade, é isso que é. Já cansei (e como) de ouvir histórias de mulheres se queixando dos homens com quem se relacionaram, porque foram traídas, porque foram trocadas por outra, porque foram enganadas, porque homem não presta, só mente, e todos os homens são
iguais. Elas desabafam tudo isso, adivinhem para quem, para quem? Para o Amigo Homem, é claro! Que, coitado, tem que aguentar frases do naipe de "ah, como eu queria um cara legal pra mim" ou "tá faltando homem no mercado" de suas amigas. Nós somos o quê, então? É óbvio que vocês não vão encontrar gente decente no meio do nada, mulheres! Às vezes penso que aquela história de mulher gostar de homem cafajeste é verdadeira. Antes eu não acreditava, mas a vida acaba por provar coisas incríveis. Fiquem com estes caras, é sério, divirtam-se na noite, mas não caiam na de pensar que eles estão a fim de vocês. Estão a fim de vocês no momento. Assim que eles acharem alguém melhor, irão largá-las para vocês chorarem nos braços dos amigos, esses sim, sempre presentes.

***

Não pensem que vai ser sempre assim. Quando vocês estiverem com 30, 40 anos, com a beleza começando a desbotar, não haverão mais homens caindo a seus pés. Aí, vocês vão se voltar para os amigos, que eram os que estavam lá desde o início, esperando a vez. Ah, sim, o Rogério! Ele sim é perfeito pra mim! Ele, superlegal e interessante, de confiança, que tem tudo a ver com a comigo, onde ele está agora? Ele está, minha cara, rico, bem sucedido e com uma mulher mais
nova que você. Feliz da vida.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Caçando borboletas

     Tenho uma obsessão com grupos sociais, ou "tribos", para quem prefere a expressão. Gosto muito de saber identificar padrões de comportamento e estilo que enquadram pessoas num mesmo grupo. É o meu lado antropólogo: em vez de investigar os modos de vida de civilizações antigas eu me interesso pelo moderno, pelo contemporâneo. E adoro quando descubro uma nova tribo. Fico tão empolgado quanto um caçador de borboletas que captura um novo espécime. Estudar tribos é como caçar borboletas, só que mais hétero. Comecei descobrindo os góticos. Lembram dos góticos? Não se vê mais por aí. Espécime em extinção.
      Lembro da época em que descobri os indies. Foi muito legal. Eu via aquelas pessoas usando roupas de brechó e expressões blasé e não sabia como chamá-las. Quando eu descobri o termo, foi como se eu pudesse espetar todo aquele povo num alfinete e colocá-los numa bonita moldura. Exemplares da espécime. Legal.
      Quando chegou o emo, as pessoas passaram a simplificar tudo. Agora tudo era emo. Bastava ser mais alternativo, ter um cabelinho diferente, e vapt, era taxado como emo na hora. Já vi chamarem um cara de dreads de emo. Por dentro, eu me revoltava. Aquele cara é um rasta, e não um emo! Ou um indie, um headbanger, ou seja lá o que fosse. Será que ninguém sabe a diferença? Povo inculto, esse. Eu não me atrapalhava. Sabia tudo de todos os grupos e tribos, todas as classes e gêneros.
     Até que me deparei com o hipster.
     A primeira vez que ouvi o termo foi no programa de rádio Cafezinho. O Arthur de Faria estava falando sobre jovens que ouviam MGTM, usavam óculos estilosos, lenços no pescoço e apreciavam coisas cult. Tling! Meu antropólogo interior despertou. Um termo novo, que eu nunca havia ouvido! Precisava descobrir mais sobre essa galera. Onde estavam, quem eram, o que ouviam. Era preciso pesquisar. Só pra dar um tom mais formal para a minha pesquisa, sugeri a cultura hipster como pauta para o jornal onde eu trabalho, o Hipertexto da Famecos. Assim mesmo. Cultura hipster. Antes eu nem sabia que eles existiam, agora já estava classificando-os como uma cultura. O pessoal adorou. Ninguém sabia o que era, e por isso mesmo instigava, deixava curioso. Revelaremos em primeira mão a nova onda cultural, que é tão nova que ninguém sabe o que é: cultura hipster. Num box adicional, várias outras tendências que antecederam o hipster, ou talvez as tribos que lhe deram origem. Hippies, talvez, pela semelhança do nome? Ou seria uma evolução natural de algum grupo atual? Afinal, o que é hipster?
     Surpreendentemente, a Wikipedia não me ajudou muito. Lá estava escrito que hipsters eram uma subcultura de jovens dos anos 40. Não era possível: hipster é uma coisa nova. Deve ter havido algum engano. Hipsters ouviam MGMT. Eu sabia muito pouco da banda; era a daquela música estranha, com os sintetizadores, como era mesmo o nome? E o que eles tocavam, electro-rock? É, deve ser. Hipsters ouvem electro-rock, então. Procurei associações entre hipsters e electro-rock com o sr. Google e ele me deixou na mão. Talvez a solução fosse ir no Porão do Beco, ou Cabaret do Beco, seja lá qual não estava fechado na época. Era certo que haveria algum metido a moderninho lá que se diria hipster.
     Antes de eu começar uma grande confusão, o meu colega Lucas Costa salvou-me da ignorância: não, MGMT não era electro-rock, era algo como um pseudo-rock psicodélico. Não tinha a ver com electro-rock. E, segundo ele, os hipsters de hoje são uma espécie de beatnics modernos, e estão concentrados principalmente em Nova York. É uma coisa que não chegou forte no Brasil, ainda. Senti que perdi a pauta, mas logo depois me animei: melhor ainda! Vou fazer uma matéria, pensei, prevendo a próxima tendência a invadir a cidade com força, dissecar o que ainda não era conhecido, mas que em breve seria moda. Assim eu acreditava, ao menos. O Lucas poderia me ajudar? Não, não poderia, ele já havia me dito tudo o que sabia sobre o assunto.
     De volta à prancheta, então. Tentei uma nova pesquisa com as informações adquiridas. Ainda não conseguia definir o que era ser hipster. Procurei por definições na internet. Depois de ler várias, pude chegar a uma conclusão definitiva:
     Hipster (do termo em inglês hip, inovador, na moda) é aquele ou aquela que, ao invés de seguir uma moda mainstream, faz a sua própria. Ele ou ela utiliza-se de influências de diversas subculturas, para construir um retrato do que é "cool". Em outras palavras, tudo o que é considerado estiloso, o hipster faz, ouve ou veste. O termo é inclusive usado em alguns momentos como sinônimo de poser, aquele que só faz para aparecer, que segue a estética de uma subcultura sem realmente ser parte dela. Nesse caso, hipster poderia ser usado como um termo depreciativo. Perguntar para as pessoas se elas são hipsters pode ser mal interpretado, como se eu estivesse chamando-as de falsas ou exibidas. Além disso, o que é considerado "cool" varia de uma época para a outra, de forma que a definição do hipster também muda. Se nos anos 40 era aquele que ouvia jazz, hoje é o que ouve MGMT, amanhã sabe-se lá o quê. É um assunto deveras instável. Achei melhor abandonar a pauta.
     Apesar da matéria não ter sido feita, esta pesquisa não foi de todo infrutífera. Tenho uma colega que estava me incomodando há tempos, porque eu não conseguia classificá-la. Ela usava roupas que eram ao mesmo tempo casuais e estilosas, um corte de cabelo extremamente cool, tinha pelo menos três óculos escuros daqueles que custam a vida e você ainda sai devendo. Para quem observasse de longe parecia que ela pegara um apanhado de tudo o que é considerado cool e vestira antes de ir para a aula, mas sem seguir uma única tendência específica. Não conseguia enquadrá-la em nenhum grupo. Agora eu sei: ela é uma hipster!
     Mais uma borboleta para a minha coleção.

domingo, 13 de setembro de 2009

Os olhos

O homem se distrai com o barulho da campainha e erra uma pincelada. O rosto do quadro fica com uma boca mal delineada. O homem larga o pincel e vai até a porta, cuidando para não tropeçar nas roupas e jornais velhos jogados no chão. Junto com as roupas, embalagens de salgadinhos e outras comidas se amontoam em volta do sofá. Pisa numa tigela e quase cai. Chega até a porta. Abre-a. É a Marina.
- Marina?
- Cadinho! Tudo bem?
- Ah... tudo, tudo.
Ele deixa-a entrar, meio desajeitado. O corpo esbelto e belo da mulher entra na sala, contrastando com a bagunça. O homem coça a cabeça, meio confuso.
- Ãhn, eh... o que você está fazendo aqui?
- Você anda sumido, parece que nem te vejo mais! Vim fazer uma visitinha. Opa, nem te abracei.
A mulher se aproxima para abraçá-lo. Ele consegue sentir o cheiro dela por entre a cabeleira loira. Ainda o mesmo perfume.
- O que anda fazendo? - pergunta ela.
- Trabalhando, trabalhando... trabalhando bastante, na verdade. Completamente sem tempo.
- Deu pra ver. Sua barba está pedindo para ser feita.
- Ah, pois é, nem me lembrei, é tanta coisa passando pela cabeça...
- Não sei o que deu em você, você antes sempre achava tempo para os amigos... agora parece que se afastou de mim.
Ela sabe exatamente o porquê. Prefere fazer que não. Talvez seja mais fácil assim. O homem desconversa.
- Não, impressão sua... é só que eu estou ocupado, mesmo...
Depois ficou meio perdido, sem saber o que fazer em seguida.
- Ãhn... peraí que eu vou fazer um café. Me espera aí, é bem rápido. - tirou algumas roupas de cima do sofá para dar lugar para ela sentar.
Da cozinha ouviu a mulher falar:
- Bonito o quadro que você está pintando...
- É? Valeu, tenho pintado bastante, ultimamente.
- É uma mulher, é?
- É.
- Bonito, os olhos verdes.
Levou o café para a sala. Enquanto a mulher distraía-se bebendo o café, aproveitou para tirar de vista algumas fotos que estavam espalhadas pelo chão. Fotos onde ela aparecia.
- Estou pensando em viajar para a Europa, neste verão. - disse ela.
- Ah é?
- Sim. Fazer um tour. Portugal, Espanha, Alemanha, França, Itália e Grécia.
- Passa em Paris?
- Claro. Você me conhece.
- Ô se conheço. Há tempos, inclusive.
E como conhece. Conhece tudo o que é possível conhecer. Já decorou todas as marcas na pele, todos os gestos que ela faz com as mãos quando fala. Todos os sorrisos. Consegue saber quando é um sorriso irônico, quando é um sorriso falso e quando é um sorriso sincero.
- Cadinho, você está me ouvindo?
Ela estava falando mas ele não prestou atenção. Ficou imerso nas lembranças. Ela o questionava agora, olhando-o com aqueles olhos verdes. Talvez tenham sido os olhos que começaram tudo. Quando ela falava, olhando-o com aqueles olhos, o homem se sentia hipnotizado. Não conseguia parar de olhar. Quando reparou nessa força que os olhos da mulher tinham, se sentira fisgado. Lembrava agora. Foi o começo do fim.
- Cadinho, você está me ouvindo?
- Desculpe, - disse ele, esfregando a cara - eu estou lerdo hoje.
A mulher olhava-o diretamente nos olhos. Ela não fez isso naquele dia. Naquele dia ela não conseguia levantar os olhos do chão. Ele lá, abrindo o seu coração, e ela sem conseguir olhá-lo nos olhos. Colocando-se na posição dela, o homem pensa que também não conseguiria fazê-lo. Mas não deixou de ficar triste por isso. Quanto mais intimidade se consegue com uma pessoa, mais fácil fica de machucá-la. Mas o homem queria o contrário. Queria garantir que ninguém nunca mais a machucaria. Queria ele mesmo protegê-la. Foi tudo muito rápido. Rápido demais para ela.
- A gente não conversa mais... eu sinto falta disso. - diz ela.
- Eu também.
- Vamos combinar algo para fazer juntos.
- Juntos?
- É! Eu, você, o pessoal... não podemos perder o contato. Você é muito importante pra mim.
Ela deu uma pausa.
- Eu não quero perder você como amigo. - terminou.
O homem ficou sem graça. Mudou de tática. Resolveu se fazer ele de desentendido.
- Me perder? Claro que não! Por que eu deixaria de ser seu amigo?
- Não sei! Só sei que eu não quero isso.
- Eu também não. Então não há problema nenhum.
- Promete?
- Como assim?
- Promete que não vai sumir assim de novo?
- Eu já disse que não sumi. Não há nada de diferente. - mas as suas olheiras recém inauguradas desmentiam a afirmação.
- Só promete, por favor.
- Tudo bem. Você sabe que pra você eu sempre digo sim.
"Mas você não diz sempre sim pra mim", pensa ele. Ela lê esse pensamento olhando para o homem. Ele percebe isso na expressão dela. São os olhos. São mágicos, só podem ser.
- Bom, acho melhor eu ir indo... - diz ela.
- Sim, sim, tudo bem. Só uma coisa: prometa você que não vai fugir de mim.
Agora quem faz essa pergunta é ele. Ela é pega de surpresa, mas responde:
- Sim, eu prometo.
Depois sorri. Sorriso difícil de analisar. Possivelmente compaixão.
Ele a leva até a porta. Mais uma vez se abraçam (mais uma vez ele sente o cheiro dela) e então se despedem. O homem senta no sofá, na posição na qual está acostumado a ficar por horas, principalmente nos últimos dias. O interfone toca. Ele atende. É ela.
- Oi. Cadinho?
- Marina?
- Eu não esqueci as chaves do carro aí em cima?
- Vou dar uma olhada.
- O quê? Está ruim de ouvir.
- Vou dar uma olhada!
- Ah, espera! Achei, estão aqui.
- Oi?
- Achei! Achei as chaves!
- Ah.
- Bom, então é isso.
- É isso.
Ele sente um nó na garganta.
- Te amo, Marina.
- Oi?
- Nada. Eu disse tchau.
- Tchau!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O colonizador colonizado

Tenho como colega numa de minhas cadeiras de faculdade uma lisboeta chamada Mafalda. Ou Mmm-ful-dã, que é como os portugueses pronunciam o nome. Uma menina muito "fish", a Mafalda. Não entendeu? Explico: "fish" é uma gíria para "legal", em Portugal. Acho que é assim mesmo que se escreve. Não sei se tem a ver com peixe. Vai ver lá em Lisboa peixe é considerado legal. Vai saber. Outra gíria curiosa da terra do rio Tejo é "gira". Quando algo é bonito, é "gira". Não sei se pode ser aplicado a pessoas também. Pra mim, chamar uma pessoa de "gira" soa como se estivesse chamando-a de louca, pinel. Acho que é porque chamavam o personagem o Rubião do Quincas Borba disso no livro, e ele era pinel. Dúvida: será que eles também falam "pinel" em Portugal?
Conversando com a Mafalda, descobrem-se coisas curiosas sobre a influência do Brasil no seu país. Que as novelas brasileiras passam em todo o mundo, não é novidade. Todo mundo leu isso em algum lugar. Agora, ouvir que Malhação bomba do outro lado do oceano da boca de uma portuguesa, com o seu sotaque característico pra não mentir a origem, é algo que só presenciando dá pra entender. Aliás, sabem como é o título de Malhação em Portugal? New Wave. Desde que o cenário trocou de uma academia para uma escola eles mudaram o título para New Wave. Por menor sentido que faça esse nome, faz mais do que chamar uma novela com foco em uma escola de "Malhação". Por que nós não fizemos isso?
Música brasileira bomba lá, também. Ivete Sangalo não me deixa mentir. É só olhar o Rock in Rio Lisboa (afinal, por que raios não mudam o nome do evento? Rock in Rio, como o nome diz, é Rock in Rio, não Rock in Rio Tejo), que, como um amigo meu vive reclamando, devia ser chamado de Axé in Rio Lisboa, porque é isso o que toca lá. E a moçada europeia gosta. Isso também é digno de nota: o pessoal de lá respeita a Ivete. Nós não, pois ela ficou estigmatizada como cantora de axé. A Mafalda não sabe o que é axé, mas é fã da Ivete. Lá eles nem sabem se aquilo é um gênero maior ou menor de música, ou que gênero é aquele, apenas curtem. Por aqui, deveríamos parar com o preconceito com a nossa música dita "ruim". Até porque lá em Portugal eles não têm o axé, tem o "pimba". Já ouviram o pimba? Ouçam, e depois tentem reclamar do axé.
Interessante como, há uns dois séculos atrás, copiávamos a sociedade lusitana, e agora nós exportamos a nossa cultura para eles. É uma inversão de papeis, o colonizado vira o colonizador. Em 500 anos, demos a volta por cima e viramos potência, servindo de exemplo para outros países de língua portuguesa, não só Portugal mas também alguns países da África. Já pensaram num Brasil potência mundial? Que Angelina Jolie o quê: Juliana Paes seria a atriz mais famosa do mundo. O Carnaval brasileiro seria mundial, e até no Oriente veríamos chinesas rebolando ao som de uma escola de samba. Um subgênero de filmes de ação que iria realmente decolar seriam os "favela movies", os filmes de guerra entre traficantes, com direito a efeitos especiais decentes e o Capitão Nascimento entrando ao lado de Rambo e John Mclane na galeria dos herois de ação. O lançamento do novo livro do Paulo Coelho mobilizaria pessoas do mundo inteiro a dormirem na frente das livrarias, isso se a obra não vazasse antes na rede. Já pensaram? Seria muito "fish". Ou não.