segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Caçando borboletas

     Tenho uma obsessão com grupos sociais, ou "tribos", para quem prefere a expressão. Gosto muito de saber identificar padrões de comportamento e estilo que enquadram pessoas num mesmo grupo. É o meu lado antropólogo: em vez de investigar os modos de vida de civilizações antigas eu me interesso pelo moderno, pelo contemporâneo. E adoro quando descubro uma nova tribo. Fico tão empolgado quanto um caçador de borboletas que captura um novo espécime. Estudar tribos é como caçar borboletas, só que mais hétero. Comecei descobrindo os góticos. Lembram dos góticos? Não se vê mais por aí. Espécime em extinção.
      Lembro da época em que descobri os indies. Foi muito legal. Eu via aquelas pessoas usando roupas de brechó e expressões blasé e não sabia como chamá-las. Quando eu descobri o termo, foi como se eu pudesse espetar todo aquele povo num alfinete e colocá-los numa bonita moldura. Exemplares da espécime. Legal.
      Quando chegou o emo, as pessoas passaram a simplificar tudo. Agora tudo era emo. Bastava ser mais alternativo, ter um cabelinho diferente, e vapt, era taxado como emo na hora. Já vi chamarem um cara de dreads de emo. Por dentro, eu me revoltava. Aquele cara é um rasta, e não um emo! Ou um indie, um headbanger, ou seja lá o que fosse. Será que ninguém sabe a diferença? Povo inculto, esse. Eu não me atrapalhava. Sabia tudo de todos os grupos e tribos, todas as classes e gêneros.
     Até que me deparei com o hipster.
     A primeira vez que ouvi o termo foi no programa de rádio Cafezinho. O Arthur de Faria estava falando sobre jovens que ouviam MGTM, usavam óculos estilosos, lenços no pescoço e apreciavam coisas cult. Tling! Meu antropólogo interior despertou. Um termo novo, que eu nunca havia ouvido! Precisava descobrir mais sobre essa galera. Onde estavam, quem eram, o que ouviam. Era preciso pesquisar. Só pra dar um tom mais formal para a minha pesquisa, sugeri a cultura hipster como pauta para o jornal onde eu trabalho, o Hipertexto da Famecos. Assim mesmo. Cultura hipster. Antes eu nem sabia que eles existiam, agora já estava classificando-os como uma cultura. O pessoal adorou. Ninguém sabia o que era, e por isso mesmo instigava, deixava curioso. Revelaremos em primeira mão a nova onda cultural, que é tão nova que ninguém sabe o que é: cultura hipster. Num box adicional, várias outras tendências que antecederam o hipster, ou talvez as tribos que lhe deram origem. Hippies, talvez, pela semelhança do nome? Ou seria uma evolução natural de algum grupo atual? Afinal, o que é hipster?
     Surpreendentemente, a Wikipedia não me ajudou muito. Lá estava escrito que hipsters eram uma subcultura de jovens dos anos 40. Não era possível: hipster é uma coisa nova. Deve ter havido algum engano. Hipsters ouviam MGMT. Eu sabia muito pouco da banda; era a daquela música estranha, com os sintetizadores, como era mesmo o nome? E o que eles tocavam, electro-rock? É, deve ser. Hipsters ouvem electro-rock, então. Procurei associações entre hipsters e electro-rock com o sr. Google e ele me deixou na mão. Talvez a solução fosse ir no Porão do Beco, ou Cabaret do Beco, seja lá qual não estava fechado na época. Era certo que haveria algum metido a moderninho lá que se diria hipster.
     Antes de eu começar uma grande confusão, o meu colega Lucas Costa salvou-me da ignorância: não, MGMT não era electro-rock, era algo como um pseudo-rock psicodélico. Não tinha a ver com electro-rock. E, segundo ele, os hipsters de hoje são uma espécie de beatnics modernos, e estão concentrados principalmente em Nova York. É uma coisa que não chegou forte no Brasil, ainda. Senti que perdi a pauta, mas logo depois me animei: melhor ainda! Vou fazer uma matéria, pensei, prevendo a próxima tendência a invadir a cidade com força, dissecar o que ainda não era conhecido, mas que em breve seria moda. Assim eu acreditava, ao menos. O Lucas poderia me ajudar? Não, não poderia, ele já havia me dito tudo o que sabia sobre o assunto.
     De volta à prancheta, então. Tentei uma nova pesquisa com as informações adquiridas. Ainda não conseguia definir o que era ser hipster. Procurei por definições na internet. Depois de ler várias, pude chegar a uma conclusão definitiva:
     Hipster (do termo em inglês hip, inovador, na moda) é aquele ou aquela que, ao invés de seguir uma moda mainstream, faz a sua própria. Ele ou ela utiliza-se de influências de diversas subculturas, para construir um retrato do que é "cool". Em outras palavras, tudo o que é considerado estiloso, o hipster faz, ouve ou veste. O termo é inclusive usado em alguns momentos como sinônimo de poser, aquele que só faz para aparecer, que segue a estética de uma subcultura sem realmente ser parte dela. Nesse caso, hipster poderia ser usado como um termo depreciativo. Perguntar para as pessoas se elas são hipsters pode ser mal interpretado, como se eu estivesse chamando-as de falsas ou exibidas. Além disso, o que é considerado "cool" varia de uma época para a outra, de forma que a definição do hipster também muda. Se nos anos 40 era aquele que ouvia jazz, hoje é o que ouve MGMT, amanhã sabe-se lá o quê. É um assunto deveras instável. Achei melhor abandonar a pauta.
     Apesar da matéria não ter sido feita, esta pesquisa não foi de todo infrutífera. Tenho uma colega que estava me incomodando há tempos, porque eu não conseguia classificá-la. Ela usava roupas que eram ao mesmo tempo casuais e estilosas, um corte de cabelo extremamente cool, tinha pelo menos três óculos escuros daqueles que custam a vida e você ainda sai devendo. Para quem observasse de longe parecia que ela pegara um apanhado de tudo o que é considerado cool e vestira antes de ir para a aula, mas sem seguir uma única tendência específica. Não conseguia enquadrá-la em nenhum grupo. Agora eu sei: ela é uma hipster!
     Mais uma borboleta para a minha coleção.

domingo, 13 de setembro de 2009

Os olhos

O homem se distrai com o barulho da campainha e erra uma pincelada. O rosto do quadro fica com uma boca mal delineada. O homem larga o pincel e vai até a porta, cuidando para não tropeçar nas roupas e jornais velhos jogados no chão. Junto com as roupas, embalagens de salgadinhos e outras comidas se amontoam em volta do sofá. Pisa numa tigela e quase cai. Chega até a porta. Abre-a. É a Marina.
- Marina?
- Cadinho! Tudo bem?
- Ah... tudo, tudo.
Ele deixa-a entrar, meio desajeitado. O corpo esbelto e belo da mulher entra na sala, contrastando com a bagunça. O homem coça a cabeça, meio confuso.
- Ãhn, eh... o que você está fazendo aqui?
- Você anda sumido, parece que nem te vejo mais! Vim fazer uma visitinha. Opa, nem te abracei.
A mulher se aproxima para abraçá-lo. Ele consegue sentir o cheiro dela por entre a cabeleira loira. Ainda o mesmo perfume.
- O que anda fazendo? - pergunta ela.
- Trabalhando, trabalhando... trabalhando bastante, na verdade. Completamente sem tempo.
- Deu pra ver. Sua barba está pedindo para ser feita.
- Ah, pois é, nem me lembrei, é tanta coisa passando pela cabeça...
- Não sei o que deu em você, você antes sempre achava tempo para os amigos... agora parece que se afastou de mim.
Ela sabe exatamente o porquê. Prefere fazer que não. Talvez seja mais fácil assim. O homem desconversa.
- Não, impressão sua... é só que eu estou ocupado, mesmo...
Depois ficou meio perdido, sem saber o que fazer em seguida.
- Ãhn... peraí que eu vou fazer um café. Me espera aí, é bem rápido. - tirou algumas roupas de cima do sofá para dar lugar para ela sentar.
Da cozinha ouviu a mulher falar:
- Bonito o quadro que você está pintando...
- É? Valeu, tenho pintado bastante, ultimamente.
- É uma mulher, é?
- É.
- Bonito, os olhos verdes.
Levou o café para a sala. Enquanto a mulher distraía-se bebendo o café, aproveitou para tirar de vista algumas fotos que estavam espalhadas pelo chão. Fotos onde ela aparecia.
- Estou pensando em viajar para a Europa, neste verão. - disse ela.
- Ah é?
- Sim. Fazer um tour. Portugal, Espanha, Alemanha, França, Itália e Grécia.
- Passa em Paris?
- Claro. Você me conhece.
- Ô se conheço. Há tempos, inclusive.
E como conhece. Conhece tudo o que é possível conhecer. Já decorou todas as marcas na pele, todos os gestos que ela faz com as mãos quando fala. Todos os sorrisos. Consegue saber quando é um sorriso irônico, quando é um sorriso falso e quando é um sorriso sincero.
- Cadinho, você está me ouvindo?
Ela estava falando mas ele não prestou atenção. Ficou imerso nas lembranças. Ela o questionava agora, olhando-o com aqueles olhos verdes. Talvez tenham sido os olhos que começaram tudo. Quando ela falava, olhando-o com aqueles olhos, o homem se sentia hipnotizado. Não conseguia parar de olhar. Quando reparou nessa força que os olhos da mulher tinham, se sentira fisgado. Lembrava agora. Foi o começo do fim.
- Cadinho, você está me ouvindo?
- Desculpe, - disse ele, esfregando a cara - eu estou lerdo hoje.
A mulher olhava-o diretamente nos olhos. Ela não fez isso naquele dia. Naquele dia ela não conseguia levantar os olhos do chão. Ele lá, abrindo o seu coração, e ela sem conseguir olhá-lo nos olhos. Colocando-se na posição dela, o homem pensa que também não conseguiria fazê-lo. Mas não deixou de ficar triste por isso. Quanto mais intimidade se consegue com uma pessoa, mais fácil fica de machucá-la. Mas o homem queria o contrário. Queria garantir que ninguém nunca mais a machucaria. Queria ele mesmo protegê-la. Foi tudo muito rápido. Rápido demais para ela.
- A gente não conversa mais... eu sinto falta disso. - diz ela.
- Eu também.
- Vamos combinar algo para fazer juntos.
- Juntos?
- É! Eu, você, o pessoal... não podemos perder o contato. Você é muito importante pra mim.
Ela deu uma pausa.
- Eu não quero perder você como amigo. - terminou.
O homem ficou sem graça. Mudou de tática. Resolveu se fazer ele de desentendido.
- Me perder? Claro que não! Por que eu deixaria de ser seu amigo?
- Não sei! Só sei que eu não quero isso.
- Eu também não. Então não há problema nenhum.
- Promete?
- Como assim?
- Promete que não vai sumir assim de novo?
- Eu já disse que não sumi. Não há nada de diferente. - mas as suas olheiras recém inauguradas desmentiam a afirmação.
- Só promete, por favor.
- Tudo bem. Você sabe que pra você eu sempre digo sim.
"Mas você não diz sempre sim pra mim", pensa ele. Ela lê esse pensamento olhando para o homem. Ele percebe isso na expressão dela. São os olhos. São mágicos, só podem ser.
- Bom, acho melhor eu ir indo... - diz ela.
- Sim, sim, tudo bem. Só uma coisa: prometa você que não vai fugir de mim.
Agora quem faz essa pergunta é ele. Ela é pega de surpresa, mas responde:
- Sim, eu prometo.
Depois sorri. Sorriso difícil de analisar. Possivelmente compaixão.
Ele a leva até a porta. Mais uma vez se abraçam (mais uma vez ele sente o cheiro dela) e então se despedem. O homem senta no sofá, na posição na qual está acostumado a ficar por horas, principalmente nos últimos dias. O interfone toca. Ele atende. É ela.
- Oi. Cadinho?
- Marina?
- Eu não esqueci as chaves do carro aí em cima?
- Vou dar uma olhada.
- O quê? Está ruim de ouvir.
- Vou dar uma olhada!
- Ah, espera! Achei, estão aqui.
- Oi?
- Achei! Achei as chaves!
- Ah.
- Bom, então é isso.
- É isso.
Ele sente um nó na garganta.
- Te amo, Marina.
- Oi?
- Nada. Eu disse tchau.
- Tchau!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O colonizador colonizado

Tenho como colega numa de minhas cadeiras de faculdade uma lisboeta chamada Mafalda. Ou Mmm-ful-dã, que é como os portugueses pronunciam o nome. Uma menina muito "fish", a Mafalda. Não entendeu? Explico: "fish" é uma gíria para "legal", em Portugal. Acho que é assim mesmo que se escreve. Não sei se tem a ver com peixe. Vai ver lá em Lisboa peixe é considerado legal. Vai saber. Outra gíria curiosa da terra do rio Tejo é "gira". Quando algo é bonito, é "gira". Não sei se pode ser aplicado a pessoas também. Pra mim, chamar uma pessoa de "gira" soa como se estivesse chamando-a de louca, pinel. Acho que é porque chamavam o personagem o Rubião do Quincas Borba disso no livro, e ele era pinel. Dúvida: será que eles também falam "pinel" em Portugal?
Conversando com a Mafalda, descobrem-se coisas curiosas sobre a influência do Brasil no seu país. Que as novelas brasileiras passam em todo o mundo, não é novidade. Todo mundo leu isso em algum lugar. Agora, ouvir que Malhação bomba do outro lado do oceano da boca de uma portuguesa, com o seu sotaque característico pra não mentir a origem, é algo que só presenciando dá pra entender. Aliás, sabem como é o título de Malhação em Portugal? New Wave. Desde que o cenário trocou de uma academia para uma escola eles mudaram o título para New Wave. Por menor sentido que faça esse nome, faz mais do que chamar uma novela com foco em uma escola de "Malhação". Por que nós não fizemos isso?
Música brasileira bomba lá, também. Ivete Sangalo não me deixa mentir. É só olhar o Rock in Rio Lisboa (afinal, por que raios não mudam o nome do evento? Rock in Rio, como o nome diz, é Rock in Rio, não Rock in Rio Tejo), que, como um amigo meu vive reclamando, devia ser chamado de Axé in Rio Lisboa, porque é isso o que toca lá. E a moçada europeia gosta. Isso também é digno de nota: o pessoal de lá respeita a Ivete. Nós não, pois ela ficou estigmatizada como cantora de axé. A Mafalda não sabe o que é axé, mas é fã da Ivete. Lá eles nem sabem se aquilo é um gênero maior ou menor de música, ou que gênero é aquele, apenas curtem. Por aqui, deveríamos parar com o preconceito com a nossa música dita "ruim". Até porque lá em Portugal eles não têm o axé, tem o "pimba". Já ouviram o pimba? Ouçam, e depois tentem reclamar do axé.
Interessante como, há uns dois séculos atrás, copiávamos a sociedade lusitana, e agora nós exportamos a nossa cultura para eles. É uma inversão de papeis, o colonizado vira o colonizador. Em 500 anos, demos a volta por cima e viramos potência, servindo de exemplo para outros países de língua portuguesa, não só Portugal mas também alguns países da África. Já pensaram num Brasil potência mundial? Que Angelina Jolie o quê: Juliana Paes seria a atriz mais famosa do mundo. O Carnaval brasileiro seria mundial, e até no Oriente veríamos chinesas rebolando ao som de uma escola de samba. Um subgênero de filmes de ação que iria realmente decolar seriam os "favela movies", os filmes de guerra entre traficantes, com direito a efeitos especiais decentes e o Capitão Nascimento entrando ao lado de Rambo e John Mclane na galeria dos herois de ação. O lançamento do novo livro do Paulo Coelho mobilizaria pessoas do mundo inteiro a dormirem na frente das livrarias, isso se a obra não vazasse antes na rede. Já pensaram? Seria muito "fish". Ou não.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O comunista

Carlos era tão comunista, mas tão comunista, que aprendeu a escrever com a mão canhota só pra poder se dizer cem por cento de esquerda. Defendia fervorosamente os ideais de igualdade capital para todos os homens, e nada o faria mudar de ideia. Fazia ele mesmo a estampa de suas camisetas do Che Guevara, pois comprar uma seria trair os ideais de seu ídolo. Quando jogava War, sempre escolhia o exército Vermelho. Nenhum de seus amigos, mesmo os de esquerda, chegavam a tal radicalismo. Se alguém ousava desafiar seus argumentos, ou dizer que o comunismo morreu, Carlos virava um possesso, e vociferava argumentos contra, invocando de Marx e Engels até os arautos do novo socialismo latino-americano. Normalmente o outro desistia, e ia embora todo sujo de cuspe, que o camarada inadvertidamente espalhara pra todo o lado. Com isso, os amigos do Carlos até podiam conviver, era só cuidar para não ofender os seus ideais. O problema era quando ele inventava de ver ofensas onde não havia.
- Putz, o negócio lá em casa tá russo...
- Ah é? - já se levantava Carlos, ameaçadoramente - Por quê? Porque russo é comunista e comunista é sinônimo de ruim, é isso?
- Não, não é isso - diz o outro assustado -  é porque o pessoal tá no vermelho...
- E qual é o problema de estar no Vermelho? Eu estou no Vermelho desde que eu nasci e nunca vou sair!
E acabava a fala citando Che Guevara: "revolución hasta la victoria siempre!".
Os amigos às vezes se irritavam. Mas não podiam reclamar. Ter o Carlos como amigo tinha seu lado bom. Ele emprestava tudo: livros, cds, revistas, filmes, era só pedir e ele prontamente colocava à disposição. Na sua filosofia, a propriedade privada deveria ser abolida. Um bem seu era um bem de todos. O que não impedia o Sílvio de provocá-lo de quando em quando:
- Comunismo é uma coisa muito bonita. Pena que não funciona.
- Como não?! - bradava Carlos já na defensiva.
- Ué, já foi testado na União Soviética e não funcionou. Só piorou tudo.
- Piorou?! Piorou nada! O grande culpado foram os interesses capitalistas do império americano, que acabaram por denegrir a imagem de um modelo igualitário de sociedade... - e lá vinha mais Marx e Engels e Trotski e etc.
Quem mais se incomodava com o Carlos era a namorada dele, a Lívia. A Lívia já tinha enchido o saco de tanta bobagem revolucionária. Era Che pra cá, Stalin pra lá, e ela com dor de cabeça de ouvir o Carlos gritar com ela sempre que comprava uma Coca-Cola. A gota d'água foi quando chegou certa manhã na casa do Carlos e tropeçou em alguma coisa. Um emaranhado de trapos no chão. O emaranhado de trapos se mexia. Lívia gritou.
- AHH! CARLOS, O QUE QUE É ISSO!?
- Calma, amor - disse o Carlos, entrando relaxado na sala de estar, ainda vestido com o seu pijama vermelho - é só o Arivaldo, o mendigo aqui da rua.
- Bom dia, dona. - disse o Arivaldo.
- Carlos, o que é que um mendigo está fazendo dormindo na sua sala de estar? - disse Lívia, lívida de raiva.
- Ah é? E você queria o quê? Que eu deixasse um companheiro dormir na rua quando eu tenho espaço suficiente pra dividir com ele? Que tipo de mente pequeno-burguesa você tem? - retrucou o Carlos.
- Ah, não. Você passou dos limites, Carlos. - Lívia se encaminhou para a saída.
- Calma, amor! - disse Carlos, correndo atrás dela - Desculpe por ofendê-la, eu não quis chamá-la de pequeno-burguesa, saiu sem querer!
- Ah, você não entende mesmo, não é?
- Volta aqui, meu amor! Minha Olguinha, minha Aleida, minha...
Haveria volta. Lívia planejou a vingança. Fizeram as pazes, mas no outro dia Carlos entrou no quarto de Lívia e encontrou-a na cama com outro homem.
- Lívia, o que significa isso?! - disse ele, surpreendido.
Lívia nem fingiu surpresa; ajeitou o lençol calmamente em volta do corpo e disse:
- Não é você que é de repartir tudo? Me reparte com os outros então!
Carlos ficou quieto. Continuou namorando com Lívia, mas agora não parecia mais tão animado com ela. Os amigos souberam. De vez em quando o Sílvio largava uma:
- Carlos! Tô precisando da tua namorada. Me empresta ela hoje à noite?
- Não enche!
E o Sílvio ria gostosamente. Esse Carlos era um sarro.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Sobre o amor

Ah, amar, esse verbo intransitivo, conforme diria o poeta. Ah, o amor nas suas mais variadas formas, sabores e texturas. Ele chega de supetão, o amor. Às vezes, vem devagarinho, você nem se dá conta, quando de repente ele aparece como que do nada. Como aquele priminho, que você viu nascer e certo dia você nota que ele está do seu tamanho. Do nada. Muito estranho. Existe o amor-abajur: é quando aquela pessoa que conhece há tempos, vê todo dia, que você está mais acostumada que o abajur da sua sala, de repente se torna especial: um trejeito do sorriso, um olhar diferente, um jeito de mexer as mãos que você gosta, e você percebe que você não gosta, você ama. Você ama aquele sorriso. Ele sempre esteve lá, mas agora que você viu melhor, ele parece especial. Depois você nota que todas as outras coisas que você gostava naquela pessoa você não só gosta como ama. A associação acontece assim, bem rápido. Até os defeitos você passa a relevar. Inclusive, você passa a amar os defeitos. Começa a vê-los como qualidades. Aquele sotaque horrível para você tem todo um charme. Você ficaria até chateado se ela não tivesse os defeitos, porque aí não seria a mesma pessoa que você ama. Imagine uma pessoa sem defeitos. Muito chato. Legal é alguém cheio de falhas.
- Sabia que a Ângela tem fotofobia?
- Sério? Que estranho.
- Estranho?! Eu acho lindo!
O amor não escolhe quem ou, às vezes, o quê. É conhecida a história do Homem Playstation. O Homem Playstation amava o seu Playstation. Tanto que mudou o seu nome para o do videogame. Mas somente isso não era o suficiente para provar o seu amor: ele decidiu procurar um padre que concordasse em casá-lo com o seu Playstation. Ou "sua" Playstation, no caso. Eu gostaria de estar inventando isso, mas esta história é verídica. Até onde eu sei nenhum padre concordou em casá-los. Imagino que foi para o melhor: a vida conjugal dos dois seria muito difícil. O mundo não está preparado para o amor entre um homem e um console de entretenimento virtual. Não interessa onde morassem, a vizinhança certamente não olharia-os com bons olhos. O seguro de saúde da família teria que cobrir peças de reposição. E, por falar em família, o único meio de se constituir uma seria por adoção. Ou comprando um daqueles Playstations portáteis numa loja. Não teria dado certo. Não sei se os dois ainda estão juntos. Talvez chegaram a conclusão de que o relacionamento nunca funcionaria. Às vezes o Homem Playstation não resistiria e voltaria para o seu videogame por mais uma noite, apenas para uma última partida de Tekken. Depois diriam que era a última vez e tentariam tocar as suas vidas. Não é culpa de nenhum dos dois. É culpa do amor. Ah, o amor, coisa tão vil e cruel.

***

Gabriel García Márquez, em seu livro "Del Amor y otros Demonios", conta a história de um padre que deve exorcizar uma menina, e acaba se apaixonando por ela. No livro, o amor é o demônio. O verdadeiro possuído não é a menina, mas o padre, por esse sentimento tão poderoso e difícil de domar. Ele não pode, não deve amar, mas acontece, pombas, o que se vai fazer. Sufocar o amor, ou um amor que nunca é revelado, é uma dor masoquista: dói porque fica preso dentro da pessoa, mas é bom porque amar faz a pessoa se sentir bem. Amor é uma droga, assim como o crack. Só não precisa de cachimbo. Quem está amando se sente bem, alto, feliz, com um sentido na vida. O mundo, quem diria, tem um centro de apoio, e este centro é uma pessoa. Tudo faz sentido. Tudo irá se acertar no final. Não se sabe porquê, mas se tem aquele... aquele... sabe? Aquele sentimento de que tudo se ajeita. O mundo é perfeito, as árvores são muito verdes e os passarinhos cantam etc. Se o amor é sufocado, o sentimento bom continua, mas vira uma certa melancolia. Aquele negócio de querer extravasar o sentimento e não poder. Às vezes se sente que se pode tentar mudar, parar de pensar naquela pessoa, mas a melancolia é tão boa, tão confortável...
No livro o padre resolve expor o seu amor à menina, mas a coisa não acaba muito bem. E na vida real, deve-se expor o amor, mesmo sabendo que tudo pode dar errado? O que é melhor, arriscar tudo em algo que tem muitas chances de dar muito errado e uma pequena chance de dar muito certo ou segurar o sentimento e esperar que ele passe, mesmo desejando que isso não aconteça? Há uma resposta definitiva? Eu já não sei mais. Deixo aqui as perguntas. Vocês é que me respondam.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Cartão vermelho

Briga no Senado hoje. Mais uma. Eduardo "O Juiz" Suplicy contra Heráclito "el Fuerte". Tudo por causa do cartão vermelho que Suplicy mostrou a Sarney, ou mostraria, se esse estivesse presente na câmara. Heráclito desafiou Sarney a mostrar o cartão também a Lula, um golpe que provocou a ira do adversário. A reação do senador foi feia: gritos e vociferações e o famoso movimento de apontar o dedo com ódio, como se o dedo pudesse vencer a distância e cutucar com força o inimigo. Por mais entretenimento que essas brigas possam proporcionar, eu preferiria pagar o pay-per-view e ver a luta-livre, e os senadores poderiam trabalhar, pra variar um pouco. O evento de hoje reforçou um dos meus pensamentos, que agora, dadas as atuais circunstâncias, virou uma certeza: é preciso dar cartão vermelho para todos os senadores. Até o próprio Suplicy. A instituição Senado como um todo. Peço o unicameralismo no Brasil. Chega de Senado.
Pensem bem: é o momento perfeito. O Senado em crise, com metade dos senadores não trabalhando porque seu chefe é o Sarney, a outra metade apoiando o Sarney, ou seja, quem trabalha não presta. Esse racha está atrasando o funcionamento do Legislativo e, consequentemente, do Brasil. O Senado está atrasando o país. Que se pode fazer, minha gente? Fechar a Casa! Não há outras soluções a vista. O bicameralismo não deu certo. Foi feito com a melhor das intenções, mas não funciona. Como o comunismo soviético. Ora, se os caras que votam as leis do meu país são aquelas pessoas gritando como animais entre si, então eu não quero que eles tenham esse direito. O Brasil poderia funcionar bem somente com a Câmara dos Deputados. Pensem no que iríamos economizar em salários exorbitantes. Pensem no que iríamos economizar em dinheiro que poderia ser desviado! E tempo, sem todas as brigas para ocupar o espaço que deveria ser destinado a decidir sobre o futuro. O nosso futuro. Os ganhos são muitos.
É por isso que eu sou a favor de um plebiscito a respeito. Unicameralismo: sim ou não? Estão nos devendo um plebiscito, já que o Fogaça nos prometeu um sobre o Pontal e no final não foi bem isso o que houve. Somos, afinal, uma nação democrática, e eu tenho certeza de que a minha opinião é compartilhada por mais brasileiros, senão a maioria deles. Mas, é claro, para um plebiscito desses ser realizado, teria que passar pelos senadores. E os senadores não iriam dar um tiro no próprio pé. Como destruir este câncer, então? Não sei. Enquanto isso não se resolve, ficamos brincando de mostrar cartões vermelhos, fingindo que estamos expulsando alguém. Quando na verdade quem está sendo expulso de algo é nós, da escolha do nosso futuro. Final piegas, eu sei. Mas é isso aí. Agora é esperar o mandato do Sarney acabar, já que de outro jeito ele não sai de lá.

sábado, 22 de agosto de 2009

O Augusto

O Augusto era um cara bacana, mas muito travado quando o assunto era mulher. Seus amigos se reuniam e contavam seus casos com a mulherada, e o Augusto ali, quieto. Era muito tímido. Não tinha coragem de chegar numa menina, ficava sem graça. Os amigos tentavam ajudá-lo:
- Vai lá cara! Chega nela! O máximo que vai acontecer é ela te dizer não...
- Não sei... vocês sabem como eu sou...
- Ah, cara! Você se preocupa demais! Vai lá agora e seja homem!
- Tá, tá...
E o Augusto ia e acabava se dando mal. Travava mesmo, se enrolava com as palavras. Esse era o problema: vontade de mudar ele tinha, mas simplesmente não conseguia. Os amigos se irritavam no início, mas depois perceberam que não era só falta de coragem, era um problema maior do que ele. Algumas pessoas tem dificuldade de pronunciar os erres, outras de falar com mulheres. E, por mais que o Augusto quisesse mudar, não conseguia. Os amigos entendiam isso e se compadeciam de seu caso. Todos faziam planos para ver o Augusto com uma mulher, mas eles sempre falhavam; o Augusto sempre estragava tudo na hora H.
- Pô, Augusto!
- Desculpem, caras.
- Tava tudo indo tão bem...
- Eu sei, eu sei...
- Pra que vomitar no vestido dela?
- Justamente porque tudo estava indo bem! Fiquei nervoso, ué.

Dessa vez tudo tinha que dar certo. Os amigos do Augusto organizaram uma festa, cujo propósito girava em torno de fazer o Augusto ficar com a Aninha. A Aninha foi uma descoberta. Foi o Leandro quem descobriu que a Aninha achava o Augusto bonito. Investigou mais um pouco e descobriu que ela ficaria, sim, com o Augusto, se pintasse a oportunidade. Anunciou a descoberta aos amigos com a alegria de um biólogo que comunica aos seus colegas que o dodô, afinal, não estava extinto. O Augusto tinha salvação. Era só garantir as condições propícias para que os dois ficassem, e garantir que o Augusto não fizesse uma das suas. Pensaram tudo com cuidado, se sentindo como os militares que planejaram o desembarque do Dia D. O próprio Leandro ficou de organizar a festa para o próximo sábado, e avisar o pessoal. Era preciso garantir que o Gabriel pudesse comparecer. O Gabriel era o antigo caso da Aninha. Em todas as festas, ela tentava fazer com que ele sentisse ciúmes ficando com outros caras. O Gabriel nem ligava, mas ele seria útil para o plano.
O Augusto chegou na festa acompanhado de seus amigos. Cumprimentou o Leandro.
- E aí, Augusto, beleza?
- Tudo ótimo... tudo ótimo mesmo... tudo na mais santa paz...
O Augusto parecia meio estranho. Leandro resolveu perguntar para o Fábio:
- Tá tudo bem com ele?
- A gente botou uns calmantes na bebida dele... sabe, pra ele não ficar nervoso.
Explicaram a situação para o Augusto. Foi muito mais fácil do que o normal, com ele dopado. A Aninha iria chegar a qualquer instante. Iriam puxar conversa com ela e depois sair de fininho, deixando-a falando a sós com o Augusto. Deram-lhe a recomendação de não falar muito. A Aninha falava bastante, era só ele responder com monossílabos e frases curtas, e talvez alguns gestos e expressões faciais.
- Peraí, expressões faciais? - disse o Cadú.
- É. Levantar as sombrancelhas, fazer caras de espanto, interrogação. Economiza frases e diminui as chances de o Augusto falar bobagem.
- Tá, mas desajeitado como ele é, só vai conseguir fazer caretas.
- Tá, esquece as expressões. Mantenha-se nos monossílabos.
O essencial era não falar muito. Iria fazer o tipo caladão misterioso.
Chegou a Aninha. Primeiro foram uns dois junto com o Augusto puxar conversa com ela. Assim ele não se sentia tão pressionado logo de início, tendo que ficar sozinho com a Aninha. Falaram bastante do próprio Augusto:
- E aí, Marco, conseguiu a vaga no time do colégio? - perguntou a Aninha.
- É, até consegui, mas só porque o Augusto não quis tentar a vaga. Senão eu estaria fora.
- Sério? O Augusto joga bem?
- Joga bem? Rá! O cara é um monstro do futebol! Nos joguinhos que a gente faz eu só jogo se for no time dele. Senão, eu já desisto antes de entrar em campo.
- É mesmo? Nossa, Augusto, por que você não tentou pegar a vaga?
O Augusto soltou um grunhido que poderia significar várias coisas. O Marco riu e explicou:
- Modéstia.
- Modéstia é o Augusto ter vindo com esse carrinho dele hoje. - falou o Cadú -Eu sei que nessa parte da cidade rola assalto, mas bem que você podia ter vindo com a BMW, hein, Augusto?
- Uau, Augusto! Você tem uma BMW?
- Pois é, né, enquanto ele não consegue coisa melhor...
Aos poucos foram se retirando para deixar o Augusto e a Aninha sozinhos. Dava pra ver que ela estava caidinha por ele. Tocava no braço dele a toda hora, e estavam a uma distância perigosamente próxima. Os amigos observavam, extasiados, enquanto a Aninha falava e falava, e o Augusto respondia com expressões curtas e abanos de cabeça bem calculados. Estava dando certo!
Só faltava um último empurrãozinho. Puxaram o Gabriel para bater um papo em um lugar onde ele pudesse ver a Aninha e vice-versa. A Aninha, ao notar a presença do ex, não teve dúvida: lascou um beijo no Augusto.
O Leandro foi avisar o resto do grupo.
- Pessoal, pessoal! Deu certo! Deu certo!
Todos comemoraram. Alegria! O Augusto finalmente desencalhara. Os amigos se cumprimentavam com abraços de congratulações, como se o Brasil tivesse acabado de ganhar a Copa. O Augusto conseguiu! Que grande feito para a humanidade. Todos bebiam e regorjizavam, enquanto obsevavam Aninha e Augusto juntinhos, mais grudados que gêmeos siameses. Podem beber, que a noite é para comemorar! Enquanto todos bebem e falam alegremente, o Augusto se aproxima do Fábio com uma cerveja.
- Ué? Augusto?
- E aí!
- O que você está fazendo aqui, sem a Aninha? Vai deixar ela sozinha?
- Ah, pois é, a Aninha... sabe o que é?
O Fábio não pergunta o que é. Só sustenta a mesma cara de dúvida e espanto.
- Eu acho que ela não faz muito o meu tipo.
O Fábio não tinha ouvido.
- Oi?
- Ela não faz meu tipo!
O Fábio ficou encarando o Augusto por um momento.
- Como assim, não faz seu tipo?
- Sei lá. Não rolou. Que se vai fazer?
- Volta lá.
- Oi?
- Volta lá. Agora.
- Mas eu disse que...
- Olha só - Fábio colocou a mão no ombro de Augusto e virou-o em direção ao resto do pessoal. - tá vendo o pessoal lá, feliz? A gente tá comemorando. Por você.
- Mas eu não...
- Presta atenção. A vida tá difícil, tá? A Coréia tá com a bomba, o Senado tá uma loucura, o pessoal tá louco com essa epidemia de gripe A... a gente precisa de um motivo pra comemorar, entende? Não faz isso. Não estraga a nossa festa. Volta lá.
- Mas eu...
- Eu acho que você não entendeu... - Fábio apertou o ombro de Augusto com muito mais força. - isso não foi um pedido. Volta agora.
O Augusto olhava assustado para o Fábio. Assentiu com a cabeça e deu meia volta. O Leandro notou que o Augusto e o Fábio estavam conversando. Perguntou:
- O que houve?
- O Augusto veio aqui pegar cerveja - disse o Fábio pro pessoal - e já já está voltando pra Aninha!
Vivas. Gritos de alegria. Risadas. A noite iria ser boa.